Crónica Opinião

UM FASCISTA, UM GAY E UMA PORTISTA ENTRAM NUM PROGRAMA DE TELEVISÃO…

Este podia ser o início de mais uma anedota aborrecida e pouco original, mas a TVI decidiu chegar-se à frente e torná-la realidade. Para quem não sabe, a mente do repórter Bruno Caetano teve a brilhante ideia de convidar Mário Machado, um conhecido fascista já condenado por crimes de ódio, para uma entrevista no Você na TV, com o mote: “Precisamos de um novo Salazar?”.

Mas não é só isso. Bruno Caetano chegou a afirmar a necessidade do regresso de Salazar para impor autoridade e Manuel Luís Goucha descreveu Mário Machado como “autor de declarações polémicas”. Admito que sou apreciadora de eufemismos, mas ainda não conhecia essa de descrever um assassino como um mero “autor de declarações polémicas”. Obrigada, Manuel Luís Goucha.

Tem piada brincar com o absurdo de situações destas, mas a verdade é que com a retórica certa (que, julgando-se pelos comentários nas redes sociais, parece já estar a dar frutos) e com o poder do seu lado, a conclusão da visão dos Mários Machado do mundo é o genocídio. Suponho que haja uma certa ironia em ter um convidado deste calibre no mesmo dia em que saiu uma notícia sobre as monstruosidades do Holocausto. Dar tempo de antena à extrema-direita e abrir a porta aos suspiros saudosos por um novo ditador é de uma irresponsabilidade atroz e banaliza uma ideologia responsável por um dos períodos mais negros da História.

Entrevistar Mário Machado é enfiar um fascista condenado por homicídio num programa onde habitualmente se fala das selfies das Kardashian e se mostra novas receitas do chefe Ermida (que são deliciosas, falo por experiência própria). É reduzir a meras “declarações polémicas” a defesa de limpezas étnicas. É trivializar coisas muito sérias, porque o que para Manuel Luís Goucha é um mero “ponto de vista”, para quem não pertence à sociedade ideal dos fascistas é uma questão de vida ou de morte. Mas suponho que não se pode perder esta “oportunidade de ouro” para sacar umas audiências. Afinal, não existe publicidade, não é verdade?

O Goucha parece ter rasgado uma página do livro de Dave Rubin, outro desses homossexuais que defende até à morte o direito de fascistas vomitarem bagatelas racistas e homofóbicas em nome da liberdade de expressão. Mário Machado tem o direito de achar o que quiser, mas não tem o direito a um megafone. Mas e que belo megafone que a TVI lhe deu! Em pleno daytime e perante uma audiência que liga a televisão para se esquecer da solidão e da esmola a que chamam reforma que recebe, só para ser surpreendida por um nazi nostálgico pelos anos da PIDE e para ser bombardeada com apelos ao mágico número 760. Maravilhoso.

No final de contas, o Salazar continua na cova, Mário Machado conseguiu a atenção mediática que queria e a culpa morre solteira. E já que a TVI parece tão interessada em amplificar a voz dos pobres fascistas marginalizados, deixo aqui algumas sugestões para possíveis futuros convidados, igualmente politicamente incorretos:

  • Os Ciprianos, sobre os benefícios para a saúde dos porcos da dieta com carne de crianças de 8 anos;
  • Os violadores da discoteca em Gaia, sobre as malditas feministas que já nem deixam um gajo comer uma gaja inconsciente à vontade;
  • Pedro Dias, sobre a violência da polícia que o obrigou a fugir durante 28 dias.

P.S: Pelos vistos, a RTP já se antecipou à TVI em relação ao Pedro Dias. Ora bolas.

Artigo de Adriana Peixoto.