Crónica Opinião

O MENINO SELVAGEM COM NET

Confesso-me vergonhosamente um não aficionado por cinema. Sinto que a realidade, por ser isso mesmo, real, produz efeitos de reflexão e/ou comicidade muito mais profundos. Talvez por isso considere os empreendimentos cinematográficos, baseados em factos reais, a um tempo interessantes, embora a outro inúteis.

Concedo que o leitor conheça o filme de 1970 L’Enfant Sauvage (em português O Menino Selvagem), realizado por François Truffaut. Esse filme baseia-se na história verídica do médico Jean Itard, a qual conto aqui sinteticamente: algures nos séculos XVIII ou XIX, o referido médico resgatou um menino de 12 anos que vivia na selva, procurando educá-lo de acordo com as normas afetivas, comunicativas e sociológicas da sociedade humana. Naturalmente, o rapaz não tinha qualquer noção de comunicação ou vivência em comunidade. Limitava-se a seguir os seus instintos animais e a aplicar a justiça com base na força e na legítima defesa. Ao que parece, sempre que Jean tentava transmitir ao menino algumas noções no âmbito das letras e do abstrato, o menino grunhia de fúria, repelindo-o. Conclusão: o pobre médico só conseguiu ensinar o puto a dizer lait, acabando por desistir do seu projeto. O rapaz fugiu de volta para a selva, e acabou por sucumbir às leis da dita.O filme tem sido alvo de várias análises e tomado como um objeto de estudo muito valioso para comprovar a importância da aquisição de competências cognitivas, sociais e culturais por parte de todos os seres humanos. Contudo, parece-me, atualmente, uma fórmula francamente desatualizada. Nessa medida, deixo aqui gratuitamente a proposta de se produzir uma sequela que intitularia como O Menino Selvagem com Net. Sem grandes desvios, julgo que descrevo prototipicamente um apoiante do nacionalismo, em qualquer lugar do mundo, em 2018.

Não acreditam? Então vejamos: são incapazes de viver em comunidade, não aceitando as diferenças físicas, étnicas, raciais, de género, ideológicas e afins das espécies em seu redor; a sua estratégia comunicativa consiste em 1) fazer ‘copy-paste’ acrítico de declarações de pessoas partidárias da mesma linha de atuação, 2) propor a justiça irracional e pelas próprias mãos, a fim de, e cito, “meter ordem nisto”, 3) sempre que se sentem ameaçados, agredir verbalmente os seus pares com recurso ao mais sofisticado método de argumentação atual: escrever com o ‘caps lock’ ativado; catalogam a classe erudita e cultural, naturalmente avessa ao paraquedismo, como “selvagens” (ironia poética sem querer), “vadios” e “metidos na droga”.

Nesta era de excesso de informação, de redes sociais como veículo de desinformação e da tomada de assalto das ‘fake news’ à verdade e ao conhecimento, não surpreende o contágio e a democratização da estupidez, dignificada e honrada (como, aliás, tanto merece) pelos movimentos nacionalistas, que têm ganho apoiantes no Reino Unido, Alemanha, Suécia, Hungria, Itália e, mais recentemente, Brasil e Espanha. Jair Bolsonaro ou Santiago Abascal não são mais do que meninos selvagens com acesso à internet. A diferença é que, contrariamente ao filme, não são os únicos, o que, citando um terceiro menino selvagem, “é chato”. Não é, portanto, estranho que o Bolsonaro tenha sido, por larga margem, o candidato mais ativo nas redes sociais e o com mais seguidores (7 milhões contra 670 mil de Fernando Haddad). A estratégia é clara e infalível: para combater o grave problema da criminalidade violenta, Jair converteu os guerreiros da rua em guerreiros da internet. Perde-se uma importante fonte de rendimento para o PIB, mas ganha-se em segurança. Não se pode ter tudo.

Já em Portugal, até ver, o nacionalismo é uma corrente irrelevante, inconsequente e até alvo de memes na internet. Porém, não consigo prever se ganhará força ou não, dadas as idiossincrasias giras e, em certa medida, contraditórias, do nosso país. Temos, por um lado, um historial crónico de maria-vai-com-as-outrismo (as únicas exceções são Afonso Henriques, Vasco da Gama e Ederzito Lopes), o que valida a hipótese da nova ordem mundial nos afligir brevemente. Por outro, José Sócrates, promovido recentemente de ex-alegado-ladrão a comprovado-gatuno, continua a ser capaz de encher salas de comícios, batendo consecutivamente recordes de portadores de osteoporose por metro quadrado, o que comprova que o status quo de consentimento popular com a aldrabice na classe política está para durar.

Karl Marx, completando um aforismo de Friedrich Hegel, afirmou que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Consta que Franz Kafka, conhecido pelas suas narrativas horripilantes e tenebrosas, quando as contava aos seus amigos, eles riam às bandeiras despregadas. João, um século volvido, sente-se suavemente impotente perante a hegemonia da ignorância, nos dias de hoje sob a forma de populismo e nacionalismo, no futuro eventualmente sob a forma de outra coisa qualquer que não importa perder tempo a debater. Quando a arte é dos vagabundos e quando não se estuda história, está-se condenado a que a palhaçada irremediavelmente se instale.

Nem sou de futurologias, mas, fazendo fé nas palavras de Marx, calculo mais cerca de 30 anos de bulha e regabofe, até 2049. Nesse ano, será lançado o filme O Menino Selvagem com Net, como documento historico-ficcional da derrota total do nacionalismo, e coincidindo simbolicamente com o centenário do lançamento de Nineteen Eighty-Four, de George Orwell. Deixem-me sonhar. E até lá, é sentar à espera que passe, como diz a minha avó, que por acaso tem osteoporose.

Artigo por João Pedro Mendes. Revisto por Adriana Peixoto.