Artigo de Opinião Opinião

NO BRASIL, A CORRUPÇÃO QUEIMA

No início deste mês, o Brasil revoltou-se com o incêndio no Museu Nacional do Rio, e por boas razões. Obviamente, porque o estado abandonado do edifício e a negligência do governo levou à destruição de mais de vinte milhões de peças com valor incalculável. Mas, acima de tudo, porque este incêndio é um sintoma de algo muito maior; é o sintoma de um país que está rendido à corrupção, com uma classe política tão subserviente à egoísta satisfação dos seus interesses pessoais que até o património histórico da nação é sua vítima.

A destruição do museu pode até ser entendida como uma metáfora para o clima incendiário que actualmente se vive na política brasileira, que parece caminhar cada vez mais para a guerra civil. Faço minhas as palavras de Juan Arias no seu artigo no El País: “Um país que deixa sua memória histórica arder corre o perigo de queimar com ela seu presente e seu futuro, comprometidos pelo abandono de seus melhores valores, que agonizam asfixiados por uma classe política incapaz de entender que não existem saltos na formação das novas gerações.” Afinal de contas, o que têm em comum os habitantes de um país senão a sua cultura? A identidade do povo brasileiro estava inscrita naquele museu, que foi destruído de forma tão facilmente evitável.

É especialmente devastador ver um país abençoado com recursos e beleza naturais ser lentamente deteriorado pelos grilhões da corrupção estrutural. O Brasil de hoje não tem de ser o mesmo amanhã. O Brasil não tem de ter uma taxa de homicídio trinta vezes superior à da Europa. O Brasil não tem de ter um serviço público de educação com falhas e sem eficiência. O Brasil pode e deve ser melhor porque os brasileiros merecem mais do que elites políticas complacentes apenas com o seu próprio umbigo, enquanto a violência e a pobreza reinam nas ruas.

O incêndio não foi um desastre isolado. O incêndio só veio tornar mais evidente o que todos já sabiam. E acho que posso falar por todos os brasileiros quando digo: já chega.