UM HOMEM PIOR QUE HITLER – Jornal Universitário do Porto
Crónica Opinião

UM HOMEM PIOR QUE HITLER

Na semana em que se celebra a liberdade, foi finalmente conhecida a sentença de Mark Meechan, também conhecido como a reincarnação de Hitler. E quem não faz ideia daquilo a que me estou a referir pergunta-se: o que poderá ele ter feito de assim tão mau para ser comparado ao próprio führer? Para terem a resposta a essa pergunta têm duas opções: se se preocupam com o contexto das situações, leiam o parágrafo seguinte; se o vosso emprego de sonho é serem pagos para se ofenderem; saltem para o terceiro parágrafo.

Mark Meechan ouvia sempre a sua namorada a falar sobre o quanto adorava o cão, por isso, num jeito de piada, teve a ideia de o transformar na pior coisa que lhe passou pela cabeça: um nazi. Assim, Mark cometeu o ato horrendo de ensinar o cão a levantar a pata quando ouve a expressão “gas the jews” (gasear os judeus). Por publicar um vídeo na internet a fazer esta atrocidade comparável ao holocausto, soube-se agora que Mark terá de pagar uma multa de 800 libras.

Resumidamente, Mark foi condenado porque ensinou um cão a imitar uma saudação nazi. É bom viver num mundo em que a justiça se preocupa tanto com a integridade moral de um cão que levanta a pata sob o comando do dono. Viva as prioridades bem definidas.

É surreal que num estado supostamente democrático como o Reino Unido alguém possa ser julgado e condenado por algo tão banal e inofensivo. A ignorância deliberada do contexto da piada é um atentado à liberdade de expressão, puro e simples.

Para além disto, é importante realçar que mesmo que Mark não estivesse a brincar e fosse realmente um nazi, o ato de ensinar um cão a levantar a pata não é nem de perto nem de longe merecedor de ser julgado. Os nazis são pessoas destestáveis que cospem ódio e ignorância? Sim, claro, mas isso não quer dizer que não tenham o direito a fazê-lo, até porque nunca ouvir opiniões contraditórias é o primeiro passo para que nos esqueçamos porque defendemos aquilo que defendemos. É bom, e até saudável, ouvir parvoíces de vez em quando. É bom aquele momento em que se encontra uma partilha do PNR no perfil de facebook daquele antigo colega de turma estranho que agora bate nos pais e trai a mulher e sabermos que podemos ser muito idiotas, mas pelo menos ainda não chegamos àquele ponto. Mas se calhar isso já sou só eu.

Pode-se argumentar que a piada não teve graça, pode-se argumentar que era ofensiva, pode-se argumentar que Mark Meechan é um estúpido ignorante. Mas nunca se esqueçam de uma coisa: a liberdade de expressão é um direito de todos, mas é sobretudo um direito dos estúpidos. Ninguém precisa de ver assegurado o seu direito de dizer coisas politicamente corretas; são aqueles que têm opiniões pouco populares ou até mesmo ofensivas quem precisa de leis que os defendam.

Não nos podemos calar. A liberdade de expressão é um direito fundamental de uma democracia e casos destes são passos de caracol para que se chegue à distopia total à la 1984. Há certamente questões semelhantes que nunca terão tanto mediatismo, sendo fundamental que a sociedade mostre que uma situação destas não é de forma alguma aceitável, porque, afinal de contas num verdadeiro estado de direito uma piada, por mais ofensiva que possa ser, não é nem nunca será considerada um crime.

 

Nota: Este artigo foi escrito no dia 26 de Abril