Opinião

OS REFÚGIOS (DES)PRENDIDOS DA REALIDADE

Entre refúgios e refugiados, os dilemas dilaceram(-se). São rasgados e marcados em oportunidades de prestar a filantropia, mais apregoada que comprovada. São dias quentes, cálidos, no rescaldo de um aquecimento global em profunda quebra de confiança no olhar de uns tantos. São os mesmos tantos que, na opulência e conforto de seus tronos, não se olham de monarcas, mas de desdém resoluto. Desprendem-se recursos, mas prendem-se as disposições de ajudar aquele que procura a paz e a serenidade intrínsecas aos direitos de todos noutro lugar. Também este se transtorna com o sucedido, ainda mais do que qualquer que se apresente como detentor das possibilidades de ajuda.

Refugiar é mais do que uma prática. É, cada vez mais, nos dias de hoje, uma condição. Uma condição incapacitante aos olhares dos pares que, de si, se julgam civilizados. São os imponentes impotentes que vão levar todas as liberdades e oportunidades aos que já lá estão. Uma visão redutora, incompreensiva, limitada. A tolerância à intolerância instala-se e instila-se. Vozes populares, de indignação espalhafatosa e exacerbada, manifestam-se retumbantemente, potenciando os truques à disposição de uma manga comprida. O frio rompe-se por aqueles que fogem dos seus lares, dos lugares onde se viram nascer, e se viram obrigados a, por contingências bem alheias às suas vidas, começar de novo. Por vezes, desintegrados de todo o agregado familiar; por outras, ainda a debelar as contundentes dores que o litígio não perdoou.

O refugiado é só mais um estereótipo que se adensa na sociedade moderna, acometido de uma série deles. Perante estes, discute e relança-se num debate exaustivo e austero sobre a possibilidade de os eliminar. No entanto, não é de uma farta e louvável psicologia que se trata, mas sim de uma outra: a do extermínio moral, querendo arremessar as contendas contingenciais para o vizinho do lado. Tudo o que é de fora estranha à monotonia estrutural que se camufla do sabido conforto, do experienciado desafogo de ignorar friamente a mendicidade de fundamento desconhecido.

Entre condições e condicionalismos, as decisões ficam-se por vozes que são surdas à vista ao longe das instituições sociais internacionais, responsáveis por pugnar pelo elementar da humanidade, isto é, os seus direitos e suas garantias básicas. A História é feita de lutas destas, onde só consegue triunfar pela ideia de uma progressividade social eficaz, capaz de compreender aquele a quem a calamidade aflige. Por ele, o clima de paz reinava no núcleo onde fora feliz até ao momento em que se viu forçado a partir, de malas e bagagens (ou sem elas), para uma outra janela de sustento. As recomendações abundam, mas disso não passam. De meras recomendações.

Por muito que as organizações internacionais porfiem, e insistam na missão de cada nação, a regra mistura-se com a exceção, tornando impercetível uma e outra. São desafios que se tornam crescentemente difíceis, mesmo em plena fase da informação, que não corresponde, em proporção, ao nível de literacia. Porque a principal problemática não está em dar-se corpo e forma à consciente noção do ser refugiado, mas em transmita-la, de forma clara e inequívoca, àqueles que olham para o deslocado com desconfiança. A celeuma instalada pela ameaça terrorista assume, no entanto, atenções redobradas, que os serviços de segurança nacional, internacional e transnacional devem suster. No entanto, é no auge de um conflito bélico que o refugiado se reveste, com amargor, de uma condição que nunca desejou assumir. A mesma que reforça o sentimento do alheio ser andrajoso e, por si só, de necessária devolução.

Os refúgios enquadram-se na missão de cada nação, ajustada à sua capacidade logística e socioeconómica, de albergar aqueles que, fustigados pela catástrofe, necessitam das condições mínimas para, mais do que a vivência, a sua sobrevivência. São situações nas quais, no alto de uma sustentabilidade que escasseia em reconhecimento (e, para os ditos espiritualizados, em gratidão), se verifica aquilo do que um país é feito. Se movimentos populares, que cultivam o temor e a repulsa, ganham voz ativa e reativa, e congregam uma comunhão generalizada, algo de muito substancial fica dito. A educação não fica isenta de responsabilidades. É esta que transmite os valores sociais básicos, que posicionam a realidade nacional perante as outras. Mais do que nações, a humanidade é aquilo que une todos. É a plataforma que muitos se esquecem, mas que se vê formada em resolução deformada.