Opinião

Um brinde a 2022

Ao longo da história da humanidade, o ser humano desenvolveu competências que lhe permitiram evoluir para uma sociedade do conhecimento, sendo inquestionável o seu sucesso intelectual, científico e tecnológico. Factual, é também o aumento atual de perturbações de saúde mental. Será este o destino da evolução humana ou um sinal de exaustão na busca do sucesso, num caminho que se afasta da felicidade?
Por Dulce Lima

Votos de um 2022 com saúde e sucesso!

Mais palavra menos palavra, todos agradecemos a mensagem de Ano Novo repetida, vezes sem conta, por amigos e familiares. Parece-me bem desejar saúde (ainda mais, em tempo de pandemia) e sucesso (que nunca é demais) a quem se quer bem. E, porque não, nesta linha de desejos incluir algo tão importante como a “felicidade”? É certo que, desde tenra idade somos inevitavelmente encorajados (uns mais do que outros) a atingir o sucesso (seja lá qual for), ou não fossem as preocupações constantes dos nossos tutores nos assombrarem com a natural incerteza de um futuro risonho, como se o futuro castigasse quem não chega aos lugares de topo ou não tem uma carreira brilhante e estatuto social e financeiro confortável. Talvez, por isso, a palavra sucesso esteja tão presente no nosso pensamento.

Não é de bases científicas que quero opinar, nem tão pouco, ditar pressupostos ou paralelismos factuais, apenas pensar em voz alta sobre algo genuinamente significativo e necessário. Como tal, estou verdadeiramente convencida que a chave para o sucesso está na felicidade do indivíduo, uma vez que o caráter frágil da humanidade não compete com os saberes científicos, riqueza ou posição social, mas remete-nos antes para a necessidade do equilíbrio pleno do indivíduo, onde o seu bem-estar, físico, social e mental, esteja garantido. Por isso, parece-me bastante redutor pensar que o sucesso possa advir exclusivamente dos bens materiais e/ou da posição social e financeira (ainda que confortável) que cada um possa ter. Mas antes, da capacidade de estarmos bem connosco e com os outros, de forma inspirada e inspiradora, tão natural e apaixonada quanto verdadeiramente impactante. Percebo que pessoas e comunidades felizes podem transformar-se e transformar o meio que as rodeia, sendo esta uma motivação desejável que nos impulsiona para a aprendizagem ao longo da vida, verdadeiramente envolvente.

Falar de sucesso tem tanto de subjetivo quanto de reflexivo. Parece-me indiscutível o efeito que a felicidade tem no desenvolvimento emocional e cognitivo, mas também na integração social do indivíduo, onde nos sentimos confortáveis. São os ambientes de felicidade que nos conduzem ao sucesso, sem que este seja um fim em si, mas antes, uma consequência naturalmente óbvia. Acredito no sucesso feito à medida de cada um, mediante valores, objetivos e prioridades pessoais, ocorrendo quando nos sentimos plenos e felizes nas escolhas que fazemos, mas também no sentido que damos às nossas ações na comunidade, bairro ou espaço onde nos “encaixamos”. Falo do sucesso emocional, que está na base de qualquer outra forma de sucesso (se assim o quisermos espartilhar), que não se quantifica com bens materiais ou posição social, mas que se desenvolve e fortalece em cada um de nós, sendo trabalhado e estimulado diariamente como uma âncora de superação no percurso feito ou a fazer. De que outra forma podemos garantir o equilíbrio e a nossa sanidade mental, perante a necessária capacidade de resiliência, superação e sentido de orientação face aos desafios que vão aparecendo ao longo da vida?

Sem dúvida que é preciso fazer caminho, para (re)conhecer a felicidade e perceber o sucesso, nos outros, mas também em nós. Esta é a viagem de uma vida, a viagem que todos desejamos fazer, mas que nem todos conseguimos vislumbrar ou alcançar. Pessoas felizes são inspiradoras, com a capacidade, ainda que inconsciente, de impulsionar o caminho dos outros. Desde logo, a família, e depois a escola, têm um papel crucial no desenvolvimento de ambientes de felicidade promotores de competências emocionais e sociais, que levem as crianças e os jovens a percecionarem as suas aptidões e interesses, que os levem a ser autónomos e a investir na superação de desafios.

Desfrutar da vida num tempo gerúndio, em que vamos fazendo, vamos rindo, vamos andando, ainda que, tantas vezes, vamos chorando, vamos caindo, e também por isso, vamos conhecendo os nossos limites, vamos percebendo as nossas motivações e, assim, vamos fazendo escolhas num percurso que nos faça verdadeiramente sentido. Creio ser este o caminho para a felicidade, onde o sucesso naturalmente se define!

Em 2022, brinde à felicidade!…

Artigo da autoria de Dulce Lima