Mundo Novo Sociedade

Um novo rumo para o comércio?

Em plena fase de desconfinamento, não faltam notícias a dar conta da profunda preocupação de todos aqueles que detêm estabelecimentos comerciais. A juntar à total ou parcial perda de volume de faturação seguiu-se a difícil situação de layoff dos trabalhadores. Deve o setor enquadrar esta crise como uma oportunidade para se reinventar?

Motivados pela ajuda ao setor, um grupo liderado por Ricardo Gonçalves fez surgir o Preserve, projeto de apoio à dinamização comercial. A adesão dos comerciantes conta já com 1500 locais aderentes à escala nacional, com especial predominância para os cafés e estabelecimentos locais – números que refletem as dificuldades vividas pelo setor comercial, em resultado da grave quebra nas receitas. Estando por dentro daquilo que é a realidade do setor, deparamo-nos com um dos problemas estruturais das empresas portuguesas: as debilidades tecnológicas e as dificuldades de modernização. Constata-se que a atual conjuntura pandémica provocou alterações profundas no funcionamento das empresas, obrigando-as a adaptarem-se às limitações de movimento e de livre circulação. Porém, essa dificuldade tem sido especialmente difícil de ultrapassar dada a reduzida aposta no mercado online, uma solução que permitiria atenuar a perda de faturação.

Segundo dados da Sybs Analytics, no setor da restauração, o número de compras online desde o primeiro caso positivo de COVID-19 registado em Portugal aumentou em 78%; na música e entretenimento, 57% e, no comércio alimentar, o acréscimo cifrou-se nos 23%. Neste sentido, a Preserve visa atrair os clientes dos estabelecimentos comerciais para a plataforma, permitindo que se mantenha o necessário elo de ligação entre cliente e estabelecimento. Alerta-nos Ricardo Gonçalves que, apesar de determinados estabelecimentos já terem retomado o normal volume de faturação, mantêm-se os problemas de rentabilidade de comerciantes que detêm restaurantes, bares e discotecas. Situação esta que se agrava com a imposição de limites de horário de funcionamento.

Ter um restaurante aberto importa custos de atividade como a luz, água, fornecimento de produtos, higienização e respeito pelo distanciamento social. Se não houver um nível de clientela que permita compensar tais despesas, perde-se o estímulo económico inerente ao funcionamento empresarial. Além disto, o apoio que será dado terá de ser igualitário. Tenhamos como exemplo os ginásios que, como dá conta o rosto do presente projeto, “têm manifestado alguma apreensão pela forma como têm sido esquecidos no que concerne aos apoios prestados”. É necessário então reformular a forma como o comércio português funciona para fazer face à situação extraordinária que vivemos e que se vai manter por muito tempo. Falamos de perdas na ordem dos 100% que só numa visão a longo prazo é que serão recuperados. Como assinala Ricardo Gonçalves, esta crise, com todas as suas implicações, expõe a importância da poupança: “a sobrevivência da parte dos estabelecimentos vai depender do pé-de-meia que cada um dos comerciantes tenha para fazer face a períodos economicamente negativos”.

Não obstante, existem, por esta altura, sinais animadores para a economia portuguesa. Segundo os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE), que certamente darão ânimo ao objetivo dos comerciantes em recuperar das perdas sofridas com o confinamento, os indicadores de confiança dos consumidores estão, por esta altura, em valores semelhantes ao período pré-pandemia, depois de uma queda histórica  neste importante indicador – o Saldo de Respostas Extremas, que mede a referida confiança no consumo, em fevereiro de 2020 cifrava-se em 2. Volvidos dois meses, tais valores chegaram aos 5 negativos. Trata-se de uma evolução favorável que coincidiu com o período de desconfinamento e que acaba por refletir o natural aumento do volume de vendas dos estabelecimentos que comercializam os chamados “produtos não essenciais” ao nosso dia-a-dia.  

Abordando em específico o setor do comércio de retalho, verificamos pelos dados fornecidos pelo INE que os estabelecimentos comercializantes de produtos alimentares foram os que menor impacto sofreram com a atual conjuntura pandémica e consequente confinamento generalizado. As quedas no volume de vendas praticamente mantiveram os valores verificados no período pré-pandemia. Neste sentido, afigura-se de especial importância que o programa que estará em curso de apoio ao comércio e consequentemente à economia portuguesa tenha em conta diversos fatores. Será primordial não só o volume das perdas verificadas entre março e maio como também as perspetivas do setor em que o comerciante se insere. 

Estaremos perante uma nova fase da organização da sociedade de consumo? Caberá aos agentes de comércio capitalizar da melhor forma a recuperação da confiança dos seus clientes bem como gerir e potenciar as ajudas governamentais. Mas há uma ideia-chave a retirar das palavras do pioneiro do Projeto Preserve: trata-se de uma oportunidade única de modernizar os negócios de cada um no sentido de os tornar mais competitivos e preparados.