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Turismo: Voltaremos aos mesmos hábitos?

Fruto dos necessários esforços na contenção da COVID-19, as quebras verificadas no setor assumem, como era esperado, contornos históricos. No centro do Porto, os alojamentos locais, hotéis, estabelecimentos turísticos e de entretenimento notam diferenças significativas na procura relativamente a anos anteriores
Ilustração de Ângela Pereira

Sabendo que a composição do setor turístico em Portugal compreende uma grande parte de empresas e trabalhadores, a sobrevivência dos pequenos negócios é de suma importância para a prosperidade do setor em Portugal. Apesar da atratividade em termos paisagísticos permanecer intacta, os estabelecimentos hoteleiros do nosso país manifestam a sua apreensão com as significativas quebras na receita, especialmente na época do verão. Com a introdução da nova doença no nosso quotidiano, durante o estado de emergência, em Portugal, as viagens por transporte aéreo registaram uma quebra de 97,4% – de acordo com os dados divulgados pelo INE. O turismo internacional – que assume uns importantes 8,7% do PIB português – permite a participação de indivíduos estrangeiros na economia portuguesa através da chegada de capital. Também aos pequenos negócios portugueses, especialmente aquelesdirecionados especificamente para o turismo internacional, é permitida a expansão para lá das fronteiras do país, já para não mencionar a dispersão da palavra sobre a cultura portuguesa, que traria ainda mais possíveis visitantes ao país.

Com a vinda de turistas oriundos de países como o Reino Unido, França ou Alemanha, estes estabelecimentos comerciais e entidades turísticas entram num nicho de mercado que possui maior poder de compra. Para assegurar que Portugal se mantém no topo das listas de “países a visitar”, não só na Europa, mas em todo o mundo, é necessário trabalhar a narrativa de que Portugal é um destino seguro para visitantes estrangeiros. O país foi elogiado pela imprensa internacional pela forma como lidou com a propagação do vírus numa fase precoce. Aliás, terá sido essa a imagem que permitiu que a fase final da Liga dos Campeões fosse totalmente jogada em Lisboa. A medida implementada para com turistas provenientes de países considerados “inseguros” nos seus procedimentos quanto ao novo coronavírus é a de submeter os seus visitantes a um período de quarentena de 14 dias – que anula grande parte da duração das férias da maior parte da população turística internacional. A isto soma-se o custo acrescido de efetuar um teste à COVID-19 no seu país de origem, 72 horas antes da viagem, e outro à chegada. Dos países “seguros” vêm turistas que não são submetidos a quarentena, apenas aconselhados a proceder à utilização de máscara nos locais obrigatórios.

As unidades turísticas (como hotéis, restaurantes e lojas de souvenirs), que subsistem com a vinda de turistas internacionais ao nosso país, implementaram medidas de segurança que, revistas pelo Turismo de Portugal, garantem um selo de certificação Clean & Safe – tendo sido noticiado pelo Público que estas placas e autocolantes estariam a ser vendidos em sites como o OLX a valores simbólicos. A Turismo de Portugal afirmou, como relatado pelo Público, a ilegalidade da prática, que não garante aos estabelecimentos que a exibem o cumprimento das regras de segurança. O mais seguro será aceder à página do Turismo de Portugal e procurar, na sua plataforma, o estabelecimento para comprovar a veracidade do selo.

“As coisas não estão fáceis” e as perspectivas são “pouco animadoras”

Em julho, as estadias em hotelaria registaram um decréscimo de 70,4%, os estabelecimentos de alojamento local 65,5% e, o turismo rural e de habitação recuo 22,7%, segundo o INE. Para acrescentar a estes números, as dormidas por parte de residentes portugueses diminuíram 30,8% e as dormidas de não residentes cerca de 84,5%. No centro do Porto, os alojamentos locais, hotéis, estabelecimentos turísticos e de entretenimento notam diferenças significativas na procura relativamente a anos anteriores. Estabelecimentos hoteleiros como a Bloom House, na Rua de Santa Catarina, relatam quebras significativas, que atribuem “ao decréscimo de procura por parte do mercado externo, nomeadamente ingleses e espanhóis”. Porém, notam ao JUP “um reforço do mercado interno com um aumento de procura por parte dos turistas portugueses”. Este foi mais um dos vários negócios no Porto e no país que teve de recorrer ao layoff como consequência das quebras de receita provocadas pela pandemia. Já o Nice Way Porto Hostel, com vista para os Aliados, que afirmou ter habitualmente “taxas de ocupação na casa dos 90%”, regista, “neste momento, [ocupação] abaixo dos 20%”. O recepcionista do estabelecimento admitiu ao JUP que a razão é o medo: “as pessoas não querem ir para as grandes cidades”. Também este negócio sucumbiu ao layoff, em tempo integral e parcial. Quando inquiridos sobre perspectivas para o futuro, o desejo é de que seja desenvolvida uma vacina o mais rápido possível.

Um outro hostel, que prefere manter-se em anonimato, afirma ao JUP que este tipo de estabelecimentos parecem ser ainda mais penalizados visto que se veem com fortes restrições às suas atividades lúdicas, o que penaliza bastante a experiência que oferecem aos turistas. Além da “falta de socialização” que se reflete nos “estabelecimentos encerrados ou com horário reduzido”, outra questão que preocupa os hóspedes, “já antes da COVID-19, é a questão da limpeza – que é, desde sempre, exemplar e tem sido alvo de boas críticas”, diz ao JUP o diretor do estabelecimento. O The House of Sandeman, junto às caves do vinho do Porto, afirma que a taxa de ocupação, habitualmente entre os 90 e os 100%, é, neste ano atípico, de 40% – ainda que estejam apenas a disponibilizar metade das camas, “por opção, o que afeta ligeiramente a taxa de ocupação”, revela Filipa Silva, Front Office Manager do estabelecimento. Este foi um dos alojamentos locais que não efetuou despedimentos, mas os trabalhadores com término de contrato não regressaram.

Outro tipo de negócio inerentemente dependente do turismo são as lojas de souvenirs. Um espaço que combina a tradição portuguesa com artigos de fabrico próprio, a loja Bem Português, localizada na Rua de Santa Catarina, afirma que, para além de sentirem uma quebra muito grande na procura pelos seus produtos, tiveram necessidade de efetuar despedimentos, para acompanhar a “quebra bastante significativa na faturação”. Já estes permaneceram em layoff durante três meses e, afirmam que, “mesmo assim, as coisas não estão fáceis. Estamos a atravessar uma época muito difícil e acredito que seja geral”, diz ao JUP. Na mesma situação está a loja Porto Passion, junto à Sé do Porto. Isabel Moreira afirma que se verifica “uma redução muito significativa no volume de vendas, na ordem dos 70%, ou seja, menos 30% do que faturamos no ano passado”. Também obrigados a despedir trabalhadores, afirmam que as perspectivas são “muito pouco animadoras”.

Isabel Moreira admite ao JUP  que o setor “foi o primeiro a sofrer com a pandemia e será seguramente o último a recuperar, sem que se saiba quando e como. Se não forem disponibilizadas a curto prazo medidas de apoio, eficazes e realistas, à nossa atividade, receio bem que a manutenção do negócio não tardará a tornar-se insustentável.” Porém, nem todos os estabelecimentos de interesse turístico se encontram com pouca movimentação. O recém-inaugurado World of Wine, em Vila Nova de Gaia, que compreende “seis experiências, nove restaurantes, bares e cafés, uma escola de vinho, várias lojas, um espaço para exposições e outro para eventos”, garante ter afluência dentro das normas, sendo a maior parte dos visitantes de origem nacional. De momento encontram-se “bastante felizes com a afluência e querem que as pessoas se sintam à vontade e confortáveis e a perspetiva seria crescer como qualquer empresa e qualquer negócio”, disse ao JUP um colaborador da empresa.

No plano nacional, nota-se uma procura crescente pelo chamado “ir para fora cá dentro”, impulsionada pelo Turismo de Portugal. O ecoturismo e o turismo rural são as opções de destaque, oferecem a possibilidade de distanciamento. Com esta nova atenção ao país, os alojamentos turísticos do interior ganharam um novo alento pela segurança que oferecem aos seus visitantes, quer portugueses quer de países tão diversos como os Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Dinamarca ou Brasil. Com a projeção do vacinamento para meados de 2021, a preparação do setor turístico terá de ser reforçada para que Portugal consiga enveredar pelo caminho da recuperação. Para já, as projeções parecem ser de um tempo melhor que estará para vir, após muita água passar debaixo da ponte. Por enquanto resta encontrar maneiras seguras e incólumes de promover o setor turístico português, para umas melhores férias em 2021.