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As fake news da pandemia

Numa situação tão aguda a nível mundial quanto a gerada pela pandemia, os resultados da crescente transmissão de informação não verídica podem ser trágicos. O termo fake news é cada vez mais utilizado e debatido, apesar de existir desde desde que a humanidade existe – ou pelo menos desde que o jornalismo começou. Atualmente, não é apenas uma notícia falsa lançada na internet, mas sim um fenómeno de textos pensados com a intenção de causar uma desinformação específica e divulgados de modo massivo no meio digital. No contexto da COVID-19, as informações erradas podem ser prejudiciais a ponto de facilitar a propagação do vírus ou mesmo dividir comunidades e incentivar o ódio.

Até 20 de agosto deste ano, o Facebook etiquetou com advertências cerca de 98 milhões de notícias com informações não verídicas sobre a COVID-19 e eliminou sete milhões de conteúdos com risco de danos físicos, de acordo com o porta-voz da empresa. Dados da Comissão Europeia indicam números também alarmantes: mais de 2700 artigos com fake news sobre a COVID-19 são registados diariamente nas redes sociais. O site da Organização Mundial da Saúde (OMS) possui uma secção especialmente dedicada aos mitos e esclarecimentos de informações sobre o coronavírus. Aqui estão alguns dos mais disseminados:

 

  • A COVID-19 só é realmente perigosa para os mais velhos

A notícia de que só os “grupos de risco” podem realmente sofrer com o novo coronavírus é falsa, mas tem-se espalhado muito facilmente a nível global. Embora a COVID-19 seja de facto mais perigosa para idosos, por causa do envelhecimento do sistema imunológico, que gera uma resposta de defesa do corpo muito mais tardia ao vírus, a probabilidade de morte dos mais jovens pela COVID-19 não é nula, não podendo justificar um descuido por parte dessa faixa etária. Em agosto, a OMS alertou para uma mudança no contágio da COVID-19, alertando que os jovens estão cada vez mais na origem dos surtos. “A pandemia está a mudar. Pessoas na faixa dos 20, 30 e 40 anos estão cada vez mais na raiz da ameaça”, afirmou o director da região do Pacífico Ocidental da OMS, Takeshi Kasai. 

 

  • A China aproveitou-se da pandemia no Ocidente

Na época em que a economia expõe uma polaridade constante entre os Estados Unidos da América e a China, a COVID-19 surgiu em território chinês e logo boatos foram levantados: a China teria aproveitado a pandemia para ganhar dinheiro? A mensagem que demonstra esse pensamento de forma mais palpável é a intitulada com o termo “Operação Xeque Mate”, difundida nas redes sociais tanto em Portugal como no Brasil.  “Nos últimos dias, a China (…) ganhou absolutamente tudo, 18 mil milhões de euros nas primeiras notícias e comprou cerca de 30% das ações de empresas pertencentes ao ocidente na China (…) Devido à situação em Wuhan, a moeda chinesa começou a desvalorizar (…) Os tubarões financeiros (europeus e americanos) começaram a vender todas as ações chinesas, mas ninguém queria comprá-las (…) quando o preço caiu abaixo do limite permitido, (Xi Jinping) ordenou a compra de todas as ações de europeus e americanos ao mesmo tempo! Tornou-se novamente a acionista maioritária de empresas constituídas por europeus e americanos”.

A redação vaga, a ausência de fontes e a incitação sensacionalista a um plano maquiavélico chinês são algumas das normas desta e de outras fake news. Já os dados económicos não deixam margem para dúvida: houve uma contração histórica na China nos três primeiros meses deste ano e, de acordo com previsões do FMI, o país terá crescido apenas 1% em 2020 (comparativamente a 6,1% em 2019).

 

  • OMS não recomenda uso de máscara

Segundo informações falsas, a utilização de máscara estaria sendo desencorajada globalmente. De acordo com a notícia, a máscara só seria útil para impedir quem já está infectado de transmitir o vírus, sendo, portanto, aconselhada apenas para uso de quem possui a doença. 

Entretanto, a recomendação atualizada da OMS para locais com disseminação comunitária é que os governos incentivem o uso generalizado da máscara. A instituição reforça que o uso não se restringe apenas aos doentes ou profissionais da saúde, mas para todos. É uma medida de proteção bastante indicada, dado que o distanciamento social nem sempre é assegurado como deveria, como no caso de transportes públicos ou ambientes confinados. 

 

  • OMS recomenda hidroxicloroquina

De acordo com essa notícia, a OMS teria pedido desculpas por posteriormente ter desaconselhado a hidroxicloroquina. Esta informação é falsa, embora o medicamento usado para a malária se tenha tornado alvo de debates principalmente por ter sido encorajado por Donald Trump e Jair Bolsonaro. A instituição informou que “não houve mudanças no entendimento sobre a inadequação destes medicamentos para a COVID-19”. 

A Organização Pan-Americana da Saúde, cuja organização mãe é a OMS, afirma que “a maioria das pesquisas sugere que não há benefício e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento”.

 

  • Fazer gargarejo com água morna, sal e vinagre previne o contágio

Notícia falsa muito difundida, esta receita caseira avoluma-se com alguns mitos muito parecidos: desinfetantes que “substituiriam” o álcool, suplementos para o sistema imunitário, como leite de burra, pimenta ou até mesmo álcool e lixívia. A OMS deixa clara a importância de uma dieta equilibrada, com exercício físico e bastante água, alertando que o consumo excessivo de bebidas alcóolicas não auxilia mas agrava variados problemas de saúde.

Especificamente sobre a lavagem regular do nariz com solução salina ser capaz de ajudar a prevenir a infeção pelo novo coronavírus, a OMS responde que “não há evidências de que lavar o nariz regularmente com soro fisiológico tenha protegido as pessoas da infeção pelo novo coronavírus”.