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Miguel Teixeira: “se falássemos de sexo diariamente, creio que metade do estigma sobre a pornografia desaparecia”

Conhecido por Sir Peter, Miguel Teixeira é o nome português que brilha na indústria internacional da pornografia gay. O seu percurso é cicatrizado por mudanças e doses sucessivas de coragem mas, acima de tudo, vontade de fazer melhor e ir mais longe - até onde for preciso para provar que o porno é cultura. Por Fernando Costa e Inês Sincero

Miguel Teixeira não fazia ideia que esta seria a sua vida quando, em criança ou jovem, fantasiava sobre a vida adulta. De facto, até há bem pouco tempo, esta realidade era-lhe distante e improvável. Antes de ser um dos atores pornográficos de renome na atualidade, era somente consumidor de pornografia gay. Confessa que “sendo gay, há mais a tendência para um consumo diário do que uma pessoa hétero”. Agora, conhece o meio com outros olhos e outra experiência, mas nunca se esquecerá de como tudo aconteceu.

A que ponto decidiste começar a produzir pornografia?

Há quase quatro anos, quando saí de Portugal, vivia em Maiorca e tinha o meu trabalho como assistente de bordo. Quando saí de Maiorca, fui para Madrid, e estava à procura de trabalho em qualquer área. Então [fazer pornografia] surgiu como uma necessidade: “neste momento ou pagas a tua renda ou vais para a rua”. Na altura disse a mim mesmo, “vamos ver se é algo que eu gosto. Caso não goste, fica uma experiência para contar aos meus amigos, aos meus filhos, ou o que seja”. 

“Não foi um sonho, foi algo que realmente surgiu por necessidade”

Mas tudo começa no OnlyFans, certo?

Certo. Estava ainda em Maiorca quando criei uma conta de OnlyFans, que eram apenas fotos e conteúdo meu de masturbação. Eu tinha o meu trabalho, que era algo que me consumia mais da metade do meu dia, então isto foi algo que criei para “ver no que é que dá” e [ganhar] sempre um dinheiro extra. Também tem uma parte de exibicionismo, claro… porque tendo trabalho próprio, decidires criar um OnlyFans também tem um pouco a ver com o facto de gostares de ouvir os comentários que os teus fãs te dizem. 

Quando cheguei a Madrid, criei o meu primeiro vídeo de sexo e, através desse primeiro vídeo, o Tim Kruger – que é um importante ator porno gay – viu e perguntou se queria experimentar [pornografia]. E foi assim que surgiu o convite.

Fotografia retirada do Instagram de Miguel Teixeira

Entre este convite e a rápida ascensão na indústria internacional vai um período de menos de dois anos. Dois anos de sonho mas também de preconceito, porque, segundo Miguel Teixeira “tanto em Portugal, como aqui em Espanha, é muito mais aceitável teres uma página de OnlyFans do que fazeres porno para um estúdio”. Mas, contra todas as adversidades, o ator português tem agora uma carreira sólida. 

Há pouca informação disponível no que toca a especificidades da indústria do cinema pornográfico, como é que se cresce na indústria?

É uma questão de boca a boca. Alguém vê os teus vídeos e envia um vídeo teu a um colega que tem uma agência, que tem um estúdio ou que também tem um OnlyFans e quer fazer um vídeo contigo. Não há um sindicato, é uma questão de contactos. E as redes sociais importam muito! O Twitter, como deixa o conteúdo de maiores de 18 livre, mais facilmente pode-se chegar a uma enorme quantidade de pessoas. E depois, claro, se eu faço porno e tenho amigos que fazem o mesmo, vamo-nos ajudando. Uma coisa leva a outra e acabas sempre por ir por um caminho que é progressivo.

E em termos de condições de trabalho em si, no cinema pornográfico há contratos, por exemplo? 

Eu desconto mensalmente nos vídeos que faço e na página do meu OnlyFans. A questão aqui é: como eu quero ter um futuro ou, neste caso, uma reforma, o único contrato que existe é o contrato de direito de imagem. Nesse caso, cabe à pessoa, ao ator, decidir o que faz com esse dinheiro: se o vai declarar ou não. Muita gente pensa que é um dinheiro fácil porque tu é que decides o que queres fazer com esse dinheiro na questão legal. No meu caso, prefiro declarar porque me sinto mais seguro para o futuro. E como trabalho para vários estúdios posso passar recibo de como prestei um serviço para essa empresa.

Fotografia retirada do Instagram de Miguel Teixeira

Neste momento da vida, sente-se realizado e está “a 100%” neste trabalho considera um desafio diário. No entanto, foi, evidentemente, uma aprendizagem, como em qualquer outra profissão. Revela que, no início, “não sabia onde estavam as câmaras, para onde tinha de olhar, se tinha de fazer desta forma ou de outra”. Mas a curiosidade e a possibilidade de aprender não o deixaram desanimar. 

Foi fácil partilhar com a tua família e amigos a tua profissão? 

Portugal é um país distinto de Espanha. Em Portugal ainda existe um preconceito bastante grande e é sempre um pouco difícil para certas pessoas aceitarem ou compreenderem [o que estou a fazer]. Eu cresci numa família recatada e um pouco mais tradicional e o primeiro impacto foi o choque, porque não estavam à espera. Mas a minha família também é muito “americana” no sentido de “don’t ask, don’t tell”… então não mudou a relação que tinha com eles. Simplesmente não me perguntam muito normalmente se o trabalho vai bem ou se o trabalho vai mal. 

“Fazeres aquilo que fazes não muda o que és para a tua família e para os teus amigos”

Achas que se não fosses português as reações teriam sido diferentes? 

A indústria do cinema pornográfico em Portugal é quase inexistente. Mas eu faço questão de dizer que sou português… é algo de que me orgulho, principalmente não havendo grande referência de atores porno gay em Portugal. 

Mas sei que há uma diferença grande comparando Portugal com Espanha. Especialmente em Madrid ou Barcelona que são cidades grandes, com uma multiculturalidade enorme de pessoas, idades e estratos sociais. Então, foi muito mais fácil aceitarem-me aqui [em Espanha] e celebrarem-me, pelo facto de fazer o que faço – e faço bem, supostamente – do que em Portugal. Em Portugal ainda encontro muitos portugueses que se sentem tímidos ao falar sobre sexo de uma maneira normal…

Qual será a causa dessa timidez?

É uma questão de informação. Ou de falta dela. Ainda há muito medo e vergonha de falar em sexo. E a população portuguesa, por ser envelhecida, cresceu sem saber alargar a sua visão sobre a sexualidade ou sequer o que é esta indústria.  

O dedo já lhe foi apontado muitas vezes e, em algumas situações, “não educadamente”. Segundo o ator, há pessoas que “não estão dispostas a interagir com alguém que tem uma página de conteúdo sexual”. Todavia, Miguel Teixeira já não deixa que isso o abale: “hoje não dou qualquer hipótese que me façam sentir mal. Porque o meu trabalho não é um trabalho de escritório das 9 às 5, mas é um trabalho que me exige bastante esforço. Portanto, não é justo que me façam sentir menos do que qualquer pessoa cujo trabalho a sociedade diz que é normal”. Dentro desta sociedade, a visão dos mais jovens começa a marcar a diferença, principalmente pela capacidade de interagir através dos meios digitais. 

Há alguma diferença na maneira como as pessoas mais jovens veem o teu trabalho? 

As pessoas mais jovens ou da minha idade, têm muito mais facilidade em interagir comigo através das redes sociais. E, por causa disso, houve uma progressão muito grande no meu número de followers no Twitter, Instagram e OnlyFans. 

Mas eu tento estar focado naquilo que estou a fazer e não no número de followers que tenho… que era algo que ao princípio me causava um pouco de ansiedade e não me deixava relaxar. Claro que sou grato pelos fãs e pelas pessoas que me seguem, mas chegou uma altura em que preferi focar-me naquilo que estou a fazer enquanto ator.

Sentes que é fácil crescer na indústria do cinema pornográfico? 

Em dois anos, eu nunca pensei que já pudesse ter gravado para estúdios internacionais. De facto, nunca pensei que pudesse ter viajado para gravar, para outro país ou para outro continente. Mas sinto que nestes dois anos passou muito mais tempo do que realmente passou. 

É fácil ser famoso no Twitter e é fácil ser famoso no Only Fans. Mas no porno é diferente. É uma empresa que te contrata. Não somos nós que fazemos a gestão, como acontece com a nossa própria página numa rede social. É algo no qual tem de se ser bastante profissional. 

Fotografia retirada do Instagram de Miguel Teixeira

Esta área deve intimidar quem tem vontade de a experimentar?

É pena que em Portugal não se possa fazer um porno internacional… mas isso deve-se à cultura que o país vive e à maneira como as pessoas veem o porno. Mas é muito mais fácil em Espanha: há empresas e estúdios que têm páginas nas quais se podem submeter candidaturas. Neste momento, a nível pessoal, creio que não há nenhum estúdio na Europa no qual eu não tenha feito trabalhos. Agora, até ao final deste ano, o meu objetivo é ir para o mercado americano. 

Então, o que eu digo é: quando se tem paixão por aquilo que se está a fazer, quanto nos esforçamos e somos gratos pelas oportunidades que nos dão, é muito mais fácil fazer uma carreira no porno.

Se pudesses falar sobre a pornografia para Portugal inteiro, o que é que dirias?

Diria que o porno faz parte das nossas vidas, diariamente. Mesmo que não se tenha um vídeo à frente, o sexo passa pelas nossas cabeças. Temos de encontrar o nosso próprio à vontade para falar sobre sexo, da mesma maneira que se fala sobre cultura ou história ou religião. Temos de nos educar, de ir à procura de informação e, neste caso, espalhar a informação pelas pessoas que estão sem ela. E isto é uma bola de neve, que vai crescendo. 

“Se falássemos de sexo diariamente, creio que metade do estigma sobre a pornografia desaparecia”

A pornografia é boa no sentido em que dá prazer. Dá emoção e fantasia. A pornografia deixa-nos levar para outros sítios que, na nossa vida, não conseguimos [ir].

Sir Peter está a ser um sucesso internacional e o ator português diz que é no seu alter-ego que se sente “capaz de fazer tudo”. A pornografia ocupa, então, para ele, um papel na cultura, na informação e na excitação. E a normalização da sexualidade e da pornografia enquanto tema de conversa, discussão e educação só traria os benefícios necessários a “todos terem a comodidade de ser eles próprios”.

Artigo da autoria de Fernando Costa e Inês Sincero

Artigo feito em colaboração com o jornal académico “O Ardina”