Educação

Regresso às aulas: as (ainda) dificuldades do ensino à distância

Após uma paragem de duas semanas, os alunos do ensino regular regressaram esta segunda-feira, dia 8 de fevereiro, às aulas – em casa, através do ensino online. A medida surgiu na sequência do aumento de casos diários de infetados por covid-19.
Por: Rita Magalhães

Para a maioria dos alunos portugueses, a escola é agora dentro de casa, mas existem algumas exceções. O Governo quis manter os apoios terapêuticos e medidas adicionais a alunos com necessidades especiais, assim como assegurar as refeições de alunos com escalão A e B. Para esses, acrescentando, ainda, os filhos de trabalhadores de serviços essenciais, as escolas permanecerão abertas a realizar os respetivos serviços.

Apesar desta medida ser em muito semelhante ao que aconteceu no primeiro confinamento, como será que está a decorrer este regresso ao ensino online?

As crianças “online”

Inês está no 1º ano, na EB1 da Praça, e é a primeira vez que apanha este novo modelo de ensino. Apesar de estar habituada às novas tecnologias, corroboram os pais, as aulas através do computador são um pouco estranhas: “Até me estou a adaptar, mas é um pouco estranho falar através da internet para os meus amigos e para a professora”. Da mesma escola, Maria Miguel está no 3º ano e concorda com a mais nova. Para ela, o ensino online é muito diferente do presencial, porque “há falhas na internet, as pessoas falam sem autorização”. Para além disso, as tecnologias são, por vezes, traiçoeiras: “Já tive um problema. O computador desligou-se a meio da aula e eu tive de ir ao telemóvel para ligar o [Microsoft] Teams e ter a aula por lá”. Quanto ao computador, não ligou durante vários dias. O irmão, Miguel Ângelo, 6º ano na escola EB 2,3 de Rates, explica melhor.

Gonçalo sabe disto na primeira pessoa. Aluno também do 6º ano, na escola EB 2/3 Gomes Teixeira de Armamar, sabe de cor todos os passos para entrar numa reunião no Microsoft Teams – “Primeiro, vamos às equipas. Clicámos no quadrado, por exemplo, português, e entrámos na conversa. Vai aparecer uma tabela azul, e no cantinho está escrito ‘participar’. Depois é só entrar”. Tem de os saber. Aquando do primeiro confinamento, em 2020, Gonçalo era uma das muitas crianças que não estava dotada dos meios essenciais para as aulas online: rede ou meios digitais. Teve, por isso, um trabalho duplo: aprender a mexer com estes meios e saber estar atento às aulas através do ecrã.

Quanto à entrega dos computadores por parte do Governo, o ministro do Estado, da Economia e da Transição Digital confirmou esta quarta-feira, dia 10, que “já foram disponibilizados 84 mil computadores”, incluindo no conjunto as soluções de conectividade. No entanto, ainda falta a entrega de mais 335 mil, compra inserida no âmbito do programa Escola Digital, aos quais Siza Vieira confirma que “as encomendas já estão feitas” e deverão ser entregues “nas próximas semanas”. As escolas receberam na quinta-feira as instruções: serão feitas de forma faseada, e os primeiros a receber são os alunos abrangidos pelo escalão A da Ação Social Escolar, que frequentam o secundário e não têm computador em casa. Cada aluno receberá, assim, “um computador portátil, auscultadores com microfone, uma mochila, um hotspot e um cartão SIM, que garante a conetividade a partir de qualquer ponto do país (pressupondo uma utilização responsável de dados móveis)”, indica o comunicado.

“Acredito que alguns conteúdos cheguem, mas vai ser necessário reforçar muito as aprendizagens quando voltarmos à escola” (Manuela Lourenço, professora)

Manuela Lourenço, professora do 2º e 3º ano, trabalha num projeto que envolve crianças de nível socioeconómico elevado com alunos da comunidade cigana. Uma turma de 19, dos quais, neste momento, apenas 10 têm os meios para assistir às aulas online.

Esta primeira semana de aulas não foi exemplo, conta: “Se no primeiro confinamento não notei essa dificuldade por parte dos meus alunos, alunos do 1º ciclo e motivados, normalmente motivados, neste confinamento noto muita dificuldade. Esta semana foi terrível. Os alunos não estavam minimamente interessados e atentos ao que estávamos a fazer e a dizer”.

Pais com dificuldade em gerir o teletrabalho e o ensino online

Contactada pelo JUP, Ana Craveiro está em regime de teletrabalho há já algum tempo. No entanto, desde o regresso às aulas com o ensino à distância da filha, que está no 1º ano, tem sido mais complicado fazer a gestão. “A maior dificuldade que encontro assim à partida é conciliar os horários dela, estipulados pelo plano que a professora apresenta, com as minhas atividades profissionais. Uma vez que ela precisa ainda de algum apoio, o que acontece é que eu preciso de estar a ouvir a aula muitas vezes para depois poder dar-lhe esse apoio e estar a fazer o meu trabalho ao mesmo tempo”. Afirma, igualmente, que o trabalho pedagógico por parte dos professores é limitado, “o que acaba por ter de ser compensado pelos pais no chamado trabalho autónomo”.

Carina Santos chegou a um extremo. Com duas filhas, uma de 3 e outra de 6 anos, teve a necessidade de se mudar temporariamente de Braga, onde reside, para a casa da sogra na Póvoa de Varzim. A razão? Não conseguir acompanhar as filhas nas aulas à distância.

 

O Ministério da Educação pediu aos agrupamentos escolares “equilíbrio” no número de horas em que os alunos estavam em frente ao computador a ter aulas. Em informação avançada pelo jornal Público, existem, ainda, escolas a replicar os horários que tinham presencialmente, ou seja, os alunos passam um grande período do dia a ter sessões sucessivas. Por outro lado, há pais que alegam que o tempo que está a ser dedicado a estas atividades síncronas não é suficiente.

O ensino à distância divide opiniões. Apesar de já haver um termo de comparação com o primeiro confinamento, o que leva a que muitos professores e diretores não queiram repetir erros passados, há ainda alguns problemas a ajustar para que todos os alunos possam assistir de forma equitativa às aulas lecionadas à distância.

A adoção do ensino à distância também alterou o calendário escolar. Os três dias de interrupção letiva respetiva ao Carnaval (15, 16 e 17 de fevereiro) serão de atividade escolar. O mesmo acontece com os dias 25 e 26 de março, “pelo menos”, referentes às férias da Páscoa, confirma Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação. Será ainda utilizada uma semana das férias de verão.

Artigo escrito por Rita Magalhães