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Concentração Ensino Superior Artístico: “Sem educação, não há cultura!”

Na passada quarta-feira, dezenas de estudantes mostraram o seu descontentamento pelo "desinvestimento no Ensino Superior Artístico" numa manifestação em frente ao Rivoli.

Aulas dentro de contentores, trabalhos destruídos pela chuva que entra nas instalações, encerramento de cantinas, horário reduzido de acesso de ateliers, aumento abusivo do valor das propinas e falta de apoio tanto na compra de materiais, como na realização de exposições. Estes são apenas alguns dos pontos que compõem uma (longa) lista de problemas fruto de décadas de desinvestimento no ensino artístico por parte das instituições de ensino superior.

Estes impedimentos a uma formação especializada digna trouxeram até à rua, na passada quarta-feira, alunos da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), da Escola Superior de Media Artes e Design (ESMAD) e da Escola Superior de Artes e Design (ESAD).

A praça D. João I, em frente ao Rivoli, tornou-se num espaço de protesto onde alunos de várias faculdades puderam dar o seu testemunho e num espaço de expressão onde os presentes puderam assistir a momentos performativos com várias atuações musicais e pintura ao vivo, precisamente para mostrar que a existência da cultura está dependente de um investimento na educação desta área.

José, estudante da ESMAE, lamenta que o desinvestimento constante na cultura no nosso país não seja apenas “evidente no meio profissional”, como ainda se manifeste de “forma expressiva na formação artística”. A precariedade encontrada nas escolas artísticas é, a seu ver, “reflexo da negligência e desprezo por parte da classe governante e das universidade e politécnicos em relação às infraestruturas que artes performativas necessitam para funcionar corretamente”. O estudante apela a que se tente imaginar um mundo sem os diversos profissionais de cultura, tantas vezes formados nas escolas presentes na manifestação, para que se perceba o seu papel fundamental na sociedade e o quão “inconcebível” é que estes não estejam a ter um ensino à medida dos valores exorbitantes que pagam – um dos problemas que sublinhou.

Também Diogo Rodrigues, aluno da FAUP, sentiu necessidade de falar sobre os problemas que “não são de agora, mas que se agravaram com a situação do covid” e que prejudicam o ensino na Faculdade de Arquitetura. O estudante começa por criticar a falta de espaço de uma “escola que foi desenhada para 500 alunos e que tem neste 1200” – apenas graças à pandemia, caso contrário acolheria 1500 alunos. Os alunos de arquitetura não têm cantina para refeições, apenas um bar “adaptado” para o efeito e já não podem trabalhar nas salas devido aos novos horários restritivos. Diogo queixa-se de ter que pegar nos seus materiais e levá-los embora e, uma vez em casa, “se tiver condições para trabalhar, trabalho. Se não tiver, não trabalho”, mostrando que a faculdade não garante boas condições de trabalho aos alunos que não as têm em casa. Diogo acusa ainda a Universidade do Porto de dar uma “resposta fraquíssima” na questão de garantia de alojamento a todos os seus estudantes e uma “resposta ainda mais fraca” na questão do acesso às bolsas de estudo.

“Encontramo-nos aqui hoje pois reconhecemos que a cultura só poderá ter o papel transformador que precisamos que ela tenha, quando se puser termo ao seu subfinanciamento.”

É por isto que todos os estudantes presentes protestam. Mas quem o diz é Beatriz Félix, estudante de Belas Artes, que acusa o Governo de praticar constantemente “violações à legislação” ao promover “a exploração dos trabalhadores da cultura com um baixíssimo orçamento para este setor de 0,21%” e por descartar “sem justificação” imensas candidaturas aos concursos de apoio. A aluna lamenta uma diminuição dos espaços destinados aos estudantes, a má degradação desses poucos espaços e ainda um corte (para metade) do tempo dedicado ao trabalho em atelier e culpa a faculdade de incentivar aos seus alunos a “recorrer a pirataria” ao não disponibilizar o acesso aos programas de edição que alguns cursos exigem.

Em conversa com o JUP/Jornal Espectro, André Araújo, um dos organizadores da manifestação, afirma que “existe, nomeadamente na Universidade do Porto, uma disparidade enorme de investimento em relação às engenharias, em contraposição às escolas de ensino artístico”, mas ressalva que não defendem que “a diminuição do investimento para as engenharias”, apenas querem que “as coisas sejam equilibradas, porque todas as funções são importantes na sociedade”

Os resultados desta manifestação podem até não dar resposta a todas as exigências que os alunos fazem para a melhoria do seu ensino, ainda assim esta demonstração de descontentamento não poderia deixar de ser feita, pois “quem luta pode não ganhar, mas quem não luta perde sempre”, como nos diz André.

Fotografia: Inês Sofia Pereira