AIESEC: “NA ESPERANÇA DE AJUDAR OS OUTROS, QUEM SAI AJUDADO SOMOS NÓS” – Jornal Universitário do Porto
Educação

AIESEC: “NA ESPERANÇA DE AJUDAR OS OUTROS, QUEM SAI AJUDADO SOMOS NÓS”

A AIESEC é a associação juvenil que apresentamos, este mês, na rúbrica “De mãos dadas com o associativismo”. O JUP esteve à conversa com a Beatriz Carvalho, Team Leader de Relações Internacionais na AIESEC in Porto FEP.

Foi de um forma calorosa que o JUP  foi recebido por Beatriz Carvalho, no escritório da AIESEC, na Faculdade de Economia do Porto (FEP). A estudante falou-nos sobre a sua experiência enquanto membro da associação, da qual faz parte há cerca de 7 meses. Antes da sua colaboração com a organização, Beatriz participou, através da AIESEC, em duas experiências, uma na Polónia e outra no Brasil. Com emoção e entusiasmo na voz, transmitindo o carinho especial que sente pela organização, conta-nos tudo sobre a importância e o impacto que estas experiências têm na vida dos jovens universitários.

“Não é só trabalhar, é trabalhar com gosto e estar motivado, e isso passa muito por estar presente e partilhar”

JUP: Se tivesses que apresentar a AIESEC, como o farias?

Beatriz Carvalho (BC): A AIESEC é a maior organização internacional gerida por jovens, dos 18 aos 30 anos e visa desenvolver o potencial humano através de estágios e voluntariado a nível internacional. Quanto à AIESEC in Porto FEP, estamos divididos em back office, finanças e recursos humanos, e front office, Projetos Sociais, Relações Empresarias e Relações Internacionais, sendo que Marketing está entre as duas. Em relações empresarias são abertas vagas em start-ups e empresas em Portugal para estagiários internacionais virem para cá. Em Projetos Sociais faz-se o mesmo, mas ao nível de escolas e lares, para voluntariado. Enquanto que em Relações internacionais levamos os jovens de cá para oportunidades no exterior. Tal como nós abrimos oportunidades cá, apenas para voluntários ou estagiários de fora, o mesmo acontece no estrangeiro.  O trabalho que desenvolvemos é muitas vezes feito no escritório, porque estão sempre coisas a acontecer e é muito mais fácil transmitir pessoalmente a urgência das coisas que têm de ser feitas, mas não é obrigatório. Contudo, as pessoas acabam por o fazer, porque gostam, estão mais envolvidos no ambiente da organização e isso é também muito importante. Não é só trabalhar, é trabalhar com gosto e estar motivado, e isso passa muito por estar presente e partilhar.

Foto: AIESEC in Porto FEP
Foto: AIESEC in Porto FEP

JUP: Como é que funciona a integração dos novos membros? Vocês têm muita informação para passar e é preciso começar desde logo a trabalhar, como é que conseguem gerir isso?

BC: O processo é muito seletivo e o número de pessoas que entra depende de recrutamento para recrutamento. É muito trabalho e responsabilidade e nós sentimos isso mal entramos na organização. Depois da entrevista, o último passo para entrarem na organização é um fim de semana de integração obrigatório. Eles vão completamente às escuras, nem sabem onde se vai realizar, o desafio começa logo aí. Esta é a primeira parte da integração, eles passam 2 dias e meio sempre com as mesmas pessoas, bombardeados com informação. É um fim de semana de imensa partilha de ideias, diferentes opiniões, todos os departamentos a conviver em conjunto. É muito importante para todos. Depois, durante a primeira semana, tentamos dar umas sessões de integração, com todo o escritório presente. A par disso, os Team Leaders (TLs) também ficam responsáveis por passar algumas informações específicas do departamento e do trabalho que vão desenvolver.

“É isso que me faz gostar tanto da AIESEC, tem departamentos muito diferentes, mas todos com o mesmo objetivo”

JUP: Já foste membro de Relações Internacionais (RI), atualmente és Team Leader (TL). Gostavas de ter uma nova experiência dentro da AIESEC?

BC: Sim, eu adorava. Dentro da AIESEC temos uma coisa muito boa, em cada semestre, desde que não se faça parte do Executive Board, que têm um compromisso anual, podemos experimentar outros departamentos e posições diferentes. Podemos ser membros, managers (back-office) ou Team Leaders (front-office). Por exemplo, eu estou em Relações Internacionais, mas, no próximo semestre, independentemente de quando é que entrei na organização, a candidatura volta à estaca zero. Ou seja, se eu quiser ser TL, mesmo que seja de RI como sou agora, ou manager, tenho de submeter uma nova candidatura e terei uma nova entrevista. Claro que este processo de recrutamento é distinto daquele que abrimos para entrarem novos membros na organização. E é isso que me faz gostar tanto da AIESEC, tem departamentos muito diferentes, mas todos com o mesmo objetivo e temos oportunidade de experimentar qualquer um.

JUP: Antes de fazeres parte da organização, foste em duas experiências de voluntariado, através da mesma. Queres falar um bocadinho sobre elas, o que te motivou e o que foste fazer?

BC: Eu fiz um gap year no final do secundário, estava totalmente perdida, não sabia o que fazer. Pesquisei muito sobre organizações que proporcionam este tipo de experiências, mas a AIESEC foi a única que correspondeu às minhas expectativas, tinha um propósito e tinha oportunidades especificas, não era nada demasiado generalizado. Identifiquei-me com a organização e foi aí que me lancei. E, a partir do momento que fui, nunca mais larguei.

“Foi tudo muito genuíno. As pessoas estavam predispostas e eu estava lá para aprender e para me desenvolver”

Fiz o meu primeiro projeto de voluntariado na Polónia, a trabalhar com pessoas com doenças mentais, desde os 18 até aos 70 anos, durante 5 semanas. Trabalhar com pessoas com doenças mentais, numa cultura e língua diferentes, é muito complicado. Eu sou uma pessoa adaptável e acabei por lidar bem com a situação, mas nunca me vou esquecer do impacto que senti. Mesmo não percebendo nada de Polaco, não conhecendo a cidade, não estando habituada a lidar com pessoas com aquele tipo de limitações, a verdade é que a comunicação era feita. Às vezes através de um desenho, músicas, gestos, mas a comunicação era feita. Cozinharam para mim, dançaram comigo, desenharam bandeiras de Portugal, foi incrível. E foi tudo muito genuíno. As pessoas estavam predispostas e eu estava lá para aprender e para me desenvolver.  Foi incrível. Para além disso, eu fui numa altura em que todas as pessoas que lá estavam eram de fora da Europa, como o Brasil, China, Coreia, México e Egipto. Para além de estar numa cultura diferente, tive oportunidade de vivenciar outras culturas. Acabei por ter um maior choque cultural, mas no bom sentido. Agora tenho amigos em todos os cantos do mundo.

“O nosso projeto baseava-se no empreendedorismo social, tínhamos de criar campanhas, tentar arranjar patrocinadores”

JUP: E quanto à tua segunda experiência, no Brasil, sentiste o mesmo? O projeto era semelhante?

BC: Em termos de choque cultural, foi muito maior. Se Polónia não tinha nada a ver com Portugal, Salvador não tem mesmo nada a ver. E, por muito que nos sejam apresentadas as condições de um país, só as percebemos quando chegamos lá. Não é fácil ou difícil, é diferente e as pessoas têm de estar predispostas a se adaptarem. É verdade que o Brasil é muito samba, calor e pessoas felizes, tal como muita gente pensa, mas não é só isso. Eu tive uma preparação cultural gigante, antes de ir, pela AIESEC in Porto FEP, e lá, quando cheguei.

Estive em Salvador durante 6 semanas, numa organização para jovens de um bairro específico, chamado Bagunçaço, em que eles iam para lá depois das aulas, sendo que eles tinham pouquíssimo tempo de aulas, muitas vezes saíam às 8h e chegavam às 11h. A organização tinha 25 anos e quando foi criada havia atividades e aulas de inglês. Muitos dos jovens que vão para lá vão por opção, porque não querem estar em casa. O que aconteceu foi que quando eu cheguei lá, a organização estava completamente degradada, tinham condições horríveis. Então, como o nosso projeto se baseava no empreendedorismo social, tínhamos de criar campanhas, tentar arranjar patrocinadores. O que estes projetos têm de bom é que, mesmo que nós não vejamos resultados imediatos, aquilo que foi iniciado por nós vai ser continuado pelos voluntários seguintes. Eu não posso dizer que fiz isto ou aquilo, mas efetivamente eu fiz, dei o meu contributo para uma coisa que vai, um dia, ter um resultado e é isso que é gratificante. Quando acabei o projeto, acabei por ficar 2 meses no Brasil. Fui a dois estados, Maceió e São Paulo, onde estive com dois amigos, que conheci quando estive na Polónia.

Foto: JUP
Foto: JUP

JUP: Não tiveste medo de ir sozinha para um sítio completamente desconhecido?

BC: Não. É assim, eu na altura queria-me descobrir, tudo o que fosse novo e tudo o que me chamasse, eu queria simplesmente ir. A única vez que eu tive mesmo medo foi quando estava a preencher o formulário e havia uma pergunta que dizia “Se fores assaltada na rua, o que é que fazes?” e eu comecei a chorar e liguei à minha mãe a contar e ela só me respondeu “Mas tu achas que vais para onde? Tu sabes para onde vais, sabes como é e estás-te a espantar que isso esteja aí?” e aquelas palavras fizeram todo o sentido. Eu pesquisei muito e, sinceramente, as pessoas às vezes pintam o cenário muito pior do que aquilo que ele é. As coisas acontecem, é verdade, mas há coisas que se pode fazer para que não aconteçam. Do meu grupo de amigos, eu fui a única a quem o telemóvel não foi roubado. Não houve nenhum ato violento, simplesmente é comum eles verem o telemóvel ou a mochila um bocado aberta e tiram. E isto pode acontecer aqui. Eu não estou a desvalorizar, Salvador é muito mais perigoso do que aqui, sem dúvida. Os cuidados a ter são mais acrescidos e é preciso tê-los em conta.

“Nós somos só uma passagem na vida deles, eles são um marco gigante para nós”

JUP: Porque é que incentivavas as pessoas a irem de experiência?

BC: É a soma de tudo aquilo que já disse. Mas, sobretudo, para terem consciência dos problemas lá fora. Nós estamos aqui e vemos as coisas a acontecer, achamos que não podemos fazer nada, sentimo-nos impotentes. Quando embarcamos numa experiência destas, estamos em contacto com as pessoas. E nós vamos num projeto de voluntariado na esperança de ajudar os outros e quem sai ajudado somos nós. Nós somos só uma passagem na vida deles, eles são um marco gigante para nós. É uma oportunidade única para a pessoa se desenvolver e deixar um bocadinho dela em cada uma das pessoas que efetivamente estiveram lá com ela.

“Your dreams are in the other side of your fears”

JUP: Como é que as pessoas se podem informar sobre os programas e como é que se podem candidatar a essas oportunidades?

BC: Temos uma plataforma online onde as pessoas se podem registar, sem compromisso. Só quando escolhem a experiência e assinam contrato, que é a fase final antes de ir de experiência, é que têm um compromisso com a AIESEC. Fazemos também divulgações e info-sessions, as quais vão sendo anunciadas nas redes sociais para chegar a um número máximo de pessoas possível. As próximas divulgações vão ser no dia 4 de abril na FEUP, dia 5 de abril na FEP e no ISCAP e dia 9 de abril na FMUP. Há quem nunca tenha ouvido falar, há outros que já ouviram e gostavam de saber mais, é uma oportunidade para todos.

Uma das coisas que mais nos perguntam é onde é que existem experiências. Nós temos muito fluxo de oportunidades tanto na América do Sul, como no Sudeste Asiático, são as regiões onde há mais procura e oferta. Em África também existem, mas o que acontece é que são países mais pobres. Nós asseguramos alojamento e uma refeição por dia ao voluntário e nos países da África é muito difícil conseguirmos isso.

“É tudo sobre dar o primeiro passo”

JUP: O que é que dirias às pessoas que gostavam de se mandar, mas lhes falta a coragem?

BC: Em primeiro, que não tenham medo de ir sozinhas. Não vão, de todo, ser abandonadas, assim que partirem para a experiência. A AIESEC proporciona um apoio constante e em todas as vertentes desde o inicio. Vão buscar-vos ao aeroporto, explicam ao máximo o projeto, levam-vos ao primeiro dia de trabalho e, além disso, a AIESEC in Porto FEP mantém o contacto com vocês durante a experiência.

Eu terminei uma info-session com esta frase: “Your dreams are in the other side of your fears” e eu acho que isso é mesmo verdade. Eu estava muito nervosa por ir fazer a apresentação para tanta gente e eu sabia que o facto de elas gostarem da organização e do propósito ia ser responsabilidade minha, podia mudar a vida de cada uma das pessoas que estava naquela sala. Por muito que eu estivesse nervosa, eu mandei-me, fui e comecei a falar e as coisas saíam naturalmente. Ou seja, é só dar o primeiro passo. É difícil, mas procurem, tentem saber mais, falem com pessoas que já foram de experiência, até pessoas que já foram para o sítio que vocês gostavam de ir, falem com pessoas da organização. Eu acho que é tudo sobre dar o primeiro passo.