Educação

EDUCAÇÃO FÍSICA: PARLAMENTO QUER QUE A DISCIPLINA VOLTE A CONTAR PARA A MÉDIA DE ENTRADA NO ENSINO SUPERIOR

O Parlamento aprovou, na passada sexta-feira, resoluções do Bloco e do PCP para que a Educação Física volte a contar para a média e, portanto, para a entrada no ensino superior. Agora, cabe ao Governo aceitar (ou não) as recomendações. O JUP falou com professores da disciplina para perceber o que pensam da eventual alteração.

A avaliação de Educação Física deixou de contar para a média há seis anos. Na altura, a medida gerou polémica mas agora a discussão voltou ao Parlamento. Desta vez, para voltar atrás com a medida tomada pelo ex-ministro da Educação Nuno Crato.

As resoluções foram apresentadas pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP e contaram com os votos a favor dos Socialistas, do Bloco, do PCP, do PEV , do PAN e do deputado do CDS-PP Telmo Correia. Os Sociais-Democratas abstiveram-se da votação, assim como os restantes deputados do CDS-PP.

Estas resoluções propõem algumas alterações. A mais imediata é a consideração da nota de Educação Física para o cálculo da média final do secundário – que dita o acesso ao ensino superior. Depois, a reposição da carga horária que a disciplina tinha em 2012, no 3º ciclo do ensino básico e no ensino secundário. Finalmente, a criação de medidas para a “integração real” – lê-se na proposta comunista -, no 1º ciclo do ensino básico e no pré-escolar.

“Os alunos não têm de ser todos bons a educação física. Podem é ter uma postura de dedicação e de tentarem superar algumas dificuldades”

“Os alunos não têm de ser todos bons a educação física”

Para Andreia Veiga, professora de educação física na Escola Secundária Rodrigues de Freitas, “o facto da disciplina não contar para média desmotiva os alunos. A dedicação da maioria baixa”. Patrícia Sousa, licenciada em educação física e mestre em ensino, é da mesma opinião: “Sem dúvida que desmotiva”. Isto porque “Se puderem descartar uma disciplina e não se tiverem que preocupar com a nota da mesma, praticamente todos o irão fazer”, defende. Já Juliana Vaz, professora da disciplina na Escola Básica e Secundária das Flores (Açores), diz que este “não deveria ser um fator decisivo para que o empenho dos alunos fosse maior”.

Quanto aos alunos que têm notas altas de uma forma geral, mas não têm grande aptidão para a educação física, a docente não acredita que a disciplina possa ter um efeito negativo na média – “Se todos os docentes cumprirem o que está planeado e apostarem em trabalhos ou testes, de certeza que estes alunos, que são empenhados por natureza, não vão ser prejudicados. Passaram por mim muitos e nunca prejudiquei a média de alunos que tinham mais dificuldades na minha disciplina. Bem pelo contrário, já beneficiei muitos”.

Docente há 27 anos, Andreia Veiga defende que “os alunos não têm de ser todos bons a educação física. Podem é ter uma postura de dedicação e de tentarem superar algumas dificuldades. Não podemos querer que todos cheguem ao mesmo patamar, mas podemos ambicionar que cada aluno possa melhorar, relativamente ao ponto de partida. É assim que vejo a minha disciplina e os meus alunos”.

 “Todas as disciplinas têm a sua importância no currículo dos alunos, por isso todas devem ser encaradas da mesma forma, para todos os alunos”

E se a decisão coubesse aos próprios alunos?

Segundo o Observador, o Conselho de Escolas, orgão consultivo do Ministério da Educação, propôs que fossem os próprios alunos a escolher se a disciplina deve ou não contar para o acesso ao ensino superior. Para a professora da Escola Rodrigues de Freitas, esta “pode ser uma boa opção”. A docente sugere que os alunos do ensino secundário tomem essa decisão logo na matrícula “e depois sabem que empenho devem ter para serem bem classificados”. “O único senão é a discrepância que numa turma possa haver entre os alunos que escolheram a disciplina para a sua média e aqueles que não lhes interessa. Mas isso cabe ao professor gerir”, acrescenta.

Mas, ao contrário da professora Andreia Veiga, Patrícia Sousa não acha a possibilidade de os alunos decidirem por si próprios viável: “Ao contrário do que pode parecer à partida, esta disciplina não se foca apenas em atividades físicas. Há um conjunto de valores que se consegue transmitir aos alunos, como o espírito de equipa, superação, entreajuda, entre outros. E isso é algo que deve ser imprescindível na escola e, por isso, deveria ter a mesma importância que todas as outras disciplinas. Só o facto de darem esse poder aos alunos já está, automaticamente, a interferir na importância (ou falta dela) que dão à disciplina”.

Também Juliana Vaz diz não a esta possibilidade. “Aqueles que têm um menor aproveitamento noutras disciplinas, como a matemática, também não têm essa opção. Todas as disciplinas têm a sua importância no currículo dos alunos, por isso todas devem ser encaradas da mesma forma, para todos os alunos”, sustenta a docente.

Andreia Veiga termina a entrevista sublinhando a importância da disciplina: “pessoalmente continuo a acreditar nos meus valores e a fazer o mesmo trabalho desde que iniciei a minha carreira, já lá vão 27 anos. Tento fazer ver que a minha disciplina não lhes permite grande índices de atividade física, dada a carga horária, mas pode incutir nos alunos o gosto pela mesma, que é benéfico a todos os níveis”.