CALOIRO É “IRRACIONAL” E “INCONDICIONALMENTE SERVIL”, DIZ MANUAL DE PRAXE – Jornal Universitário do Porto
Educação

CALOIRO É “IRRACIONAL” E “INCONDICIONALMENTE SERVIL”, DIZ MANUAL DE PRAXE

O "caloiro não é um ser racional", "não goza de qualquer direito" e "é incondicionalmente servil, obediente e resignado". Pode ler-se no Manual de Sobrevivência do Caloiro, distribuído na semana passada aos novos alunos da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP).

Luís Monteiro, deputado do Bloco de Esquerda, denunciou o teor do Manual de Sobrevivência do Caloiro, distribuído na passada semana aos novos alunos da FCUP.

O deputado do Bloco afirma que irá enviar uma questão parlamentar ao Ministério da Ciência e Ensino Superior acerca do caso. Monteiro diz-se “chocado” com a linguagem usada e, em declarações ao jornal Público, fala da falta de mecanismos, quer para apoiar os novos alunos, quer para controlar os abusos nas praxes.

Pelo que o JUP conseguiu apurar junto de alguns estudantes da faculdade, é já a terceira vez que o documento é distribuído.

Foto: Esquerda Net
Página do manual | Foto: Esquerda Net

“Aqui dentro, não está a acontecer, de certeza absoluta”

O diretor da FCUP, António Fernando da Silva, garante que o manual não foi distribuído dentro das instalações da faculdade: “Aqui dentro, não está a acontecer, de certeza absoluta”. O responsável contou ao Público que proibiu as atividades praxísticas há já sete anos dentro da faculdade e que, desde essa altura, todos os novos alunos recebem uma cópia do despacho de 2010 onde se pode ler que a praxe “não é uma atividade escolar e é de adesão livre” e que a sua prática “não está autorizada” nas instalações da FCUP.

“A verdadeira questão é pensarem que alguém o leva a sério”

O JUP falou com alguns alunos que confirmam que as atividades praxísticas não decorrem na faculdade porque “o diretor é completamente contra”. Susana Queirós, estudante de Arquitetura Paisagista, diz ainda que a reação das pessoas ao “manual” tornado público é um “exagero” e “má interpretação”. A aluna fala em “brincadeiras de praxe” e sublinha que, nesta polémica, “a verdadeira questão é pensarem que alguém o leva a sério”.

Maria João Fernandes, estudante do 3º ano de Matemática, diz que também recebeu o manual no seu primeiro ano de curso depois de se ter inscrito na praxe, que não chegou a frequentar. A aluna, que desconhecia a polémica gerada pelo manual, descreve-o como “inofensivo”.

Segundo Bernardo Machado, o manual deve ter sido redigido ou, pelo menos, aprovado pelo Conselho de Veteranos da FCUP. O estudante, que se encontra no último ano de Biologia, confirma que este livro é entregue há já pelo menos 3 anos, mas desvaloriza a polémica criada porque o manual “é tão ridículo que nem merece ser discutido”.

No ano letivo passado (2016/2017), foram feitas 18 denúncias de praxe abusiva à Direção Geral do Ensino Superior (DGES).

Em declarações ao Jornal de Notícias, os sociólogos João Teixeira Lopes e Elísio Estanque dizem que o número de denúncias não faz jus à realidade porque ainda há uma “cultura permissiva” quanto aos rituais de praxe.

Na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, os novos alunos serão recebidos com ações de receção e boas vindas entre os dias 1 e 18 de outubro, promovidas pela própria faculdade.