Educação

ESCOLAS ARTÍSTICAS: UM FUTURO BRILHANTE?

Sabe-se que as artes em Portugal não têm um presente fácil. É Pedro Lamares, ator, professor e encenador, que o diz e afirma que “se olhar para o futuro vejo-o mais brilhante que o presente”. O Porto luta contra a corrente e oferece um conjunto de escolas de formação que lutam para minimizar o retrocesso cultural que se viveu nos últimos anos.
Ilustração por Patrícia Pereira

Ensinar requer a “capacidade de arrumar o nosso conhecimento, de sistematizá-lo e de o tornar mais organizado”, afirma Pedro Lamares, professor na escola artística Balleteatro, e acrescenta que “ensinar é uma aprendizagem permanente”.

O Balleteatro é um centro para o desenvolvimento das Artes Performativas. Fundado em 1983 por Isabel Barros, Jorge Levi e Né Barros, permitiu a construção de uma comunidade artística que não existia na cidade. Na sua génese, a oferta formativa concentrava-sena dança para crianças e adultos, ao nível lúdico e profissional. A continuidade desse trabalho permitiu que, em 1989, o Balleteatro se tornasse a primeira Escola-Profissional de Teatro e de Dança da cidade do Porto. Neste momento, é a única de Dança no país.

É marca da Balleteatro o envolvimento com criadores de outras áreas performativas, devido às produções das coreógrafas residentes, Isabel Barros e Né Barros. Isabel explora um universo do teatro de imagens e objetos, enquanto Né se foca na experimentação coreográfica do corpo em movimento. Isabel Barros integra o conselho artístico no Danse à Lille e representa a Balleteatro.

A escola é um meio de circulação de projetos artísticos, pelo que promove um programa regular de espectáculos, aposta na formação contínua e ateliers, residências e edição de materiais livro e audiovisual. Enquanto fonte criadora de arte, apoia projetos nacionais e internacionais, entre a Dança, o Teatro e outras formas de expressão artística. Disponibiliza ainda uma oferta formativa que conta com uma variedade de workshops e cursos dirigidos por conhecidos artistas e teóricos, pelo que os alunos contactam diretamente com projectos coreográficos e teatrais de formato semelhante aos profissionais.

Importa referir que a Balleteatro tem formado artistas que têm vindo a enriquecer o tecido profissional e artístico nas áreas do espectáculo. Destacam-se Igor Gandra (Teatro de Ferro), Joclécio Azevedo (NEC), Vera Santos (Fábrica de Movimentos),  Victor Hugo Pontes, Teresa Prima, Gustavo Sumpta e Carlos Silva (Movimento Incriativo, Arcos de Valdevez). A escola desenvolve também uma relação próxima com a comunidade social e com instituições locais.

A Balleteatro aposta na divulgação de projetos experimentais de novas companhias e criadores, servindo-se do lugar privilegiado que ocupa no universo nacional das Artes Performativas. Exemplo disso é o seu papel organizador do Festival “Dança.pt”, que tem como objetivo fazer circular propostas de jovens companhias.

A Balleteatro foi criada por iniciativa privada e é parcialmente financiado pelo Ministério da Cultura/Instituto das Artes e pelo POPh para o funcionamento dos seus cursos. A missão enquanto escola artística passa por enraizar o projeto na cidade e consolidar a comunidade das Artes no panorama artístico nacional.

 

Situada no centro histórico da cidade do Porto, a Escola Superior Artística do Porto (ESAP) foi fundada em Maio de 1982. A sua localização em pleno centro urbano é um estímulo à participação da comunidade em iniciativas da escola.

Actualmente, conta com cerca de 780 alunos, 130 docentes e 31 funcionários que coexistem num ambiente criativo, dinâmico e plural. A ESAP é uma escola associada da UNESCO, parceira com Universidades Europeias e da América Latina e com programas de mobilidade internacional de docentes, alunos e staff.

Apresenta diversidade de cursos, que permitem, além de uma especialização, um contacto com diferentes experiências criativas. É característica do Projeto da Escola Superior Artística do Porto um trabalho pedagógico assente na diversidade das áreas de atividade e de saber que permite a interação e o cruzamento entre os cursos lecionados.

Decorrente do trabalho pedagógico e científico desenvolvido, os alunos da ESAP têm sido distinguidos com vários prémios e menções a nível nacional e internacional. Para tal contribui o empenho da ESAP na qualidade do seu corpo docente e no acompanhamento personalizado a cada aluno, que lhe permite preparar-se para as exigências do mundo artístico “fora de portas”. O ensino das artes requer profissionais que tenham “a capacidade de olhar o outro, observar o seu trabalho e tentar entrar nessa linguagem e na lógica de trabalho, sem cair na tentação de o transformar e normalizar todo à nossa imagem”, diz Pedro Lamares.

Os cursos superiores artísticos da escola combinam, de forma equilibrada, as componentes teóricas, técnicas e criativas dos seus planos de estudos. Enfatizam o envolvimento com o meio regional de modo a promover o seudesenvolvimento cultural, através da participação em atividades na cidade do Porto.

 

A Escola Árvore é uma escola profissional vocacionada para a formação no domínio das expressões plásticas. Situada na zona histórica da cidade do Porto, procura dar expressão ao projeto Árvore, de formação alternativa pela via da arte.

Em 1963, foi revelada uma preocupação por um conjunto de intelectuais e artistas do Porto, que criaram uma cooperativa cultural, Cooperativa de Atividades Artísticas, C.R.L – a Árvore. Nascera com os propósitos de facilitar o acesso à Arte e Cultura, lutando contra a corrente conservadora do regime do Estado Novo, e de favorecer o desenvolvimento do associativismo e do processo de produção cultural e artística.

Nos anos 70,foram criados os primeiros cursos livres em expressões plásticas, que culminaram nas primeiras experiências pedagógicas.

A Escola Artística e Profissional Árvore foi efetivamente criada em 1989, por meio de um contrato assinado entre a Escola das Virtudes, então designada Cooperativa de Ensino Polivalente e Artístico Árvore II, C.R.L., e o Ministério da Educação. Em 1998, o Ministério da Educação retirou-se da parceria e entregou a propriedade da escola profissional à Escola das Virtudes.

O seu projeto educativo assenta em valores que promovam uma formação humanista, dirigida para o desenvolvimento da cidadania e para a participação ativa na defesa dos valores fundamentais da liberdade, da paz e da tolerância, bem como dos bens do património cultural e ambiental.

À semelhanças das outras escolas, o seu método de ensino está orientado para o trabalho de projeto e revela uma relação de proximidade professor-aluno.

 

 

A Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo (ESMAE) foi estabelecida a partir da Escola Superior de Música, criada em 1985, dando seguimento à tradição do ensino de música na cidade do Porto.

Com cerca de 734 alunos e 106 professores, a ESMAE nasceu com o objectivo de alargar a sua formação ao Teatro e à Dança, de modo a responder à necessidade de desenvolvimento nessas áreas na cidade do Porto. É formada pelos departamentos de Música e Teatro, e pelo departamento de Fotografia, Cinema, Audiovisual e Multimédia.

A ESMAE revela uma proximidade com o exterior, com o objetivo de promover um contacto estreito e contínuo entre os jovens e músicos e o seu futuro público, numa experiência enriquecedora para todos os futuros profissionais das artes do espectáculo. Neste sentido, o Teatro Helena Sá e Costa e o Café-Concerto situam-se na ESMAE, que conta com frequentes apresentações da Orquestra Sinfónica da ESMAE, da Orquestra Portuguesa de Saxofones, da Orquestra de Jazz, da Orquestra de Música Antiga, de grupos de Música de Câmara e espectáculos de teatro, produto da iniciativa dos alunos.

A escola tem uma oferta eduvativa alargada. Os Planos de Estudos contemplam várias áreas artístico-científicas: Prática Artística Musical, Estudos Musicais, Estudos Socioculturais, Produção e Tecnologias da Música, Tecnologias.

O Departamento de Artes da Imagem (DAI)  é composto por dois cursos de 1º ciclo: a Licenciatura em Tecnologia da Comunicação Audiovisual (TCAV) e a Licenciatura Tecnologia da Comunicação Multimédia (TCM) e um curso de 2º ciclo: o Mestrado em Comunicação Audiovisual (MCA), com áreas de especialização em Fotografia e Cinema Documental e Produção e Realização Audiovisual.

O DAI oferece uma formação teórica e prática de âmbito técnico e artístico, que possibilita que os alunos obtenham competências, ao nível da comunicação, nas áreas das Artes da Imagem. O ensino ministrado nos cursos do DAI é complementado através de contactos com instituições e fundações académicas nacionais e internacionais, bem como com organizações públicas e privadas da sociedade civil.

O Curso do Departamento de Música da ESMAE confere a Licenciatura em Música nas vertentes de Instrumento, que se subdivide em Piano, Cordas (violino, viola, violoncelo, contrabaixo, guitarra), Sopros (flauta, clarinete, oboé, fagote, saxofone, trompete, trompa, trombone, tuba) e Percussão; Canto; Composição; Música antiga; Jazz e Produção e Tecnologias da Música.

Os grupos da escola, como a Orquestra Sinfónica Sinfonietta,  atuam em vários pontos do país e contam com a colaboração de conceituados maestros convidados. Outros agrupamentos representativos são: Coro, Coro de câmara, Coro-Jazz, Orquestra de música antiga, Orquestra de Jazz, Orquestra de saxofones, Grupo de música contemporânea.

A ESMAE promove várias atividades extracurriculares como concursos, cursos, seminários, palestras, das quais é exemplo o Concurso Helena Sá e Costa, que seleciona solistas para a Sinfonietta.

No meio artístico, mais que em todas as áreas é essencial uma articulação entre o conhecimento teórico e o prático. O que distingue o ensino artístico do ensino meramente técnico reside na aprendizagem consistente dos fundamentos e conceitos teóricos, estéticos e plásticos que, com o texto, ligam as formas e as atitudes que a técnica permite.

“A cultura é fundamental na formação de uma identidade coletiva e como ferramenta essencial para nos ajudar a pensar e nos tornar mais críticos e ativos socialmente”, salienta Pedro Lamares que apela à necessidade de assumirmos esta importância: “enquanto continuarmos a lidar com a cultura como uma flor na lapela, estamos num caminho negro”.