Crónica Desporto

A MALDIÇÃO DAS CHICOTADAS PSICOLÓGICAS

O desporto é o momento, que de tão imprevisível, se torna uma verdadeira paixão para quem o adora. Sim, não me esqueci dos treinadores, ao contrário de muitos que continuam a pô-los fora de palco antes mesmo da peça terminar.
Pedro Maia
Pedro Maia

Decidi optar por, na minha primeira crónica no rejuvenescido Jornal Universitário do Porto, abordar um tema muito em voga no panorama desportivo nacional. Sim, como facilmente depreende através do título deste texto, considerei que as “famosas” chicotadas psicológicas seriam um tema pertinente nesta crónica.

A 5 de março de 2013, Paulo Fonseca foi apenas mais uma vítima dos maus resultados da equipa. Os assobios foram muitos ao longo dos 8 meses de liderança do FC Porto, e como em muitas outras ocasiões no futebol, o treinador acabou por ser o elo mais fraco… e sair. Os lenços brancos e as constantes indignações dos adeptos faziam de Fonseca um treinador a prazo, sem capacidade mental para continuar apesar de, e segundo rezam as crónicas, o presidente portista até ter recusado a saída de Fonseca em duas ocasiões. Coincidência das coincidências, Paulo Fonseca acabou por ser do comando portista em pleno dia de aniversário. Talvez não tenha sido o timing ideal para colocar fim à ligação entre as partes, mas acredito que no íntimo do próprio ex-treinador do Paços de Ferreira, o anúncio da sua saída acabou por ser um verdadeiro presente de aniversário.

Não pense que é à toa que o digo, porque não é. Ao longo de todos os empates, derrotas, gaffes e outros erros de principalmente, Fonseca ia demonstrando a sua incapacidade de lidar com um instrumento para o qual não parecia preparado. Contudo, e fazendo a retrospetiva daquilo que foi a época azul e branca, fazer de Paulo Fonseca o único culpado da situação complicada no campeonato parece-me injusto e desonesto. É fácil dizer que nas vitórias todos ganham, mas mais incrível parece acontecer nas derrotas, quando o único culpado que surge em praça pública vem rotulado com o nome do treinador. Por entre jogadores milionários e contratações falhadas, oportunidades desperdiçadas e vitórias não alcançadas, culpar apenas Fonseca parece-me apenas uma maneira de forjar as dificuldades de uma estrutura dita infalível. Não, claro que não é. Esta estrutura é feita de homens e os homens falham. O passado de vitórias de um clube não o torna imune à derrota e à desilusão. O passado de conquistas e glórias não pode fazer esquecer o sentimento de perda, que tão importante é no virar de página de uma história, de um ciclo ou até de um clube.

Fonseca foi apenas mais uma vítima das já muitas chicotadas psicológicas desta temporada, e apenas mais um entre os inúmeros treinadores que viram o seu contrato terminar antes do previsto. Não sou daqueles que prevê o fim de um ciclo porque me parece prematuro. O desporto é o momento, que de tão imprevisível, se torna uma verdadeira paixão para quem o adora. Sim, não me esqueci dos treinadores, ao contrário de muitos que continuam a pô-los fora de palco antes mesmo da peça terminar. Injusto, digo eu, porque se um homem não faz a história de um povo, um ator também não faz o teatro.

Isto é só desporto. Lembrem-se sempre disso.

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