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“INSPIRATION PORN”: A DEFICIÊNCIA À LUPA COM HUMOR

Pedro Bártolo
Pedro Bártolo

Ao ouvir Stella Young escalpelizar o mito da pessoa com deficiência encarnar dogmaticamente uma fonte de “inspiração” alheia, sinto, como nunca, as palavras de outro como minhas. Esta comediante, jornalista e ativista, que me foi dada a conhecer por uma amiga, antecipando a cumplicidade que despertaria em mim a TED talk da australiana, consegue desconstruir o fenómeno da idolatração cega da pessoa com deficiência com uma sagacidade e benevolência capazes de acudir aos corações mais sulcados pelo preconceito. Amparando todo a palestra pelas vivências pessoais, Stella reavivou-me memórias similares e tempos em que me debati, entre a dúvida e a resignação, se de facto viver com uma deficiência era motivo para me vangloriar como um farol de resiliência e perseverança.

Felizmente, tal como Stella Young, estive e estou rodeado de gente que fez questão de me “esfregar” na cara a mundanidade dos meus “feitos”, perante quem tenho uma eterna dívida de gratidão. Se assim não fosse, sobejariam os motivos para ostentar um ego palpitante, elencando-se como exemplos, pelos quais já fui prolificamente parabenizado, ser detentor da carta de condução para veículos de categoria B, ter finalizado o ensino secundário, ou – e escalamos agora para um patamar olímpico – propulsionar sem auxílio de outrem a minha cadeira de rodas e ficar sozinho em casa aos 22 anos de idade.

O meu desdém biliar pelo que Stella Young cunhou de forma sublime como “Inspiration Porn” leva-me a ser olhado com particular perplexidade, num país em que os próprios profissionais especializados na área da deficiência perpetuam – e validam – a ideia de que as pessoas com deficiência, palavras da ativista, “existem para inspirar” e não para ser. Por isso, – esta mensagem é para vocês, legião de indivíduos que elevam a herói todo o “coxo” pela circunstância de cruzar o vosso horizonte visual -, entenda-se que a melhor forma de respeitar os cidadãos com deficiência é reconhecer que muitos deles são medianos, vazios de sentimentos nobres e perfeitos energúmenos.

 

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