Desporto

“O PORTO É UMA NAÇÃO”

Por José Luís
Por José Luís

O Futebol Clube do Porto, originalmente fundado em 1893, mas cuja vida regular se inicia no ano de 1906, foi desde os primórdios um clube catalisador de uma identidade local com uma adesão social muito poderosa. Aglutina afectivamente a cidade e a região a que pertence, sendo um dos mais importantes baluartes dessa identidade “carimbada” por uma auto-imagem sustentada em representações sociais, que apregoa a discriminação e a injustiça de que se sente vítima, instigando uma situação de confrontação de natureza regionalista. O FCP legitima e enquadra este comportamento, socorrendo-se do passado e da história da cidade que defende, segunda metrópole do país, secundarizada quando confrontada com a capital.

A instituição coadjuvada pela sua massa adepta entrecruza a paixão desportiva e a identidade local, transformando o jogo e a equipa de futebol numa ocasião privilegiada para vincar os valores colectivos que caracterizam a comunidade. São portanto os elementos definidores que singularizam a cultura deste clube que procurarei categorizar. Este texto visa descortinar a consanguinidade cidade/clube, homogeneizadora da identidade (portuense/portista).

É usual a referência nos meios jornalísticos ligados ao futebol a um demarcado estilo de jogo “à Porto”. Uma forma de comportamento em campo, caracterizada pela organização rigorosa, disciplinadora férrea, onde a secundarização do espectáculo em função do resultado é característica intrínseca. Reconhecendo-se os habitantes do Porto nesta forma de ser e estar, que faz parte de uma representação social mais vasta, ligada à autovisão dos habitantes da cidade como trabalhadores, leais, esforçados e sérios. Transcrevo a este propósito o velho dito popular que afirma: “Em Lisboa as pessoas divertem-se, em Coimbra estudam, em Braga rezam e no Porto trabalham”.

O trabalho árduo, a disciplina e a organização que caracterizam e idealmente singularizam o estilo de jogo da equipa estão ligados a este culto do trabalho e esforço portuense, bem como à maneira como os seus adeptos vivem o quotidiano da sua instituição, sendo encarados os resultados da mesma de uma forma transcendental. A vitória não tem “preço”, é crucial!

A forma de comemoração dos triunfos do clube na cidade invicta é extremamente significativa e original. Uma autêntica romaria popular que envolve e abrange toda a cidade do Porto é reveladora da identificação umbilical entre clube e cidade. A festa e o júbilo com as vitórias e a incessante insistência numa maior abrangência da sua importância, extensão e significado, integram um processo de autovalorização dessa identidade local, visando a afirmação da sua superioridade. O facto de na essência desta forma de celebração estar uma tradição da cidade, elemento preponderante da sua cultura singular, ou seja, a festa popular em plena metrópole (noite de S. João), enquadra-se no carácter regional da identificação colectiva com o clube de futebol. Estas celebrações possuem também elementos, traços, rituais, onde a ironia e o sarcasmo transbordam na direcção dos rivais “abatidos”, visando assim a humilhação dos mesmos. A utilização do “elemento carnavalesco”, caindo actualmente um pouco em desuso, assumia para os adeptos do FC Porto características próprias, como era a encenação do “enterro” do adversário, na forma de uma procissão de onze burros vestidos com camisolas do Benfica ou do Sporting.

Entre os adeptos do Porto existe uma paixão exacerbada pelos jogadores que se entregam incondicionalmente ao jogo, factor indispensável para serem considerados como os defensores da honra do clube. Os atletas formados nas suas escolas são considerados os portadores do estilo da instituição, sendo por isso, uma extensão da sua natureza. Jogadores como Hernâni, Fernando Gomes, João Pinto, Vítor Baía e Jorge Costa, reflectem o sentimento que o adepto atribuiu ao jogo e ao clube.

A história do Futebol Clube do Porto foi marcada por períodos de sucesso, alternando com ciclos infrutíferos em termos de resultados desportivos. A conquista dos mais importantes títulos do futebol europeu e mundial, em 1987 e 1988, materializou a chegada de um sucesso inédito e surpreendente, ter sido alcançado depois de anos recorrentemente marcados por derrotas, mais concretamente nas décadas de 60 e 70, frustrações essas que eram sentidas como injustas e provocadas por uma conjuntura de marginalização regional. O Futebol Clube do Porto “chama a si” a luta e a resistência perante as supostas injustiças de que a Cidade Invicta é vítima. Algumas das principais auto-representações da comunidade em que se insere reflectem-se no clube, que imana, através da sua circunscrição, uma atitude “belicista” que combate a macrocefalia do país. O futebol é talvez o mais importante instrumento dessa resistência descontente. Entre os portuenses, o terreno de jogo sempre foi vinculado à expressão do sentimento (mais vasto) de discriminação e injustiça relativamente à capital, de que sempre se sentiram vítimas. As prestações da equipa são sentidas e vividas como preponderantes para afirmar a natureza resiliente e servem também como veículo de oposição constante aos “inimigos” de Lisboa, a quem culpabilizam pela discriminação de que a região é alvo. Frases como o “Porto é uma nação” ou “O Porto deu o nome a Portugal”, surgem como baluartes de repulsa à velha máxima lusitana vincadamente expressa em Eça de Queiroz: “Portugal é Lisboa, e o resto é paisagem”. Este tipo de concepção sintetiza bem essa postura de superioridade. A partir destas visões tão díspares da realidade social compreendemos a propensão para a política de oposição aberta, conflituosa, guerreira, belicista, visando os clubes de Lisboa (“entidades inimigas”), esteios do diabolizado “poder da capital”

As vitórias portistas no futebol são elementos a somar ao vasto e contínuo processo de afirmação e autovalorização da comunidade, em contraposição às identidades a que esta se opõe. Foram desta forma vividas as vitórias nos anos 20 e 30, bem como depois seriam celebrados os triunfos recorrentes no final do século XX, que incluem a afirmação internacional a partir de 1987, o “penta” dos anos 90 e as vitórias nacionais e internacionais no início do século XXI.É importante salientar que durante vastos períodos, de 1940 a 1956 e de 1959 a 1978, o FCP foi um clube recorrentemente derrotado. A interpretação atribuída a esses insucessos é inabalavelmente considerada como a injustificada discriminação regionalista, consubstanciada com decisões prejudiciais dos árbitros e consoante adulteração e manipulação de resultados por parte dos rivais.

Esta resistência perante Lisboa, contra o seu poder no futebol e hegemonia económica e social, é personificada por Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto há 31 anos, e também pelo antigo treinador, já desaparecido, José Maria Pedroto. Estes dois homens são os maiores símbolos humanos do clube, tendo conseguido inverter a tendência de derrotas e transformando esta instituição numa organização vitoriosa e respeitada internacionalmente.

A mutação mórfica de “andrades” (designação depreciativa) em “dragões” (simbologia de força) acarreta consigo uma representação mística que, coadjuvada com uma transformação “terrena”, organizativa, veio proporcionar a hegemonia no panorama nacional.

A identidade do FCP é enformada por uma representação mítico-empírica da cidade que representa. Da confluência identitária brota uma natureza siamesa.

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