Desporto

“AS MULHERES ASSOCIAM O AUTOMOBILISMO A UMA PARTE MUITO MASCULINA DE SI PRÓPRIAS”

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, o JUP esteve à conversa com Lígia Albuquerque, atual colaboradora da Lusitânia – Companhia de Seguros e piloto de automóveis. Durante uma pausa no trabalho, contou ao jornal sobre o que era ser mulher num desporto de homens. Com apenas 22 anos, estreou-se no automobilismo, durante uma prova de velocidade, mas confessou que o Todo-o-Terreno é para si a “disciplina rainha”. A piloto falou ainda da sua participação numa Baja Itália, assim como as várias no Rali de Portugal.

Como surgiu a paixão pelo desporto automóvel?

Tem uma explicação muito engraçada e tem a ver com a vertente familiar. Eu sou a mais nova de três irmãos e vim quase por engano. E eles sempre gostaram muito de automóveis, inclusive o meu pai. Como tal, desde muito novinha que ia ver as corridas a Vila do Conde, a Vila Real… O Rali de Portugal era obrigatório e era a única razão pela qual o meu pai nos deixava faltar às aulas, um dia e meio, quando o Rali de Portugal, de facto, era de norte a sul. Então comecei-me a habituar com o ambiente dos automóveis, mas nunca tive nenhuma vontade especial de correr. Até que um dia surgiu um cupão no jornal que dizia que nós, mulheres, podíamos concorrer para um campeonato nacional pago por uma entidade que, na altura, era a Real Vinícola. Os meus irmãos disseram uma frase emblemática: Não és mulher, nem és nada! E então eu preenchi o cupão e tudo aconteceu. Depois só parou passado 20 anos.

Este desporto é acessível a nível monetário?

Não, é muito complicado. Se bem que reconheço que neste momento é bem mais difícil do que antigamente. Antes, nós lutávamos por patrocínios e conseguíamos alguns. Aliás, esta situação do cupão era uma companhia, a Real Vinícola, que procurava patrocinar uma senhora no automobilismo. Hoje em dia, por mais que procures em todos os jornais à face da terra, não aparece… Pelo menos em Portugal não aparece! Portanto, cada vez mais os patrocínios são quase canalizados para outros eventos. Tem que haver muitas envolvências profissionais para que eles surjam.

Tendo uma profissão, o automobilismo passou para segundo plano ou nunca foi primeira opção?

Não, nunca foi primeira opção. Isto surgiu como uma brincadeira. Eu comecei a trabalhar muito cedo, ia fazer 17 anos, numa companhia de seguros. Fiz um trajeto sempre a trabalhar e a determinada altura, e estou a falar no ano de 2000/2001, quando eu estive numa equipa oficial, só aí é que surgiu a hipótese de, eventualmente, deixar tudo e rumar a terras mais longínquas para integrar uma equipa e fazer algumas provas da taça do mundo. Mas, sinceramente, foi algo que se resolveu naturalmente, porque eu queria um bocadinho mais que isso… Queria família e estava-me a custar deixar o meu trabalho, do qual também gosto. Portanto, no fundo, o automobilismo foi quase sempre um hobby.

Alguma corrida a marcou especialmente?

É complicado, porque tive a sorte de ter esses tais patrocínios e durante muitos anos correr. Guardo com muita felicidade as participações no Rali de Portugal, que de facto era um mundo. Privávamos com pilotos que toda a vida tínhamos visto na televisão e  que passavam rapidamente por nós quando íamos às classificativas! Portanto, no Rali de Portugal, fiz um que me correu especialmente bem e que me deu um gozo imenso. Depois, no Todo-o-Terreno, que é a disciplina rainha para mim, participei em algumas corridas muito importantes, fiz também uma Baja Itália, que também foi uma marca na minha carreira. Houve outras provas que me marcaram e acho que o Todo-o-Terreno, sinceramente, teve para mim uma importância vital. Fiz um 4º lugar à geral na altura em que as marcas estavam todas presentes e, acima de tudo, corri para uma classificação geral e não para uma classificação de senhoras.

O apoio do público é importante?

Importantíssimo! Quando dei por mim, até porque estava um bocadinho alheada, já que eu trabalhava toda a semana e as minhas férias eram gastas em quintas e sextas feiras, que era a altura em que nós tínhamos de ir para as verificações, tinha uma série de pessoas que me começaram a acompanhar e que me apareciam sistematicamente nas corridas, com quem eu fiz algumas amizades. É muito engraçado olhar para trás! Eu guardei algumas coisas que me deram, como fotografias, e é muito giro perceber que as pessoas gostavam e apoiavam… Ainda no outro dia, uma miúda de Portalegre, quando percebeu que eu era aquela que ela via correr, escreveu-me e eu tenho guardado esse email onde ela dizia que nunca pensou na vida dela estar tão próxima da piloto que tanto admirou. Na altura, fiquei muito sensibilizada e disse-lhe que tinha conseguido fazer com que as lágrimas me viessem aos olhos! São momentos muito marcantes e nós percebemos que, de facto, há muita gente à nossa volta que gosta do nosso trabalho. Eu acho que isso é fantástico e eu tive essa sorte. Além da minha família! Uma vez, no Rali de Portugal, numa classificativa de Arganil, havia uns sacos plásticos aos saltos quando eu passei e eram os meus irmãos e os seus amigos que estavam à espera que eu passasse, às 6 da manhã, numa fase da competição em que havia os pilotos de fábrica à frente e depois vínhamos nós atrás. Estava muito frio e muita chuva, mas eles lá estavam à nossa espera!

 Como é ser uma mulher neste desporto?

É complicado! Nós temos que ter uma gestão muito evidente daquilo que é a nossa condição e eu sempre lutei por lugares à geral, não concorrendo para a taça das senhoras. Aliás, o homem que normalmente se classificava a seguir a mim era apelidado “o segundo das senhoras”, portanto era muito complicado. Logicamente que, com 22 anos, gerir “o namorado da [piloto]” é muito difícil, digamos que foi um longo caminho. Eu casei muito tarde, com 35 anos, porque tive de fazer uma escolha muito consciente e de muito bom senso para que não houvesse colagens e para que pudesse arredar de mim tudo aquilo que não interessava, porque o mundo de homens é um mundo complicado.

Alguma vez se sentiu discriminada?

Sim, algumas vezes, nomeadamente de alguns pilotos mais velhos, que por vezes não aceitavam da melhor maneira o facto de nós ficarmos à frente e de estarmos imiscuídas numa classificação geral. Houve um piloto, na altura, que chegou a ser campeão nacional de Todo-o-Terreno, que me disse que não ia para casa com um lugar atrás de mim, que preferia não entrar em casa. Mas foram poucos. Tive também o caso de alguns grandes pilotos como o Adruzilo Lopes, que foi algumas vezes campeão nacional de ralis num troféu Nissan Navara, que me disse que se ele não ganhasse, gostaria que fosse eu a vencedora, porque achava que era isso que eu merecia. Portanto, à parte de todas as coisas más que surgiram e de sentir um bocadinho essa discriminação, também tive o apoio de alguns grandes pilotos que provaram ser grandes homens, porque eu acho que é aí que se vê a natureza das pessoas.

No que diz respeito à participação feminina, as mulheres apoiam-se?

As mulheres umas com as outras não são assim “o melhor pratinho”, as coisas são um bocadinho complicadas. De qualquer maneira, eu tive a sorte de correr com algumas senhoras que, efetivamente, se apoiavam umas às outras. Logicamente, quando estamos em competição e temos o capacete na cabeça, ele por vezes fala mais alto do que o “Tico e o Teco”! Portanto, de vez em quando, fazemos ali algumas coisas no sentido de “eu vou ficar à frente dela”. Mas isso é saudável, tem a ver com uma classificação e com o que nós estamos ali a fazer. Agora, efetivamente, na Praia da Vitória, quando foi o Ladies, achei que o ambiente era muito bom e que conseguimos, apesar de serem muitas mulheres, ter um ambiente muito engraçado no qual as pessoas se apoiaram umas às outras. Uma série delas eu nem conhecia, mas trocámos telefones e hoje continuamos a falar e juntamo-nos para ir ver um rali. Portanto, depende sempre da mulher, depende sempre da nossa formação e da nossa visão, se é o desporto que interessa ou se é eu ser melhor do que a outra.

Tem alguma mulher piloto de referência que sirva de inspiração?

Eu vi, quando era miúda, uma senhora chamada Michèle Mouton, que depois acabei por conhecer, porque estive ligada à federação de automobilismo e tive o prazer de fazer parte de uma comissão das senhoras no automobilismo, através da FPAK. Guardei com muito orgulho algumas coisas que fomos trocando, algumas mensagens e alguns emails. Era muito bom, eu miúda lá na Senhora da Graça, a vê-la a passar com o Audi. Aquilo parecia um trator! Mas era uma mulher e ganhou esse Rali de Portugal! Isso para mim foi muito importante e marcante, até porque ela andava muito bem, apesar de tudo aquilo que se dizia, que era o carro… Não! A senhora andava muito bem e tinha um grande espírito! Depois, mais tarde, no Todo-o-Terreno, a Jutta Kleinschmidt, que também é uma mulher com uma valentia enorme e que perfilou em algumas equipas oficiais e chegou a ganhar no Dakar. Isso também me marcou e, aliás, ela esteve cá numa Baja em 2000 e tirámos uma foto que eu guardo com algum carinho, assim como uma miniatura do seu carro autografada que ela me ofereceu. Depois, mais tarde, surgiu uma senhora chamada Andrea Mayer , uma alemã, com a qual eu tive o prazer de correr na Baja Itália e tive também o prazer de lhe ganhar duas classificativas!

Sei que participou, pelo menos uma vez, no Ladies Rally Trophy. Considera que provas como esta são importantes para promover a participação feminina?

Eu acho que foi muito giro, foi uma iniciativa fantástica, só foi pena não ter sido tão bem divulgada quanto isso. A prova na Praia da Vitória, que foi a primeira, teve imensa graça. Eu nunca imaginei que houvesse tantas meninas a conduzirem tão bem! Foi duro e difícil, saí de lá com um segundo lugar, muito suado, com muito esforço! O meu carro também não era grande coisa, mas eu pensei que com a minha experiência pudesse resolver tudo, mas houve uma que ainda resolveu melhor que eu, uma rapariga da Madeira, a Isabel Ramos, que faz ralis há muito tempo e que tem um belíssimo carro e que, de facto, me ganhou. Mas achei a iniciativa muito gira, porque as mulheres surgem com um bocadinho mais de naturalidade, até porque é uma corrida de senhoras. Tivemos um ambiente fantástico, maravilhoso! Depois, quando os ralis vieram para o continente, perdeu-se um bocadinho o brilho, porque as entidades federativas não deram o devido destaque e os jornais inicialmente acharam muita piada, mas depois deixaram passar. Mas tenho pena, acho que é uma iniciativa ótima!

 O que falta fazer no desporto automóvel?

O desporto automóvel está um bocadinho moribundo. O Todo-o-Terreno deixou de ter grandes nomes, passou a ter muitos nomes de alguém que tem dinheiro para correr. A verdade é essa, quem tem dinheiro é quem pode correr. A dinamização é muito pouca e aparece muito pouco em termos de imagem. Os patrocinadores valorizam muito a imagem. Os programas passam às 3 horas e 5 horas da manhã e em canais pagos e eu acho que falta tudo no desporto automóvel. Falta alimentar as classes para que os carros não sejam só os carros que vão ganhar. Quando nós olhamos lá para fora, verificamos que a promoção é feita à classe e, portanto, há sempre muitas imagens e há sempre muita competição.

 E em termos de participação feminina?

O desporto feminino está outra vez muito carente de senhoras. Eu corri numa fase em que éramos uma série delas no Todo-o-Terreno, eram cerca de seis equipas femininas. Havia uma luta muito interessante, da qual eu sempre me tentei afastar, mas era inequívoco que tinha de me misturar e que tinha de lutar também pela minha vitória. Mas no desporto feminino está tudo por fazer, até porque eu acho que as mulheres associam isto a uma parte muito masculina de si próprias e acho que não tem nada a ver. Vejamos o caso da Diana Pereira. Ela foi modelo durante anos, é mulher do Tiago Monteiro, que é um piloto de fama reconhecida, e vai fazer uma série de corridas com a Inês Ponte nos UTV, que são umas caranguejolas parecidas com algo entre uma moto e um carro. No entanto, é feminina que chegue, é giríssima e é uma mulher que toda a gente aprecia. Portanto,

“Temos de nos desinibir e quando gostamos de uma coisa, temos de correr atrás. Acho que é isso que falta. Vontade!”

 Quando foi a sua última corrida?

Fez em dezembro um ano, exatamente num UTV, num desses aranhiços que eu adorei, achei um máximo! Fiz equipa com uma senhora francesa, a Dorothée Ferreira, casada com um lusodescendente. Tivemos uma corrida de seis horas, fizemos metade cada uma e foi muito engraçado, exigente a nível físico, mas de um prazer absoluto! É uma pista que eu conheço, que é Fronteira, onde se passam as vinte e quatro horas e foi divertidíssimo! Agora vamos ver o que o futuro nos reserva…

Tenciona voltar?

Eu tenho vontade de ir fazer outra vez Fronteira no próximo ano, em dezembro, exatamente num carro desses, num “aranhiço” desses. É uma coisa diferente, mas não deixa de ser Todo-o-Terreno, não deixa de ser condução, não deixa de ser improviso, não deixa de ser competição, e é disso que eu preciso!