Desporto

PERGUNTA PROIBIDA: “OS CESTOS TÊM A MESMA ALTURA?”

Pedro BártoloNão há acendalha mais inflamável para me induzir um estado de espírito (já de si) irascível  do que questionarem-me se no basquetebol em cadeira de rodas os cestos estão a 3,05 metros, como no homólogo convencional. Desvendo desde já o mistério: estão. E aqui habita uma boa parte do sucesso desta modalidade, a rainha do desporto paralímpico, que hoje me proponho a dissecar.

Ao contrário de outros desportos adaptados, que parecem retirar a espetacularidade inerente da versão primeva do jogo sem um acréscimo correspondente, o basquetebol em cadeira de rodas (BCR)  preserva o enlevo, diferindo muito pouco do basquetebol a pé ao nível regulamentar.  Excetuam-se apenas o drible, que pode ser interrompido e retomado a fim de facilitar a mobilidade do atleta, e a consideração do triplo e do lance livre, nos quais se determina que o jogador pisa a linha apenas quando a roda “grande” entra em contacto com aquela.

Citando o astro do BCR mundial, Matt Scott, no spot promocional da candidatura de Chicago aos Jogos Olímpicos de 2016, “It’s the same floor, the same rim, the same ball”. E ainda sobram razões de encanto à modalidade introduzida nos EUA, no Birmingham Veterans Administration Hospital, Califórnia, na década de 40. O ritmo vertiginoso recrudesce sobre rodas, assim como a dureza – palpável ao olfacto após os choques violentos entre os aros das cadeiras, num icónico cheiro a queimado – e a explanação técnico-táctica do jogo não passa de um bosquejo do que acontece no mundo dos caminhantes.

Isto por várias razões, mas essencialmente devido ao espaço ocupado pelas cadeiras, que transfiguram o trabalho de bloqueio, aqui plenipotenciário, e ao sistema de classificação médico-funcional vigente, que permite a participação de atletas com vários tipos de deficiência motora, atribuindo-se-lhes uma pontuação entre 1 e 4,5 (tanto mais grave quanto mais baixa). Em campo, salvo algumas cláusulas, a equipa pode apresentar um 5 inicial que totalize no máximo 14,5 pontos. O BCR é fórmula vencedora também neste capítulo, na harmonização de atletas com patologias e – como tal – expectativas muito distintas, gabando-se de gerar uma simbiose única entre os que usufruem de baixa e alta funcionalidade.

Sem querer naufragar naquele chavão odioso que alude ao poder da imagem, recomendo que vejam a final dos Jogos Paralímpicos de 2012 entre Austrália e Canadá, pela qualidade que transborda, e porque lá mora, na seleção Canuck, um tal de Patrick Anderson, o intérprete mais sublime na arte de jogar basquetebol em cadeira de rodas. Não há melhor cartão de visita.

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