Artigo de Opinião Desporto

SPORT LISBOA E BENFICA: UM JUSTO CAMPEÃO

David Guimarães
David Guimarães

O Sport Lisboa e Benfica arrecadou o título de campeão nacional da temporada 2013/2014 com justiça inquestionável. Apesar disso, o início de temporada foi muito conturbado. A falta de troféus da época anterior deixava “feridas por sarar”, com a continuidade de Cardozo discutida até ao fecho de mercado de transferências (último dia de Agosto), um presidente fragilizado pela defesa “a solo” que fez da continuidade de Jorge Jesus, deixando o treinador com um contrato monetariamente mais robusto, mas num enquadramento menos legítimo na relação de poder com os jogadores. Este contexto proporcionou o protelamento da depressão da época passada para a actual, com exibições no primeiro terço de temporada muito sofríveis, que levaram a que, no final da oitava jornada, o Benfica tivesse um atraso de cinco pontos relativamente ao tricampeão F.C. do Porto.

O jogo com o FCP, na última jornada da primeira volta, foi o ponto de viragem na época “encarnada”. Uma vitória que marca a “fuga” do Benfica para a liderança, e inversamente, o “descolamento” do FCP dos lugares cimeiros, acentuado com o decorrer da época.

Na boca de alguns dirigentes benfiquistas este era o “melhor plantel dos últimos 30 anos” do clube da Luz. Embora estas declarações sejam de um “populismo” atroz, é inquestionável que este clube constituiu um grupo muito bem apetrechado, qualitativa e quantitativamente. A manutenção das “pedras” basilares da precedente época e um acrescento de jogadores internacionais A de imensa qualidade possibilitavam, teoricamente, uma melhoria relativamente ao ano anterior.

Jorge Jesus construiu uma equipa extremamente compacta, com uma predisposição para o sacrifício e entreajuda entre sectores, funcionando em bloco entre os 11 jogadores. Os 4 avançados participam proactivamente em todos os momentos de jogo. Em organização ofensiva, denotam enorme mobilidade. Lima e Rodrigo alternam movimentos em largura, fugindo para a zona dos extremos, permitindo a Gaitán e Markovic incursões em profundidade em zonas interiores, irrompendo pelo sector defensivo contrário, num arrastamento de marcações constantes com e sem bola. A esta mecanização de movimentações em organização ofensiva junta-se a capacidade de trabalho e o enorme espírito de sacrifício deste quarteto. Estes avançados pressionam muito alto a saída de bola adversária, não renegando um constante desgaste físico no processo defensivo. Destaco neste aspecto a evolução de Markovic, que vinha catalogado como um 10 “rebelde”, com fundamentos de jogo rudimentares, apenas à espera da bola no pé para “explodir” em velocidade. Agora, vemo-lo muitas vezes no flanco a proteger as costas dos laterais. Ressalvo também a boa época de Rodrigo, desta vez sem lesões, denotando uma excelente condição física, demonstrando ser um avançado completo, ocupando a totalidade dos espaços ofensivos. Aparece com frieza a finalizar, executando movimentos interiores (de fora para dentro), fugindo também para uma linha para permitir diagonais nas suas costas (deslocações de dentro para fora).

No meio campo convém também ressalvar o papel de Fejsa, um médio defensivo mais posicional, equilibrador, que, quando em posse, lateraliza o jogo. Este jogador veio substituir, a meio da época, com muita eficácia, o titular indiscutível Matic, um jogador “box to box”, muito mais que um recuperador de bolas, portador de verticalidade no passe, que proporcionava inúmeras incursões até zonas de finalização, onde, posteriormente, aplicava o seu potente remate. Apesar de Matic ser inegavelmente melhor jogador e muito mais completo, Jorge Jesus sempre preferiu um “pivot” mais fixo, um pouco à semelhança de Javi Garcia, jogador equilibrador da equipa campeã de 2009/2010. Destaco ainda Enzo Pérez, um jogador crucial no meio campo, incumbido da ligação entre sectores, tem facilidade em transportar a bola até zonas adiantadas do terreno, aparecendo com frequência junto da área para rematar ou assistir. Na transição defensiva, é também muito rápido em pressão, na tentativa de recuperação do esférico em zonas adiantadas.

No quarteto defensivo, a segurança foi apanágio durante toda a época. Com uma pressão muito alta por parte dos avançados e a cobertura de Fejsa, os centrais Garay e Luizão ficaram muito menos expostos aos contra-ataques adversários. Nas laterais, a qualidade ofensiva de Maxi Pereira alternava com a estabilidade posicional de Sílvio. O problema do lateral esquerdo foi definitivamente resolvido com Siqueira, seguro a defender e com muita facilidade em apoiar o ataque. Na baliza, o guarda-redes Oblak substituiu o “mal-amado” Artur. Julgo-o mais seguro e “elástico” que o brasileiro, mas é justo dizer que beneficiou da mudança de estilo do Benfica, que abandonou a vertigem ofensiva, optando por um controlo mais pragmático das partidas, o que originou menos ameaças por parte das equipas adversárias.

Para além do habitual 4x2x4, Jorge Jesus utiliza como esquema alternativo o 4x2x3x1, com Cardozo como ponta de lança, Sálvio e Gaitán como extremos e Lima como segundo avançado. Este sistema enquadra dois jogadores preponderantes em épocas anteriores, mas que, na presente temporada, não tiveram a utilização habitual. Sálvio (por lesão) e Cardozo (motivos disciplinares) foram utilizados apenas esporadicamente. O paraguaio permite à equipa um jogo mais directo, potência e precisão de remate e perigosidade no jogo aéreo. Sálvio, impossibilitado de competir durante 6 meses, continua a ser o extremo “encarnado” com melhor qualidade de remate e aquele que mais frequentemente aparece na “cara” dos guarda-redes para finalizar.

A justiça deste título é incontestável. Penso porém que não houve um salto qualitativo no Benfica relativamente à época anterior, como vem sendo apregoado em determinada imprensa, que prefere hiperbolizar por questões financeiras em vez de analisar idoneamente o fenómeno desportivo. Na minha opinião, o Benfica está diferente, mais comedido no discurso e na abordagem aos jogos, subordinando o resultado ao elogiadíssimo “futebol espectáculo” ou “rolo compressor”, catalogações que marcaram as anteriores épocas, inócuas no que a títulos diz respeito. Para essa mudança, a “derrocada” na “recta final” da época passada, com a perda de três títulos, foi crucial. O que fez a “balança pender” para o lado dos “encarnados”, este ano, foi a quebra do eterno rival Futebol Clube do Porto. Mais do que de uma potencialização intrínseca, o Benfica beneficiou de uma perda de qualidade muito exponencial por parte do outro candidato ao título. Em termos pontuais, o Benfica pode fazer ainda 79 pontos, tendo acabado o campeonato passado com 77 pontos, menos 1 do que o Porto (78), o que denota uma performance semelhante. Os cronistas que pediam a “cabeça” do treinador Jesus e anunciavam um fim de ciclo são os mesmos que actualmente prognosticam um “reinado triunfal” de muitos anos. É pena que esses articulistas, com tantos anos de comentário futebolístico, apenas reconheçam competência quando aparecem os troféus. O Benfica foi igualmente competente nestas duas últimas épocas, mas, nesta temporada, apenas existiu uma única equipa com arcaboiço de campeã, quando na última época o título “assentava” bem a qualquer uma das duas instituições.