JUP Retrospetiva

JUP Retrospetiva 2020: Séries

Aliadas do tempo e sofás, as séries adquiriram uma nova relevância nos confinamentos caseiros pelos quais passámos ao longo deste ano.

Com uma escolha vasta e temas variados, as séries são um escape da nossa realidade rotinal que nos permitem desfrutar de uma história de forma repartida. Contrariamente aos filmes, as séries não sofreram tanto com os entraves provocados pela pandemia, pelo que 2020 foi um ano cheio de novas temporadas e minisséries.

Mrs. America

Mrs. America é uma série sobre a mulher americana, em todas as suas facetas e com todas as suas faces. Centrando-se na tentativa de revisão constitucional levada ao cabo por um grupo de feministas, liderado por Gloria Steinem (Rose Byrne), nos anos 70, e na consequente rivalidade com a líder conservadora Phyllis Schlafly (Cate Blanchett).

Para além de ser habilmente realizado, e contar com um elenco divinal (salienta-se a brilhante interpretação de Uzo Aduba como Shirley Chisholm), a série aprofunda o papel de nove mulheres diferentes em cada um dos seus episódios, para nos dar a conhecer uma perspetiva do papel da mulher na sociedade americana.

Ironicamente, todas as personagens procuram o mesmo, encontrar estabilidade entre a sua conturbada vida emocional e a sua vida política, enquanto tentam singrar num mundo predominante masculino. Contudo, só um lado vencerá, o conservadorismo do passado ou o feminismo do futuro, e a sua vitória ditará não só o destino das personagens, mas também o da geração que as seguirá.

Imagem: Mrs. America

You (Season 2)

A segunda temporada de You saiu, ainda em na última semana de 2019, mas tarde demais para as listas de “Melhores do Ano” e é boa demais para não ter presença em lista nenhuma.

Depois de uma primeira temporada que nos deixou a sentir mal por, a certo ponto, estarmos a torcer pelo protagonista Joe – um stalker psicopata que distorce os limites da palavra “amor” e a transforma numa desculpa para cometer atrocidades indescritíveis – chega-nos uma segunda temporada que pega em tudo o que fez de You um êxito ímpar, e eleva-o vários níveis.

As reviravoltas são mais inesperadas, o gore é mais gory, a história é muito mais rica e as personagens são bastante mais profundas e multidimensionais (Love é um interesse amoroso muito mais interessante que Beck). Contra todas as expectativas de quem pensava que não seria fácil pegar na fórmula de You e conseguir dar-lhe uma continuação sem a tornar “forçada” ou repetitiva, à segunda volta, You volta a ser um sucesso.

E, ao final de contas, ainda que o nosso estômago se continue a retorcer com isso, damos por nós a gostar ainda mais de Joe sem que ele tenha mudado assim tanto.

Uma história de amor que é, sobretudo, sobre os limites entre o amor e a obsessão, You deixa-nos num exercício de reflexão sobre o que é efetivamente amar. E esse é um dos papéis fundamentais da arte.

Imagem: You, temporada 2

Dark (Season 3)

As expectativas estavam impossivelmente altas para a terceira temporada de Dark. Depois de duas temporadas em que todos os clichés da ficção científica e das viagens do tempo haviam sido jogados porta fora para dar lugar a uma história com uma profundidade ímpar, ninguém sabia exatamente o que esperar da terceira temporada de Dark que viria a ser, definitivamente, o fechar de um ciclo.

Sem ser perfeita, a temporada final da série consegue a proeza de erradicar todas as dúvidas, de tapar todos os buracos, e não deixar pontas soltas. Com uma mestria inacreditável, a terceira temporada de Dark dá-nos um encerramento irrepreensível, respondendo a todas as perguntas, mesmo que nós demoremos um bocado a lá chegar.

E, ao longo destes últimos oito episódios, sempre que parece que o trama vai longe demais, acaba sempre por ir até ao sítio certo.

Com uma complexidade inédita, mas onde nada acontece “só porque sim”, Dark nunca nos deixa no escuro. E num ano onde tudo foi, particularmente, mais escuro, o final do ciclo da série surge como um escape para um universo que, sem que saibamos bem como, pode totalmente ser o nosso.

Resta-nos rever tudo outra vez, e outra, e outra, e outra…

Imagem: Dark, temporada 3

The Queen’s Gambit

The Queen’s Gambit é uma minissérie da Netflix que foi lançada em outubro deste ano. Baseada no romance de Walter Trevis de igual nome, a série trouxe o xadrez de novo para cima da mesa.

Um jogo de tabuleiro. Moda dos anos 50. Uma mulher num mundo só de homens. The Queen’s  Gambit tem todo um flair que pouco combina com o período marcado pela pandemia, onde as tecnologias e os pijamas se revelaram as nossas escolhas prediletas. Porém, foi exatamente durante o confinamento em que houve um aumento dos fãs. E não só da série mas também do próprio jogo sobre o qual os sete episódios giram. Claramente um jogo de tática e rigorosidade, mas onde a emoção também tem o seu papel.

Beth Harmon, uma órfã prodígio de xadrez que luta pela sua posição no mundo deste desporto, é a prova de que a humanidade pode ainda gostar do improvável e deixar-se apaixonar pelo charme, inteligência e entusiasmo de um jogo de tabuleiro.

Imagem: The Queen’s Gambit

I Am Not Okay With This

I Am Not Okay With This é só mais um absoluto sucesso da Netflix. Seguindo o mesmo estilo de Sex Education, Stranger Things e The End of the F***ing World, a série agarra jovens e adultos com saudades de ser jovens e não nos deixa ir embora enquanto não devorarmos os sete episódios.

O elemento chave é capaz de ser mesmo esse: brevidade. Tudo acontece tão rápido que, inevitavelmente, sentimos a adrenalina de quem vive a história e identificamo-nos com as personagens.

De facto, o plot é simples e pouco inovador: numa pequena cidade no interior dos Estados Unidos, uma jovem adolescente – de nome Syd – lida com as peculiaridades do secundário, os dramas familiares, as amizades inesperadas e as paixões não correspondidas. Como se tudo isto não fosse já um caos: descobre que tem poderes sobrenaturais.

O trunfo desta série, que podia ser só mais uma, é o detalhe técnico. Planos divinamente bonitos e bem pensados, silêncios finalmente reais, e uma banda sonora que é tão heterogénea quanto deliciosa. A história em quadrinhos de Charles Forsman ganhou vida, e veio amadurecer-nos a par e passo com Syd.

Imagem: I Am Not Okay With This

Normal People

No início, Normal People (BBC Three e Hulu) parece só mais uma série vazia, passada nos corredores de uma escola secundária e baseada nos dramas e conflitos de adolescentes. Só mais uma história de amor socialmente impossível entre o rapaz popular que joga na equipa de futebol e a aluna inteligente antissocial e desprezada. Mas percebemos rapidamente que é bem mais profundo e sério que isso.

Baseado no bestseller de 2018 com o mesmo nome, da escritora irlandesa Salley Rooney, fãs e críticos elogiam a fieldade da adaptação televisiva ao romance e muitos dizem-na ainda melhor e mais intensa. Esta é uma narrativa realista e sincera do romance e quotidiano dos dois jovens irlandeses, naturais de Sligo – Marianne (Daysie Edgar-Jones) e Connell (Paul Mescal) – ao longo dos seus anos como alunos do ensino secundário e universitário, com todos os seus encontros e desencontros.

Normal People é uma série onde os temas abordados (amor e intimidade jovem, sexo,  ansiedade social, abuso, morte e desigualdades) estão num outro nível de crueza, seriedade e intensidade. Um nível a que já não estamos habituados.

No ecrã, deparamo-nos com uma história de amadurecimento, com a qual muitos de nós se podem identificar. Também ali existem falhas de comunicação entre as personagens, que resultam no que resultariam na vida real. Também ali o embaraço é o embaraço que viveríamos se a história fosse a nossa. Também ali as inseguranças são verdadeiras. O trauma das personagens é real e desencadeia acontecimentos reais. A dor e felicidade (falsa ou verdadeira) pode facilmente ser a nossa. As cenas de sexo são revolucionarias (mesmo que “normais”) precisamente por serem interrompidas e apreciadas como no decorrer natural de uma relação sexual real. E não são apenas cenas de sexo, mas de diálogo.

De Salley Rooney ainda não se sabe de outro romance que dê seguimento à história de Marianne e Connell. Mas existe essa hipótese, e o seguimento pode desenrolar-se na televisão com um segunda temporada.Não sabemos… mas, fará sentido?

Imagem: Normal People