JUP Retrospetiva

JUP Retrospetiva 2020: Literatura

Abrir um livro é sempre pedir um passe para mudar de vida. Mas ao contrário do que acontece no cinema, no teatro, ou na música, raramente lemos os passes quentinhos, acabados de sair da impressora.

Os livros demoram a chegar a nós e, alguns, demoram a convencer-nos a apostar deles. Mas eles chegam. Muitos lemos já fora de tempo de os atirar para uma retrospetiva do ano mas há uns raros que chegam, e chegam a tempo. E sem descurar a intemporalidade dos clássicos e a magia dos livros que saem todos os anos, 2020 teve um top 3 impossível de não querer ir ler para a janela.

“Violet Bent Backwards Over the Grass”, Lana del Rey

Em setembro de 2020, Lana del Rey presenteou o mundo com um novo projeto de poesia, com a publicação da sua obra literária de estreia, “Violet Bent Backwards Over the Grass.

Com 30 poemas publicados através da via tradicional do livro físico (incluindo haikus!), 14 deles foram, também, lidos pela artista num álbum de palavra dita. Com músicas instrumentais da autoria de Jack Antonoff, Lana del Rey declama a sua poesia pintando as suas palavras com cores ainda mais vivas e sentidas, oferecendo uma oportunidade ao ouvinte de entrar de forma mais profunda para as considerações e pensamentos mais íntimos da artista.

Nesta obra, Lana expõe as suas ansiedades, tristezas, mas, também, pequenas alegrias. Tendo chegado num ano tão intenso e cansado, esta obra caiu na terra não como uma lufada de ar fresco, mas como um vórtice do mesmo. Como uma companhia de quarentena bastante necessária.

I was once in love with my life here

in that studio apartment with you

little yellow flowers on the tops of trees as our only view

out of the only window – big enough for me to see our future

through.

But it turned out I was the only one who could see it.

Stupid apartment complex. Terrible you.

“Dias e Dias”, Adília Lopes

Voltou Adília Lopes, em 2020, com mais uma coleção de poesia capaz de aquecer a alma a qualquer leitor.

“Dias e Dias” é a mais recente obra da poetisa em forma autobiográfica. Nela, Adília Lopes espelha as suas experiências no confinamento como uma mulher de idade e as memórias de uma vida. Discutivelmente, poderá ser um seguimento ou desfecho das últimas três obras que publicou e, que compunham uma série de poesia autobiográfica.

Contudo, a forma deste novo livro é, indubitavelmente, diferente. Lopes alimenta-nos, nesta coleção, com poemas de pequeníssimas dimensões, mas que quando o leitor dá por ela, a pouco e pouco lhe transbordam no coração. Esta é uma leitura imprescindível para anos difíceis como este.

Sou um mata-borrão. As coisas más e boas alastram em mim, ficam a alastrar. As pequenas coisas também. Não sou nada impermeável.

“As Telefones”, Djaimila Pereira de Almeida

Djaimila Pereira de Almeida dá-nos a conhecer uma história de amor entre uma mãe e uma filha, Filomena e Solange, separadas por um oceano, e ligadas pelo meio de comunicação típico da época da história. Sem redes sociais ou internet, o amor que as une encontra-se presente no final de cada chamada.

Com uma estrutura narrativa atípica, a novela apresenta-se como um diálogo entre duas personagens que não conhecemos, não nos são apresentadas. Apenas sabemos delas aquilo que falam entre si, sendo que tudo que fique por contar perde-se na imensidão que separa Portugal (onde reside a filha) e Angola (terra da sua mãe). Resta apenas a vontade de dois seres, ligados pelo sangue, tentarem estabelecer uma forte conexão emocional perante o obstáculo incontornável da distância.

“As Telefones” é um livro excecionalmente belo, que cimenta o lugar da autora como forma inovadora no panorama literário da língua portuguesa, mas também nos revela a densidade do maior maternal, que não se deixa abalar pelas condições adversas da vida, e que se mostra sempre terno e atencioso, mesmo que seja só por telefone.