Cultura

FÓRUM DO FUTURO: A FELICIDADE LIPOVETSKYANA

O penúltimo dia do Fórum do Futuro ficou marcado pela conversa animada com o filósofo Gilles Lipovetsky, que subiu ao palco do Grande Auditório Manoel de Oliveira, dia 7 de novembro, para nos falar dos desafios da felicidade na sociedade de hiperconsumo.
Fotografia: DR

O autor de “A Era do Vazio”, obra de referência para a filosofia contemporânea, fez-se acompanhar por Fátima Vieira, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A “especialista em utopias”, como foi apresentada, introduziu Lipovetsky enquanto pensador e escritor e confessou ter perguntado às colegas docentes de Filosofia “se Gilles Lipovetsky é mesmo um autor de referência”. “Sem sombra de dúvida” foi a resposta que mais ouviu.

A palavra foi então dada ao convidado e a maioria do público colocou os headphones que requisitou previamente: a palestra seria em francês, língua materna do filósofo, nascido em Millau. É possível que tenha sido a sessão do Fórum do Futuro, que termina hoje e que teve por tema a felicidade, em que mais se falou de infelicidade. Não fosse o filósofo o criador da “visão lipovetskiana do mundo”, uma visão que incide no isolamento do indivíduo, no narcisismo e no materialismo consumista.

Gilles Lipovetsky, bem disposto, começou por declarar o seu amor à cidade do Porto, que já visitou “várias vezes, cada uma melhor do que a anterior”. Quem não percebe francês, ouviu atentamente a tradução simultânea e, ao fundo, o falar entusiástico do convidado, que rapidamente começou por explorar o conceito da “felicidade paradoxal”.

Com uma crescente esperança média de vida, melhores habitações, transportes e comodidades, com mais liberdade sexual e social, 85% dos europeus assumem-se felizes ou muito felizes quando respondem a inquéritos. Mas nunca uma era viu tanta ansiedade, depressão e stress como esta em que vivemos. Nunca se registaram tantos suicídios nem nunca nos medicamos tanto. Afinal, somos felizes? Esta foi uma das questões mais colocadas na conferência. “Parece que nós somos sempre felizes quando pensamos nisso, não é? Sabemos que existem altas taxas de depressões medicadas, mas isso só acontece aos outros. Queremos acreditar que nunca é connosco”. A conversa foi cara a cara, entre Lipovetsky e um auditório lotado, e seguiram-se sempre temas pessoais e perguntas diretas sobre temas que interessam a todos.

“Temos de nos mentalizar que a felicidade eterna não existe. O felizes para sempre é uma falsa promessa.” O filósofo explicou também que não podemos ser sempre felizes porque a nossa felicidade depende sempre das relações com os outros, do trabalho, e que essas variáveis não são de todo fiáveis.

Sobre o trabalho, exalta que o desemprego pode ser tão devastador como um emprego que coloque “demasiada pressão para atingir objetivos” e afirma que são as empresas que têm o poder de mudar isso numa grande escala, porque são capazes de reorganizar a dinâmica dos mercados. O empregado tem de ser ouvido, têm de lhe perguntar “estás feliz? Porque é que não estás?”

O escritor ainda abordou a arte como metade do ciclo vicioso “criatividade-alegria” e o sentido da vida “a eterna questão”. Lipovetsky, sempre igual a si mesmo, atacou os mercados e desprezou o hiperconsumismo, já que o homem é muito mais do que um consumidor e que o maior objetivo dos tempos atuais é “oferecer meios para mobilizar afetos e paixões noutro ambiente que não nos supermercados”.

O filósofo encantou a plateia com os desencantos de uma felicidade que, afinal, não está nas nossas mãos e que “nos pode ser tirada a qualquer momen