Cultura

A GENIALIDADE DE FATHER JOHN MISTY, A REBELDIA DE ICEAGE E A FAMA DE TAME IMPALA

O segundo dia do Vodafone Paredes de Coura foi longo, mas ansiado. Com um alinhamento que incluía alguns dos nomes mais esperados bem como uma significativa representação lusitana em palco, o recinto não poderia estar mais cheio ou o público mais satisfeito.
Fotografia Oficial por Hugo Lima.

O dia para qual os bilhetes esgotaram à velocidade da luz começou bem cedo na praia fluvial do Tabuão. No início da tarde já se via o caldo do rio lotado de barcos e as margens totalmente preenchidas por uma manto colorido de toalhas. Mas ao contrário do primeiro dia do festival, este já contou com animação no Palco Jazz: foi a partir das 13h00 que a presença da escritora Matilde Campilho e as atuações de Macadame e Núria Grahm musicaram a (muito) quente tarde do festival.

No recinto, foi Hinds que estreou o palco Vodafone FM, pelas 18h00. O grupo feminino de garage rock aqueceu os pés aos espectadores mais pontuais e precedeu Peixe:avião, a primeira atuação do palco principal. Os bracarenses do rock alternativo e progressivo tocaram, sem pausas para aplausos, para uma plateia maioritariamente sentada que se refugiava nos pedaços de sombra do recinto. Os temas “Ponto de Fuga” e “A Espera é um Arame” foram alguns que fizeram abanar as cabeças dos festivaleiros.

Foi pouco tempo depois que o palco principal quase se esvaziou para ver Pond, não fossem as duas primeiras filas vestidas de Tame Impala. No concerto apinhado, o vocalista anunciou que estava extremamente feliz por estar lá, algo que coincidiu nitidamente com a opinião do público, que entoava todos os riffs e insistia no crowdsurf ao som de guitarras e sintetizadores que se arrastavam a um compasso lento.

Seguir-se-ia Steve Gunn, que tornou a deslocar a multidão novamente para o palco principal. De semblante sério e imerso na sua sonoridade, o intérprete americano não conseguiu conquistar o público, que permanecia distraído e parcialmente apático, perante faixas como “Old Strange” e “Way Out Weather”.

Foi preciso que se aproximasse a hora da atuação de Father John Misty para que a audiência se adensasse e se levantasse na totalidade. Minutos antes do concerto, previsto para as 21h20, já se ouviam os assobios e gritos de excitação da plateia espectante. “I Love You, Honeybear, faixa homónima do último álbum do intérprete, foi a abertura do concerto. Diversas se seguiram e deram a conhecer a ampla capacidade artística de Joshua Tillman que, no palco, se subdividia em dançarino, ator, humorista e, mais importante, num cantor excecional. Em “When You’re Smiling and Astride Me”, o público pede “bis” e na balada “Bored in The USA” enche-se de isqueiros acesos e mostra conhecer bem a lírica do artista que, no final, enrola a bandeira nacional ao pescoço. O concerto, repleto de interação e marcado pela entrega de Joshua, terminou sem aviso com “The Ideal Husband”, interpretação que abismou toda a plateia.

Às 22h25, foi a vez de Iceage. Em contraluz e cobertos de fumo, as silhuetas dos jovens dinamarqueses moviam-se em consenso com o aroma post-punk emanado das suas músicas. Com “On My Fingers” como faixa inicial, não demorou muito até que o pó do chão fosse furiosamente levantado. “Forever”, “The Lord’s Favorite” e “Burning Hand” foram as que suscitaram mais entusiasmo ao público infatigável.

Pouco depois das 23h00 subiu ao palco Paulo Furtado, mais conhecido pelo projeto The Legendary Tigerman. “Estar em Coura é como um retorno a casa”, disse antes de ter dado início ao concerto com “Do Come Home”. Após a interpretação solitária, subiram ao palco mais três músicos que criaram diálogos e duelos fascinantes não só entre a guitarra e o saxofone, os protagonistas, mas também entre a percussão e o teclado. “Storm Over Paradise” e “Honey, You’re Too Much” exaltaram toda a audiência. “Nunca fiz amor com tanta gente ao mesmo tempo”, diz Paulo após a interpretação de ambas. Ainda viriam “These Boots are Made for Walkin” e “21st Century Rock ‘n’ Roll” nas quais a audiência cantou incessavelmente.

Foi Tame Impala que encerrou a noite com o recinto a rebentar por todas as costuras. Tanto antes como durante o concerto, a excitação do público perante os cabeças de cartaz era óbvia. Ouviram-se gritos e entoações de músicas mesmo antes de a banda estar em palco, e durante a atuação, o sing along foi constante. “Let It Happen” abriu o concerto, mas foram as faixas de Lonerism que obtiveram melhor resposta do público. “Mind Mischief”, “Why Won’t They Talk to Me?” e “Feels Like We Only Go Backwards” fizeram sucesso no recinto lotado.

Para quem aguentou a maratona de concertos houve ainda After Hours com Mirror People e Nuno Lopes.

Hoje os palcos vão albergar nomes como os portuenses X-Wife, Mark Lanegan, Waxahatchee e The War On Drugs.