Cultura

DIABO NA CRUZ: NA CASA DA MÚSICA SEM NUNCA SAIR DA GARAGEM

Os Diabo na Cruz são daquelas bandas que quer “rockar” bem ao estilo do Zé Povinho, com cheiro àquele cantinho “à beira mar plantado”. A banda que nunca “saiu da garagem” esteve à conversa com o JUP, entre portuguesices, vidas de estudante e boa música.
Fotografia por Raquel Nunes.

Na passada quinta-feira (26), os Diabo na Cruz voltaram à Casa para um espetáculo muito à moda do Porto. A Sala 2 da Casa da Música foi pequena para a imensidão do rock popular da banda.

As altas expetativas dos Diabo na Cruz confirmaram-se e o público, que encheu a sala, recebeu da melhor maneira o novo álbum homónimo da banda de Jorge Cruz, Bernardo Barata, João Pinheiro, João Gil, Manuel Pinheiro e Sérgio Pires.

Pouco antes do início do espetáculo, os Diabo na Cruz sentaram-se à conversa, confessando a humildade de nunca terem saído da garagem. A banda saudou o JUP com a sua boa disposição, sem vergonha, “a não ser a dos outros”.

 

Como eram os Diabo na Cruz na garagem?

Nós ainda hoje somos uma banda um bocadinho de garagem. Ainda temos esse espírito inicial e ensaiamos numa garagem ainda. Sempre que tivemos em sítios com mais condições estranhamos um bocadinho. Até parece que és uma banda mais importante, mas depois na verdade não tem aquela pica que sacamos na garagem.

Ensaiamos na garagem do baterista, que é o clássico, porque o baterista tem de fazer mais barulho e tem de ter um sítio para tocar, portanto a gente junta-se lá.

Porquê Rock Popular?

Rock Popular porque somos todos do rock, temos uma banda de rock e a nossa música é muito acerca de “rockar”.

Popular porque é essa a nossa vontade, é fazer um rock… Não é um rock como a gente já ouve, já conhece de outras bandas, era pra fazer qualquer coisa que fosse portuguesa e encontrar uma forma de juntar uma linguagem à outra e fazer algo nosso, Diabo na Cruz.

Acham que se está a recuperar esta relação com o Portugal profundo?

Pois, essa relação… Mais do que isso, eu acho que já temos dado conta, desde que a banda existe, que já certas coisas são diferentes. Os portugueses precisam de tempo para se habituarem a certas ideias e certas coisas de si próprios. Durante muito tempo lidaram mal consigo e agora gostam mais de si próprios e têm mais vontade de usufruir das suas próprias características. Então algumas coisas que fazemos hoje em dia já não parecem tão revolucionárias como eram há 5 ou 6 anos, já são mais aceites, já são mais normais, e isso é fixe.

 

Qual é a dinâmica para conciliar os interesses de seis músicos diferentes?

Ora bem, normalmente, ditadura. É o melhor *risos*. A democracia é uma coisa complicada e nós às vezes não temos paciência para ela. Tentamos que toda a gente se expresse, esteja confortável e goste do que está a fazer. Assim cada um vai tendo o seu papel, um papel diferente. Alguns têm um papel mais influente a definir rumos e estratégias, outros que têm um papel mais influente a dar opinião sobre arranjos, há outros que têm um papel mais influente sobre qual é o hotel onde vamos dormir *risos*.

A Casa da Música é a sala de espectáculos por excelência do Porto. Vocês também já atuaram nos grandes palcos de Lisboa. Onde vos falta ir?

Ora bem, ainda nos falta ir a vários sítios, mas estarmos aqui é um grande marco, é um bom momento. O Porto é uma cidade super importante para nós e para o Sérgio em particular que é do Porto. Sempre que cá vimos percebemos que há uma energia diferente no público.

Os Diabo na Cruz nasceram e cresceram num período em que surgiram as “novas bandas do bom rock português”. Sentem que, por isso, a pressão cresce ou são maiores os factores positivos?

Muito maiores os factores positivos porque tivemos oportunidade de surgir numa altura em que se deu mais atenção a um tipo de música que durante muito tempo, na verdade, não tinha muito espaço. O facto de nós sermos uma banda que continua a trabalhar, que está de boa saúde é um privilégio, é o resultado de muito trabalho.

Contextualizando os Diabo na Cruz na vida académica, como eram vocês como estudantes?

Jorge Cruz: Fomos todos estudantes e eramos todos estudantes que passavam muito tempo na música. Éramos um bocado baldas *risos*. Mas também acabamos o curso… acho que nem todos, mas eu acabei o meu curso e o João Pinheiro também.
Eu nas aulas era aquele gajo que estava com a caneta a fazer ritmo e a ouvir um bocado do que o professor estava a dizer. Mas depois acusavam-me de aluado mas não, eu estava interessado. Só que se calhar estava sempre a compor e tal, a imaginar que um dia ia ter uma banda que ia tocar na Casa da Música.

*João Pinheiro chega e dá-lhe um beijo*

Jorge Cruz: Aí está ele! Quem é que acabou mais o curso para além de ti e eu?

João Pinheiro: Acho que o Bernardo fez um curso de hotelaria! *risos*

Já alguém escreveu que a vossa “falta de vergonha” vos tinha levado ao folclore. É falta de vergonha? É coragem? O que é?

Falta de vergonha ou coragem… Há um lado mais provocador, o “porque não?”. Acho que é a vergonha dos outros, porque para nós isso é aceitável e interessante. Para nós é estimulante.

Depois de dois anos a preparar este álbum, o que se segue?

Jorge Cruz: O que se segue é que o Manel…

Manuel Pinheiro: Vai para os camarins neste momento! *risos*

Jorge Cruz: O que se segue é uma tour extensa. Uma banda a crescer com cada vez mais público, mais músicos a serem conhecidos pelas pessoas e, depois mais tarde, um disco novo quando acharmos que é o momento para isso.

Mas para já segue-se o usufruir também de todo o trabalho que tivemos, o resultado que está a ter perante os outros e conviver. Uma pessoa fecha-se um bocado para chegar aos resultados.

JUP, em colaboração com Letra R