Cultura

DEPOIS DE DEZEMBRO, UM NOVO MUNDO PARA OS YOU CAN’T WIN, CHARLIE BROWN

Aproveitando a passagem dos You Can’t Win, Charlie Brown pelo FUSING Culture Experience, o JUP falou com a banda lisboeta que, desde o início deste ano, se consolidou como uma das apostas mais fortes da música portuguesa atual.

Os You Can´t Win, Charlie Brown, banda lisboeta que gosta de misturar folk com electrónica, lançaram em Janeiro de 2014 o seu segundo albúm Diffraction/Refraction, considerado de imediato pela revista Time Out Lisboa como um dos “discos do ano”.

 

O que é que o Charlie Brown não pode ganhar? Como é que surgiu este nome?

Salvador: Nós tínhamos um nome provisório na altura em que começamos, em que eramos quatro: o Afonso, o Luís, o David e eu. Mas o David não gostava muito dele e nós precisávamos de um nome urgentemente para termos a música nos “Novos Talentos FNAC”. Na sala de ensaios, que era a casa dos pais do Afonso, onde nós ensaiávamos antigamente, havia uma data de livros e um desses era o You Can´t Win, Charlie Brown. Nós olhamos para o livro e achamos que fazia sentido. Não houve grande inspiração divina nem nada do género, foi pouca criatividade (risos).

 

Já fizemos esta pergunta à Capicua; na verdade vocês são quase irmãos por terem sido apadrinhados pela Optimus Discos. Em que medida é que este selo vos fez crescer enquanto artistas e vos deu projeção? Como é que impulsionou a vossa carreira?

Afonso: Não sei muito bem. Para já o nosso caso foi um bocadinho diferente porque nós só fizemos uma edição digital com a Optimus Discos; os exemplares físicos foram concebidos por nós. Mas acho que a parte principalmente boa de termos tido o selo da Optimus Discos é que ela é muito o Henrique Amaro, da Antena 3, e que é e um dos grandes, senão o maior, divulgador de música portuguesa. Por um lado, sentes-te bem porque alguém que ouve muita música portuguesa e que leva com muita coisa em cima acha que o teu trabalho é suficientemente bom para ter o seu selo. E por outro lado porque garante que vais ter alguma divulgação através dele e dos demais que colaboram com a Optimus.

 

Que tipo de concerto é que vocês preferem, ou que mostra mais a essência dos You Cant Win Charlie Bown: concertos em festivais ou em salas fechadas/concertos mais íntimos?

Salvador: Os dois, mostram lados diferentes.

Tomás: É isso, são experiências completamente diferentes. Num concerto em que somos só nós a tocar num auditório as pessoas estão lá para te ouvir a ti e a mais ninguém e isso é bom. É bom sentires que as pessoas gostam do que tu fazes e que estão lá só para te verem. Ao mesmo tempo tens a experiência do festival, onde provavelmente metade da plateia não faz ideia de quem é que tu és, e ver essas pessoas a reagir e a reagir bem – ou esperamos nós que reajam bem – à nossa música também é uma sensação incrível. Acho que cada um tem o seu espaço e cada um tem as suas vantagens.

Salvador: Os concertos nos festivais, por serem mais condensados, e assim haver menos pessoas que nos conhecem, acabam por ter mais força porque temos que chamar mais o público e cativar mais essa atenção. Enquanto que num concerto só nosso num auditório as pessoas em princípio já nos conhecem e aí há mais espaço para fazer aquilo que nós quisermos.

Tomás: Tens mais disposição da parte do público para ouvir as músicas mais calmas, por exemplo, que se calhar não funcionam tão bem em festival, mas que as pessoas, por já as conhecerem, gostam e quererem ouvir, num concerto em auditório funcionam. Acaba por ser uma experiência completamente diferente, tanto para nós como para o público.

 

O FUSING também incluiu na programação um concurso de bandas de garagem. Como é que eram os You Can´t Win, Charlie Brown na garagem?

Salvador: Era em casa dos pais do Afonso e era cada um a fazer músicas para o seu lado: o Luís a fazer músicas a solo, o Afonso a fazer músicas a solo, eu a fazer músicas a solo. A nossa garagem era um computador. Tínhamos ideias feitas a solo e depois juntávamos-mos na garagem. Foi assim que começou.

Luís: Nós por acaso trabalhamos muito no início à distância, pela Internet. Nunca fomos muito uma banda, pelo menos de início, de garagem.

Tomás: Acho que mesmo hoje em dia somos muito pouco uma banda de garagem.

Luís: Mas agora já temos ensaios regulares; na altura nem isso. Era um bocadinho conforme calhava, trabalhávamos muito em casa, cada um gravava ideias,… Portanto nesse sentido nunca fomos uma banda de garagem tradicional.

 

Dizem na vossa biografia que “esta versão de 6 elementos era o melhor que a banda alguma vez tinha soado”. Como é que funciona esta dinâmica de composição conciliando os gostos e as ideias de 6 pessoas e sendo a vossa música composta por várias camadas instrumentais? Como é que funciona o vosso processo de composição?

Afonso: Com muita paciência (risos).

Salvador: Passa por respeitar um bocado o espaço de cada um. Se for respeitado, acho que cada um consegue dar o seu contributo.

Luís: Eu acho por acaso que está bastante mais fácil agora que nos conhecemos melhor do que há uns anos atrás, quando havia mais aquele medo de dizer que não gostavas de alguma ideia. Agora já tocamos juntos há bastante tempo e portanto estamos mais à vontade para dizer “Essa ideia aqui não resulta muito bem”. Ainda assim é sempre difícil, mas como digo acho que com o tempo têm vindo a ser cada mais fácil conseguir encontrar um ponto comum onde todos conseguimos contribuir.

 

Qual é, para vocês, a maior diferença entre o Chromatic, o vosso segundo álbum (2011), e o vosso mais recente trabalho Diffraction/Refraction?

Tomás: Nós já nos conhecemos todos uns aos outros melhor, e já temos mais ou menos o nosso espaço definido dentro da banda. Este (Diffraction/Refraction) foi claramente um disco em que trabalhamos todos mais em conjunto para ele acontecer. Acho que, apesar de querermos sempre evoluir e de não fazer a mesma coisa, já descobrimos, ao mesmo tempo, um bocado da nossa identidade como banda. É um disco mais coeso, mais maduro, e… posso continuar a dizer adjetivos que no fundo não querem dizer muita coisa (risos). Mas é isso. Falando pessoalmente, estou muito feliz com este disco.

Salvador: Acho que estamos todos.

 

Algumas das vossas músicas juntam uma série de influências e diferentes registos. Por exemplo, na “After December” temos as harmonias vocais e o piano iniciais e depois dá-se, quase como uma correria, entre o rock e o folk. Existe um porquê para esta mistura de influências ou isto é mesmo a definição da vossa música?

Afonso: Mistura de influências acho que toda a gente faz, porque ninguém têm só uma influência. Acho que este caso tem mais a ver com a maneira como queremos construir cada canção, cada música dentro do espaço que temos no alinhamento todo, que é um disco. Nós somos um bocadinho impacientes quando estamos a ouvir as músicas, se a faixa fica sempre igual e não desenvolver… vai lá o David (risos). Depende, às vezes há repetições que sabem bem, mas naquele caso foi mesmo uma opção, achamos engraçado teres um início que apontava para uma coisa e de repente aquilo cortar e partires para outro lado.

Salvador: Estou-me a lembrar do Fall for You e da Post Summer Silence. Esta música tinha um fim completamente diferente e era mais comprida, só que acabava como a Fall for You, e não fazia sentido. Nós já tínhamos mais ou menos uma ideia de como poderia ser o alinhamento do disco e cortamos esse fim porque para já não estava tão forte como o da outra música, e porque acabavam por ficar com a mesma fórmula, se é que isso existe, e o disco não funcionaria tão bem. Nesse caso fizemos essas opções: sabendo que já tínhamos uma música que cumpria, e bem, esse papel, tentamos arranjar o equilíbrio para a seguinte não ser a mesma coisa.

 

E em relação à música portuguesa desta “nova geração” de músicos, quais é que são os que vocês mais admiram?

Salvador: Por exemplo o Bruno Pernadas, com quem o Afonso participou no disco. Da Pataca, a nossa editora, gostamos dos artistas todos, não há um que nós não gostemos, dos quais o Bruno Pernadas faz parte. Os PAUS, com quem já trabalhamos, e tudo o que vêm daí também, dessa escola: os Linda Martini, os Capitão Fausto,… Eu acho que hoje em dia há várias bandas que nós admiramos.

Tomás: Estamos a viver um grande momento de boa música portuguesa. Se calhar eu sou – não é egoísta – mas só tenho esta visão porque só estou agora aqui. Mas eu olho para há dez anos atrás e não consigo ver a quantidade de bandas que existem hoje que admiro, pelo menos em quantidade não vejo, e em qualidade sinceramente acho que também subiu bastante.

Afonso: Eu acho que a prova disso é tu teres aqui durante este fim-de-semana um festival só com bandas portuguesas e ao mesmo teres o “Bons Sons” e outro na Costa da Caparica. No mesmo fim-de-semana tens três festivais a funcionar quase exclusivamente com bandas portuguesas. E acho que isso é demonstrativo do momento que estamos a viver.

Salvador: Não me parece que isso pudesse existir há uns anos atrás.

 

Já pensaram ou pensam fazer um álbum só em português?

Salvador: Nunca pensamos sobre isso, mas acho que… não sei, não nos parece fazer muito sentido.

Tomás: Eu posso dizer que já pensei, mas eu já pensei em mil ideias, penso e depois penso noutra coisa a seguir (risos).

Afonso: É verdade. Acho que parte do processo de pensar no que podes fazer no próximo disco é passar por todas as hipóteses e mais algumas.

Salvador: Acaba por ser a opinião de cada um. Por acaso acho que para este projecto não faz sentido, de repente, fazer uma coisa em português. Mas também nunca pensei sobre isso… Talvez um dia, mas não faço ideia.

Afonso: Mas é claro que já pensamos cantar em português. Não é tipo, “Hum, boa ideia, cantar em português, nunca tinha pensado nesse assunto” (risos).