Cultura

“Lobo e Cão”: Querer não é Pecado

"Lobo e Cão" (2022) é um filme português de Cláudia Varejão que veio denunciar a realidade da intolerância perante a comunidade LGBTQIA+ da Ilha de São Miguel, nos Açores, na qual ainda hoje reinam ideias datadas. Por Margarida Inês Pereira

 

Frame de “Lobo e Cão”. Fotos: D.R.

“Lobo e Cão” conta a história de Ana, uma jovem que nasceu em São Miguel, uma ilha repleta de natureza selvagem e imponente, que em tudo contrasta com a austeridade em que vivem os seus moradores. Quem ousa sair para procurar uma vida melhor e alcançar uma réstia de liberdade, é automaticamente colocado de lado.  Ana, que vive com a sua mãe, a sua avó e os seus dois irmãos, percebe cedo que carrega um fardo impossível de se resolver: o de ser uma mulher num mundo de homens. Inclusive, um dos costumes da ilha é, aquando de um nascimento de uma menina, queimar o seu  cordão umbilical, precisamente para que ela não se iluda quanto ao lugar que ocupa. Por isso, a personagem principal tem tarefas diferentes das dos rapazes, tendo de trabalhar a carregar e descarregar fruta no cais e de tratar das limpezas da casa, contentando-se apenas com rituais religiosos e socialização com os restantes ilhéus como o seu entretenimento.

Muitos jovens da ilha sentem o mesmo que a protagonista, e, embora não o verbalizem,  os muitos momentos de silêncio do filme poderão simbolizar precisamente a opressão deste “mundo de velhos”. No entanto, apesar de os sentimentos das personagens se manifestarem em poucas palavras, outros elementos como as suas roupas coloridas, as purpurinas e maquilhagem forte, denunciam os seus verdadeiros ideais, divergindo as suas cores vivas dos tons cinzentos da ilha e dos ilhéus das gerações anteriores. Este é o caso de Luís, o melhor amigo de Ana, que é um rapaz que tanto gosta de calças como de vestidos, que se interessa por maquilhagem, e que é cheio de coragem porque não tem medo de ser ele mesmo, embora tenha a desaprovação e o desagrado do seu pai e de várias figuras masculinas. Ao longo do filme, Luís tenta inserir-se numa comunidade que se diz cristã e à qual não pertence, a fim de se adaptar ao sítio em que vive. Não deixa nunca de lutar por aquilo em que acredita, demonstrando que, muitas vezes, a verdadeira bravura reside na ousadia de sermos quem somos.

Uma nova forma de viver a religião. Frame de “Lobo e Cão”.

Apesar do marasmo em que se vive nesse território isolado, há alguém que nos faz ver que nenhum lugar é tão distanciado, ao ponto de poder fugir completamente ao progresso. Cloé é uma jovem imigrada no Canadá, que volta aos Açores para passar férias, e que traz consigo um espírito mais vivo e alegre do que qualquer outra pessoa. Com a sua ajuda, Ana irá questionar o mundo em que vive, encontrando claridade no meio da neblina que povoa a sua ilha. Terá mesmo de se submeter a uma vida num sítio tão pequeno e tão sufocante? Ou terá de tomar decisões mais difíceis mas que a confortem a longo-prazo?

“Lobo e Cão” funciona como denúncia de uma realidade dos Açores, muitas vezes desconhecida, mas também como elogio da coragem da sua comunidade queer, que aceitou ser aqui retratada. São explorados temas como o lugar das pessoas LGBTQIA+, num contexto fortemente marcado pela religião católica, sugerindo que estas duas comunidades não são necessariamente mutuamente exclusivas. Ainda que o catolicismo aparentemente seja algo diametralmente oposto à modernidade dos jovens queer, este filme demonstra que não é a religião em si que afasta as duas realidades, mas sim a forma como a religião é vivida.  Este drama é para todos aqueles que sentem que têm de se esconder, temendo não ser aceites ou ser atacados pela sua forma de ver o mundo, mas também para os que necessitam de sair da sua zona de conforto e conhecer realidades diferentes.

Artigo escrito por Margarida Inês Pereira