Cultura

Holy Fvck: Demi Lovato reinventa-se e volta ao Rock

Com o lançamento do seu aguardado oitavo álbum, Demi Lovato está de volta ao som que deu início à sua carreira. Depois de dançar com o diabo e renascer das cinzas, Holy Fvck levanta a questão: quem é Demi Lovato?

Por João Santos Silva

Depois de anunciar no início do ano o “funeral” da sua música pop, Demi Lovato lançou no dia 19 de agosto de 2022 o novo álbum, “Holy Fvck”. Em contraste com a sonoridade a que estamos habituados, a artista embarca numa viagem marcada pelos elementos clássicos do rock, regressando ao ponto de partida da sua carreira. O disco é marcado por uma versão evoluída dos dois primeiros álbuns de Lovato, “Don’t Forget” (2008) e “Here We Go Again”, (2009).

A jornada pessoal da artista é o grande tema deste projeto. Depois de lidar publicamente com toxicodependências, e de ter sido alvo do constante escrutínio  dos media, Demi Lovato aborda temas como a fama, a sexualidade, a religião e o seu crescimento e auto descoberta.

“Get your tickets to the freak show, baby/Step right up to watch the freak go crazy”

Tendo a guitarra como grande protagonista, “Freak”, em colaboração com Yungblud, foi o tema escolhido para abrir o álbum, e não podia começar de melhor forma. Com um pré refrão cativante que utiliza um sample da famosa música temática do circo de Julius Fučík, Demi Lovato mostra que não tem medo de viver de forma autêntica mesmo que isso implique ser vista como uma pessoa extravagante ou demasiado fora da caixa. Além disso, é aqui que encontramos a primeira referência aos seus problemas de abuso de substâncias , tema que se destaca no primeiro single deste álbum “Skin Of My Teeth”. 

Entre o nostálgico segundo single “Substance” e a faixa título deste álbum “Holy Fvck”, destaca-se a canção “Eat Me”, colaboração com Royal & the Serpent, que é provavelmente a maior surpresa deste projeto. Com um instrumental fenomenal, composição intensa e a voz incomparável de Demi, este tema é um ponto de viragem nesta jornada musical. Contrariando os padrões de beleza e de género que caracterizam a indústria do entretenimento (da sociedade em geral), a canção tem potencial para se tornar no próximo hino sobre identidade de género e autoestima.

Depois de “Happy Ending”, o disco explora de forma mais explícita os temas relacionados com a sexualidade. Baseada num excerto da Bíblia que define a masturbação como um pecado, tudo começa com a faixa “Heaven” onde a artista faz uma reflexão sobre aquilo que é considerado bom ou mau pela igreja. A temática continua com as canções “Bones” e “City Of Angels”, que poderiam facilmente fazer parte da banda sonora de um filme coming of age dos anos 2000.

“Finally twenty-nine/Funny just like you were at the time/Thought it was a teenage dream, just a fantasy/But was it yours or was it mine?/ Seventeen, twenty-nine”

Outro ponto alto deste álbum é a canção “29”. Apesar de Lovato servir uma performance vocal deslumbrante, a letra é a grande protagonista. O grande foco deste tema é a evolução e a consciência que o ser humano ganha com o passar do tempo. Para ilustrar isso, a artista faz uma reflexão tendo como exemplo o relacionamento que a artista teve aos 17 anos com um homem de 29.

A sensação de nostalgia de “Substance”, volta a repetir-se em “Dead Friends”. Uma canção que poderia ser uma balada melancólica sobre luto, é na verdade bastante agradável e otimista. Tal como na grande totalidade deste álbum, a guitarra e a voz potente de Demi Lovato voltam a ser o centro das atenções, apesar do contraste que a faixa apresenta entre a dor e as dificuldades consequentes da perda de alguém próximo com o instrumental crescente e positivo.

No meio de tanta agitação musical refletida em temas distintos, ainda houve espaço para o amor. É o caso da canção “Wasted”. Numa primeira abordagem pode induzir em erro e parecer tratar-se de uma reflexão sobre os problemas com drogas que a artista enfrentou ao longo da carreira. No entanto, este tema tem uma reviravolta: Demi admite que estar apaixonada pode ser como experimentar uma droga nova, sem saber que consequências isso pode trazer à sua vida no futuro (The highest high can’t hold a candle to/Getting wasted on you). 

Após a irreverente “Help Me”, com a banda Dead Sara e a cinematográfica “Feed”, este álbum termina com “4 Ever 4 Me”, e tal como tem feito nos seus projetos anteriores, Lovato mostra ser uma especialista no que diz respeito a faixas finais.

Se fosse possível transformar uma composição musical num abraço, “4 Ever 4 Me” seria provavelmente o resultado. Esta canção é a grande concorrente de “Eat Me” para ocupar o lugar de melhor do álbum. Claramente inspirada na clássica “Iris” dos Goo Goo Dolls, este tema explora o processo gradual da paixão entre duas pessoas. A grande mensagem que a artista transmite é a esperança de que o amor chega a todos, mesmo que isso aconteça de formas muito distintas entre si. Com uma melodia excelente, Demi Lovato entrega um dos momentos mais especiais do projeto na bridge com uma escalada vocal extraordinária, mostrando mais uma vez ser uma das vozes mais fortes e promissoras da atualidade, que promete deixar a sua marca na história.

“I can’t wait to hug and thank your mother/Here’s what I’d say: Hе’s beautifully made/I can’t wait to show you, you’ll see/I promise his heart’s safe with me”

“Holy Fvck” é uma experiência única e uma viagem musical pela jornada de Demi Lovato e os seus altos e baixos ao longo da vida. Repleto de temas completamente diferentes, a artista conseguiu construir um projeto muito coeso e reinventar o estilo musical que deu início à sua carreira em 2008. Sendo o seu trabalho mais autêntico, este é um oitavo álbum com sabor a primeiro, e uma das grandes surpresas deste ano. Com mais de uma década de carreira, a cantora  mostra que está longe de se ausentar das luzes da ribalta, entregando aquele que poderá ser o seu melhor projeto até à data.