Crítica Cultura

MUNA toca as cordas do coração em novo disco homónimo

Depois de quase três anos desde “Saves The World”, o grupo indie-pop MUNA regressa com o seu terceiro álbum. Ao juntar uma produção que mistura electro-pop e country com letras vulneráveis e geniais, é criado um disco simplesmente emocionante. Por João Veloso.

Após os brilhantes “About U” (2017) e “Saves The World” (2019), a banda indie-pop norte-americana MUNA, composta por Katie Gavin, Josette Maskin e Naomi McPherson, lançou, a 24 de junho, um álbum homónimo.  Explorando os já conhecidos sons electro-pop e alternativo e o country, “MUNA” surge após a troca da gravadora RCA Records pela Saddest Factory Records, fundada pela artista Phoebe Bridgers, a única colaboração neste álbum.

Desde relações amorosas até independência e empoderamento, são variados e complexos os temas abordados ao longo de 11 músicas, cuja produção e letra se destacam pela sua refinação e emoção, características que já são costume da banda.

O álbum abre com “Silk Chiffon”, o primeiro single oficial do projeto (que saiu em setembro de 2021), onde participa Phoebe Bridgers e é abordada a beleza do amor queer. O ouvinte é logo introduzido ao novo som da banda graças à presença de guitarras acústicas e uma batida agradável e suave. A sensação de conforto faz qualquer um sentir-se envolto pelo tecido que dá nome à faixa.

Com “What I Want” e “Runner’s High” os temas mudam e o som não fica para trás passando para instrumentais bem mais mexidos e eletrónicos que relembram os trabalhos anteriores da banda. A primeira canção apresenta uma produção hipnotizante e um refrão glorioso, em que a vocalista Katie assume a sua autonomia e responsabilidade pelas suas escolhas.

«I’ve spent way too-too-too many years not knowing what/What I wanted, how to get it, how to live it and now/I’m gonna make up for it all at once/’Cause that’s, that’s just what I want»

Entretanto, “Runner’s High” é simplesmente extasiante, com uma progressão genial em que o instrumental fica cada vez mais intenso ao longo da música, terminando com um final puramente explosivo.

O som electro-pop continua com “Home By Now”, onde se junta também o country, especialmente no refrão, resultando numa faixa memorável e emocionante. Para além da produção, destaca-se a genialidade e vulnerabilidade da letra em que a artista recorda uma relação amorosa que acabou, pensando sobre se poderia ter sido consertada se continuassem juntos.

“Kind of Girl” e “Handle Me” introduzem instrumentais acústicos, com evidentes influências country. Considerada por Katie como “o coração do disco”, “Kind of Girl” destaca-se pela sua letra emocionante onde se aborda o poder que se tem para alterar a narrativa da vida: «Yeah, I like tеlling stories / But I don’t have to write them in ink / I could still change the end / At least I’m the kind of girl / I’m the kind of girl who thinks I can». “Handle Me” prossegue com um som acústico e discreto, dando, assim, palco às letras emocionais e à voz suave de Katie, que brilha, especialmente, no refrão simples, mas encantador. Aqui a artista abre-se à intimidade com a sua cara-metade, referindo que pode tocá-la, demonstrando assim um amadurecimento e evolução face ao álbum anterior, onde, na faixa “Hands Off”, recusa ser tocada.

Posteriormente, surgem “No Idea”, uma música que, embora volte para um som mais pop, acaba por ser um bocado repetitiva e pouco memorável, e “Solid”. Esta última faixa traz uma vibe mais positiva ao álbum, graças a um instrumental agradável e uma letra simples e alegre, destacando-se o refrão, que conta com a presença de um coro que, definitivamente, dá vida à música.

Chega a vez do segundo single oficial de “MUNA”: “Anything But Me”. Talvez seja por causa da letra vulnerável e absolutamente genial, onde se aborda a satisfação de sair de uma relação que não funcionou, ou talvez por causa da junção das influências electro-pop e country, mas não se pode negar que esta música é contagiante e especial. Com uma progressão simplesmente estupenda, a música começa já com uma grande intensidade e culmina num final que transborda de emoção e vivacidade.

«But I would rather lose you / Than who I’m meant to be / So you can have anything but me»

“Loose Garment” apresenta um instrumental mais sereno, marcado pela presença de violinos. Estes instrumentos não só encaixam perfeitamente com a voz da cantora como também arrepiam, dando mais peso à letra já emocionante, onde afirma que agora “usa” a sua tristeza como uma “roupa solta” em vez de a deixar esganar como um “choker”.

O disco termina com a tranquila “Shooting Star”. Apesar de, infelizmente, apresentar uma letra menos inspirada e ser, assim, uma música menos marcante, o instrumental etéreo e simples permite acabar o álbum num tom positivo e calmo.

“MUNA” é um projeto simultaneamente coeso e diverso, havendo uma junção genial de electro-pop com country. Sendo que flui brilhantemente entre as diferentes faixas, os 39 minutos de duração passam rapidamente, prendendo o ouvinte ao álbum, algo que também é conseguido graças às letras engenhosamente pessoais e intrigantes. Este disco demonstra a banda MUNA no seu topo e a sua destreza para tocar o coração de todos os ouvintes, como as cordas de uma guitarra.

Artigo da autoria de João Veloso