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NOS Primavera Sound 2022: o maior festival do Porto está de volta

Após três anos desde a última edição do festival, o NOS Primavera Sound voltou finalmente, entre os dias 9 a 11 de junho, ao deslumbrante recinto de sempre, o Parque da Cidade do Porto. Com 5 palcos - 3 deles anfiteatros naturais -, um tempo soalheiro e um cartaz recheado de artistas dos mais diversos géneros musicais, conseguiu superar as expectativas de qualquer pessoa, especialmente intensificadas depois dos dois longos anos sem qualquer festival de verão. Por Tiago Cardoso.

1º dia:

O primeiro dia começou no palco secundário Cupra com o grupo Derby Motoreta’s Burrito Cinema, que atuaram enquanto a maior parte das pessoas ainda se encontrava a entrar no recinto.  Pouco tempo depois, os Throes + The Shine abriram o palco Super Bock e fizeram o que se pode apelidar como o primeiro “espetáculo” da edição deste ano. O vocalista, em constante interação com a audiência, juntou-se a certo ponto ao próprio público, que já começava a encher, para a realização de um mosh.

Assim que este concerto acabou, o cantor português Pedro Mafama abriu o palco principal. Um concerto talvez pouco energético, mas onde foi possível ouvir um pouco do catálogo musical de um artista português em ascensão.

Ainda antes do concerto deste artista terminar, já se juntava uma multidão no outro lado do festival para ver a banda americana DIIV. Após um concerto memorável, ambos os vocalistas afirmaram nunca terem tido uma multidão tão grande e energética como a que tiveram naquele momento no Porto, mostrando-se surpresos e agradecidos. Terminaram com o poderoso tema “Blackenship”, sendo a interpretação de “Horsehead” um outro momento essencial do concerto.

Voltando ao palco principal, a cantora australiana Stella Donnely estava pronta para iniciar o seu set. Apesar da triste realidade que foi ter vindo em substituição de Japanese Breakfast, Stella conseguiu agradar com o seu carisma, piadas, acrobacias, e, especialmente, com o seu timbre doce. No tema “Boys Will Be Boys” a cantora falou sobre assédio e violência contra mulheres e afirmou ter pena de, nos dias de hoje, este ainda se tratar de um assunto relevante. Quase no fim do seu concerto houve tempo para um cover de “Love Is In The Air”, tema de John Paul Young – um bonito momento no Parque da Cidade.

Logo a seguir a Stella atuou Sky Ferreira. O que ninguém esperava era o atraso de mais de 20 minutos por parte da artista, num concerto que não poderia ultrapassar os 50. Mostrou-se muito nervosa durante todo o seu set, chegando mesmo a ser sincera e a afirmá-lo ao público presente. No total cantou apenas 6 músicas, dentro delas o seu mais recente lançamento, “Don’t Forget”, e uma música inédita, “Innocent Kid”. Talvez a apresentação do seu mais conhecido tema “Everything Is Embarrassing” pudesse ter salvo o concerto, porém, à falta de tempo, e depois da artista afirmar estar a ser expulsa do palco, despediu-se dos fãs com um simples e seco “bye”.

Após este curto concerto, foi a vez da banda australiana Nick Cave & The Bad Seeds atuar no palco principal. A multidão presente era considerável, não havendo, inclusive, muito espaço para movimentos. O artista, como sempre, trinfou com as suas canções que enlaçaram cada um dos festivaleiros. Durante o encore, agora sozinho no palco e acompanhado apenas pelo seu piano, tocou o forte tema “Into My Arms”. No decorrer de toda esta música foi palpável o nível de emoção extremo em todo o público e, durante o refrão, poucas foram as pessoas que não exclamaram “Into my arms, O Lord” juntamente com Nick.

De seguida, Cigarettes After Sex envolveram toda a multidão no palco Cupra com a voz suave do vocalista e as melodias doces que caracterizam a banda norte-americana, com especial referência ao tema “K.” e “Affection”, que foram também as músicas mais acompanhadas pelo público.

Caroline Polachek, considerado por mim como a melhor atuação do primeiro dia do festival, viu o seu pequeno público completamente em êxtase. Talvez a colocação de Tame Impala ao mesmo tempo da artista não tenha sido uma decisão favorável por parte da organização do festival, que escondeu (injustamente) Caroline no palco secundário Binance. Porém, com a sua voz poderosa e instrumentais que misturam o pop e o experimental, Polachek cantou e encantou todos os presentes. Especial destaque para o tema “Door” e o cover do clássico “Breathless” dos The Corrs, que toda a gente cantou em uníssono. Quase no fim do concerto referiu ter “renascido” após o concerto de Nick Cave e perguntou ao público se também tiveram a sorte de o ver – o que a artista provavelmente não sabe é que quem teve o prazer de assistir ao seu concerto ficou exatamente com o mesmo sentimento de privilégio.

Tame Impala, no palco principal, protagonizaram o último concerto da noite (fora o palco de eletrónica BITS). Com o seu catálogo de rock alternativo vasto, viram as suas músicas mais conhecidas serem cantadas por toda a multidão. Consegui apenas presenciar a parte final deste concerto, o encore. Começou com o maior êxito “The Less I Know The Better” e acabou com “New Person, Same Old Mistakes”. Kevin Parker não é conhecido por ter a maior presença de palco, no entanto, sem dúvida que o espetáculo visual, jogo de luzes e projeções compensaram. Neste aspeto foi, provavelmente, o concerto que mais se destacou em todo o festival.

 

2º dia:

Depois de atrasos na chegada ao festival devido a transportes saturados, apenas me foi possível apanhar o final do surf rock dos Beach Bunny. Cantaram para algumas pessoas que se juntaram em pé perto do palco principal, enquanto a maior parte do público se encontrava sentado na relva a apanhar sol e a beber cerveja.

Por esta razão o meu primeiro concerto inteiro deste dia do festival foi Rina Sawayama. E que concerto. A artista entrou em palco para gritos eufóricos dos fãs que, por esta altura, já enchiam toda a plateia do palco Cupra. Apresentou-se inicialmente com a grandiosa “Dynasty”, introdução do seu álbum de estreia SAWAYAMA. Acompanhada por duas dançarinas e uma all-women band, dominou por completo a audiência que a viu cantar. Referiu também o facto de estarmos em junho, o Pride Month, dedicando o seu tema “Love Me 4 Me” à comunidade LGBTQIA+. Houve ainda tempo para um momento de estreia da música “Catch Me in the Air” do seu álbum “Hold the Girl”, com lançamento previsto para 2 de setembro deste ano. No fim, afirmou que ia terminar o concerto com o que se referiu ser um “summer bop”, o tema “Lucid”, mas acabou por ainda cantar “Free Woman”, colaboração com Bloodpop e Lady Gaga. Alusão especial aos momentos em que interpretou “XS”, provavelmente o tema mais conhecido da cantora, e o seu mais recente lançamento “This Hell” que, surpreendentemente, muita gente acompanhou.

Logo após Sawayama, foi a vez dos Slowdive se apresentarem. Durante todo o tempo de concerto foi possível perceber a enorme complexidade dos sons presentes na música de um dos maiores nomes de sempre do shoegaze – a música navegou e envolveu por completo todo o espaço do anfiteatro natural. Tratou-se especialmente de um momento bonito depois de reparar no ambiente pelo qual éramos rodeados. Estávamos finalmente de volta a um ambiente de contemplação musical coletiva, a luz do sol de fim de dia brilhava enquanto “When The Sun Hits” tocava, as verdes árvores moviam-se suavemente com a brisa que também se sentia na pele e, até os pássaros, nos raros momentos mais silenciosos, se faziam ouvir.

De seguida, e continuando nesta onda contemplativa, King Krule impressionou toda a plateia do palco Cupra com o seu timbre grave e inconfundível. Iniciou o concerto com “Perfecto Miserable” enquanto atrás de si iam sendo projetadas fotos do seu cão. De forma geral, o concerto focou-se no seu mais recente álbum, “Man Alive!”. Porém, alguns dos momentos mais celebrados foram quando interpretou os seus clássicos “Baby Blue” e “Easy Easy”. A reação eufórica do vasto público levou a que Archy Marshall voltasse, após o encore, para tocar o seu primeiro grande hit, “Out Getting Ribs”. Referência particular ao tema “Rock Bottom”, uma inclusão especial na setlist do cantor britânico que levou os fãs mais devotos ao êxtase.

Novamente no palco Super Bock, 100 gecs foi um concerto que surpreendeu pela positiva. Apesar do som hyperpop e extremamente experimental, a dupla estado-unidense pareceu agradar e pôr a dançar grande parte do público que os viu atuar.

Por outro lado, Pavement, a banda norte-americana dos anos 90 que se seguiu, tratou-se provavelmente de um dos concertos mais monótonos de todo o festival. Apenas os grandes fãs e conhecedores do catálogo desta banda, que se encontra agora a fazer o seu retorno aos palcos, poderão ter achado o concerto algo memorável.

Às duas da manhã, Chico da Tina apresentou-se no palco Binance rodeado por 7 amigos dando, desde logo, ordem de saída a todos os que não queriam realmente estar no seu concerto, mostrando a sua intenção de “virá-lo do avesso”. O que se seguiu foi o expectável num concerto deste artista.

Para concluir a noite, Special Request fez um intenso DJ set no palco BITS.

Special Request. Fotografia de Tiago Cardoso / JUP

 

3º dia:

Helado Negro foi, no último dia, a primeira banda a subir e atuar no palco principal. Com a sua música harmoniosa e vocals suaves e melódicos, proporcionaram um bom ambiente no recinto. Não chamaram um grande público que prestasse real atenção ao concerto, mas talvez até fosse esta a intenção da organização do festival ao colocá-los nesta hora tão inicial – naquele momento a calma imperava e reuniam-se as condições perfeitas para um deleitoso piquenique musical.

Por outro lado, os texanos que se seguiram, Khruangbin, apesar de se apresentarem num palco secundário, acabaram por se destacar bem mais. Atraíram um vasto público, surpreendente tendo em conta a hora a que atuaram e, durante toda a hora de concerto, conseguiram pôr até os mais tímidos a dançar. Igualmente surpreendente foi não terem tocado os seus últimos êxitos dos dois EPs em colaboração com o cantor Leon Bridges, músicas como “Texas Sun” e “Mariella”. No entanto, visitaram os seus outros álbuns e apresentaram belos temas como “White Gloves” e “So We Won’t Forget”. Entre as transições smooth das suas músicas tocaram instrumentais de alguns clássicos que toda a gente reconheceu e cantou por cima –  “Let’s Dance” de David Bowie, “Gypsy Woman (She’s Homeless)” de Crystal Waters, “Wicked Game” de Chris Isaak e ainda “Electric Relaxation” de Jimi Hendrix. Juntamente com o sol de final da tarde, aqueceram o espírito a toda a multidão que ali se juntou, ao colocar todos num transe com as suas músicas dançáveis, mas relaxantes.

De seguida, Jamila Woods atuou no palco Binance para uma sessão tranquilizante de R&B. Desde o início do seu concerto era notável a ligação entre a audiência do NOS Primavera Sound e a artista, que chegou mesmo a elogiar a atenção do público e afirmar que a ouviam “com o corpo todo”. A meio do seu set cantou ainda uma versão de “Smells Like Teen Spirit”, dos Nirvana.

O concerto de Simbiatu “Simbi” Ajikawo seguiu-se e foi certamente um dos melhores momentos de todo o festival – a energia de Simz fundiu-se perfeitamente com o público que ali estava para a ouvir. A artista confirmou ser uma das rappers mais interessantes dos últimos tempos, com um flow e letras vindas de quem apenas pode ser um puro génio. Começou o set com “Introvert”, faixa introdutória do seu último álbum de estúdio “Sometimes I Might Be Introvert” e houve ainda momentos para canções de intervenção feministas, como “Woman”.

Interpol, à semelhança do que aconteceu em 2019 no mesmo festival, voltaram a dececionar, com a única diferença ser a banda inglesa se ter apresentado, desta vez, no palco principal. Problemas técnicos de som ou não, a voz do vocalista mal se ouvia por debaixo de todos os riffs de guitarra e kicks da bateria. Apesar de não se poder chamar de um “mau concerto” é compreensível afirmar que a banda falhou em agradar maior parte do público, deixando muitos na indiferença.

Após uma curta pausa para jantar, pude presenciar a novidade do festival deste ano, o palco “Cupra x Boiler Room”, com transmissão online para as páginas do Boiler Room. O ambiente mostrou-se divertido e foi sem dúvida um sucesso por parte da organização deste ano. Por este motivo, esperemos que se mantenha nas próximas edições.

Enquanto a latina Bad Gyal se apresentava no Palco Super Bock, Grimes iniciava o seu DJ set no palco Cupra, do outro lado do festival, sendo a sobreposição destes dois concertos dos mais comentados e criticados pelos fãs de ambas as artistas. De qualquer maneira, optei por estar presente no DJ set de Grimes, e posso dizer que a artista não desiludiu. Toda a gente que esteve presente certamente poderá confirmar isso. Tratou-se de um set divertido e intenso com risos frequentes da artista ao microfone, tal como falas impossíveis de perceber devido à intensidade da música. Houve espaço para remixes de músicas de artistas como Doja Cat, Mariah Carey, Radiohead, e até sinfonias de Beethoven. “We Appreciate Power” e “Shinigami Eyes” foram os únicos próprios temas da artista.

Gorillaz foi um concerto que a plateia levou para casa como recordação. Iluminado pelo luar e vestido de rosa dos pés à cabeça, foi notável a imensa vontade e gosto que Damon Albarn teve em estar àquela hora, naquele lugar. Ao todo, o concerto contou com 4 artistas convidados – em “The Valley of Pagans” foi acompanhado por Beck, no tema “Désolé” juntou-se Fatoumata Diawara, em “Garage Palace” foi Little Simz que apareceu de surpresa e, por fim, Posdnuos, dos De La Soul, pôs o festival festival inteiro a cantar “Feel Good Inc.”. Houve ainda espaço para outras duas aparições, desta vez nos ecrãs, de artistas como Robert Smith, dos The Cure, em “Strange Timez”, e de Slowthai no tema punk “Momentary Bliss”. Um outro momento especial a meio do concerto foi a interpretação emocional por Albarn do tema “On Melancholy Hill”. Infelizmente, quase como se o destino nos tivesse de relembrar constantemente que nem tudo pode ser perfeito, o concerto não teve um fim muito agradável, após um corte brusco do som durante a música final “Clint Eastwood”. De qualquer maneira, o certo é que se tratou de um espetáculo sublime e inesquecível que ficou indubitavelmente gravado na memória de todas as pessoas ali presentes.

Para encerrar a noite do último dia da edição deste ano, no palco BITS atuava Joy Orbison. Com o espaço completamente cheio, talvez porque àquela hora era o único palco ainda ativo, a energia e vontade de dançar transpareceram na música e nas pessoas que ali se encontravam a aproveitar os últimos momentos do festival.

O NOS Primavera Sound continua a ser um dos melhores e mais ecléticos festivais musicais existentes em Portugal. Depois da despedida resta a esperança de um regresso rápido em 2023, sem as temidas pausas forçadas pelas razões tristes que todos conhecemos. Até para o ano!

Created In Barcelona. Fotografia de Tiago Cardoso / JUP

 

Artigo e fotografias da autoria de Tiago Cardoso