Crítica Cultura

holympo: havarya – de avariado tem pouco

Três anos depois, holympo retoma os projetos a solo com o EP “havarya”. Serve-se de egotrip e partilha o seu mundo que de avariado tem muito pouco. Por João Pedro Pereira.

Diogo “holympo” Dias, originário de Cantanhede, começou o seu caminho no Soundcloud e por lá foi causando burburinho na comunidade fã de hip-hop. Estudou música e, talvez por isso, holympo surgiu no rap com uma abordagem nova e fresca.   A impressionante capacidade de mesclar diferentes estilos musicais, como o jazz, rock e trap, e a facilidade que possui em imprimir emoções na sua música marcam cada um dos seus projetos. 

Deu-se a conhecer com a participação n’O Game, concurso de talentos da antiga label liderada por Mário “ProfJam” Cotrim, João “benji price” Ferreira e Nélson Monteiro – ficou pelo caminho nas meias-finais, mas não parou de trabalhar. De lá para cá, Diogo Dias lançou, em conjunto com Palazzi e HeartLess, o EP “Distante” e alguns singles de sucesso, como “semti” e “puro”.

Frame de “chuba”

Neste lançamento, que conta com os temas “família”, “we go”, “chuba” e “havarya”, holympo dá o seu parecer sobre a sociedade e os valores que a regem. Foca o campo da música, devaneando sobre o  caminho a seguir para singrar neste mundo e “deixar uma marca no passeio”. 

O músico começa por introduzir o assunto na música “família”. Mostra-se transtornado com a realidade, criticando-a e salientando o facto de não se sentir enquadrado na conjuntura que o rodeia, precisando de se manter na sua bolha, onde se sente “100% bem”, para perpetuar o seu legado. 

Em “we go”, o artista aprofunda as objeções colocadas anteriormente, condenando a forma de como a indústria dificulta a ascensão de recém-chegados, bem como a perda de humildade de certas pessoas quando atingem determinado estatuto. 

Terminada a reprimenda, holympo segue para o som “chuba”.Assume-se como um espírito livre e evidencia as suas ambições. Ao mesmo tempo, mostra-se distinto do resto, razões pelas quais se destaca e nunca morrerá (no plano espiritual). 

O passeio termina com “havarya”, tema mais introspetivo de toda a obra e onde o rapper faz um apanhado final de tudo o que foi dito, apelando para que o deixem na avaria, isto é, a sua própria bolha, o que encadeia todas as canções.

Frame de “we go”

Se no início holympo fez sucesso pela forma estridente e, simultaneamente, melódica com que falava de amor, agora assume uma nova faceta, que exponencia de forma brutal tudo aquilo que é enquanto artista. Não que o Diogo de antes fosse um mau artista, mas era mais jovem e, por ter uma grande vontade de se expressar, acabava por soltar tudo cá para fora de maneira  descontrolada. 

Hoje, a fome não desapareceu, mas o método foi aperfeiçoado. Houve um processo de maturação enorme que começou com “semti”, uma das pérolas do seu reportório, e permite a holympo ser, sem dúvida, um dos melhores artistas em Portugal. Este EP é, no seu todo, uma das melhores coisas que já ouvi, mas o que ressoa é a evolução do compositor, que aproveitou aquilo que possui de melhor para dar cor e voz à sua “avaria”.

Capa do EP “havarya”

Mas então, porque é que esta obra tem tanto valor? As razões são várias. A primeira prende-se com a identidade única de holympo. Há muita gente a fazer rap, mas ninguém que o faça como ele. Transborda genuinidade e o sentimento é transmitido de forma rica, através dos vários flows, sonoridades e jogos de palavras. Tudo isto é possível graças ao brio do artista, que é extremamente completo e versátil. Para além disto, holympo domina a arte de transmitir o que quer que pretenda com o máximo de emoção possível e imerge o ouvinte na sua visão. 

Há, no entanto, que enaltecer os beats de Alayah Saint em “família” e “we go”, Kishuba & Hyzer em “chuba” e do próprio holympo em “havarya”, bem como o mix & master de Jack em todas as batidas, que contribui em muito para a experiência.

Já deu para perceber que não estamos perante um trabalho qualquer, mas e quanto ao conteúdo em concreto, tem sumo ou não? Tem, e muito. Toda a obra assenta numa ironia que prende do início ao fim. 

holympo explica, nas primeiras duas canções, os problemas que a sociedade e, mais especificamente, a indústria musical atravessam, denunciando a população consumista e a perda de humildade num mundo cada vez mais poluído. Diogo quer remar contra a corrente pede que o deixem na avaria, isto é, no mundo dele. Perdeu-se na corrida, isto é, ele deixou o caminho daqueles que fazem parte do “rebanho”, daqueles que, na realidade, fazem parte de um mundo avariado. 

É notável ainda o contributo de x-tra em “havarya”, persona mais meditativa de holympo que rima em boom bap e permite explorar mais o potencial da sua voz enquanto instrumento em batidas mais simples.

Dito isto, só me resta apreciar este novo passo da caminhada de holympo, que nos presenteia uma perspetiva bem temperada com pureza e alma, num empratamento requintado onde exercita a sua criatividade para criar algo de verdadeiramente especial. Um mundo novo, com flores e sem sujidade, com luz e sem escuro, com cor e sem cinzento, o seu mundo. Um mundo que de avariado tem muito pouco.

Artigo da autoria de João Pedro Pereira