Cultura

“Lá, Onde o Vento Chora”: Segredos Selvagens

"Lá, Onde o Vento Chora" foi publicado pela primeira vez a 14 de agosto de 2018, e, desde então, tornou-se um fenómeno de vendas e foi nomeado para vários prémios literários. É uma história de amor e solidão, que tem a natureza e a vida selvagem como pano de fundo. A estreia do filme baseado nesta obra está marcada para dia 15 de julho. O argumento conta com a supervisão da própria Delia Owens, zoóloga e escritora, e com a atriz Daisy Edgar Jones no papel principal. Um livro e um filme a não perder. Por Margarida Inês Pereira.

Depois de me ser aconselhada a leitura deste livro, deixei-o durante algum tempo na mesa de cabeceira, esperando o momento certo para começar. Quando o abri, um conjunto de imagens povoou logo a minha cabeça, e, interiormente, não acreditei no que vi: uma rapariga de seis anos sozinha, abandonada à sua sorte, a viver num pantanal longe do resto da população da aldeia. Fui confrontada com uma história de violência: um pai alcoólico, bruto e agressivo, traumatizado pela Segunda Guerra Mundial, uma mãe doce, gentil, constantemente atacada e atormentada, e um conjunto de filhos, dos quais se destacam Jodie e Kya. Perante o inferno familiar vivido na cabana do pantanal, a mãe sai de casa com os seus poucos pertences e, a pouco e pouco, os outros filhos vão fazendo o mesmo. Um dia, até Jodie, o irmão que ensina a Kya tudo o que sabe sobre pesca e animais selvagens, comunica que chegou a vez dele. Kya, ainda pequena e sem saber ler apesar de ter já quase sete anos, tem de aguentar despedir-se do seu irmão mais próximo, e esperar sozinha que a mãe regresse.

Entregue à sua sorte e ira do pai, Kya evita-o o mais possível. No entanto, nunca mostra ter medo nem chora perante o pânico de já não ter ninguém que a ajude com as tarefas da casa, como cozinhar, limpar e comprar combustível para o barco. Por aqui se vê o quão especial ela é: qualquer outra criança teria ficado sem saber o que fazer, e deixar-se-ia sucumbir à pancada e violência. Mas ela, perante a adversidade, decidiu aprender por si as coisas mais simples para sobreviver: lembrava-se, de memória, da forma como a mãe fazia papas de aveia, e das suas receitas de biscoitos e pão de milho. Inclusive, a sua desenvoltura chega a acalmar a fúria do pai, levando-o a demonstrar o seu lado mais brando. Apesar disso, o seu esforço para tornar a cabana um lugar habitável não chega para que o pai fique com ela sempre. Um dia, Kya chega a casa e percebe que também ele não voltará mais.

Abandonada mais uma vez e sem o pouco dinheiro ganho pelo pai, Kya está de novo entregue à sua sorte: para conseguir comprar comida, apanha mexilhões e peixe para vender a Saltos, o proprietário de uma pequena loja nas docas. Este, desde logo, aceita comprar-lhe o peixe e os mexilhões, oferecendo-lhe até alguma roupa, comida e combustível para o barco. Saltos e a mulher são as únicas pessoas da cidade que não a veem como uma ameaça, aceitando-a como ela realmente é: uma rapariga selvagem, ostracizada e subvalorizada, sobre a qual toda a gente alimenta todo o tipo de rumores. Ela é, na verdade, como o pantanal: o pantanal é classificado como terreno baldio, um lugar sujo, mas que, na verdade, alberga inúmeras formas de vida de beleza incomum e guarda segredos que nunca serão conhecidos por ninguém. Kya e o pantanal fundiram-se num só: também são poucos os que a entendem e amam, por não saberem apreciar o seu caráter esquivo, tímido, mas cheio de talento artístico e científico.

Esta é a parte mais fascinante sobre Kya: apenas foi à escola um dia em toda a sua vida, e nunca mais lá apareceu por ter sido maltratada pelas outras crianças por causa de andar descalça. Todavia, a sua capacidade de aprender é infinita: com Tate, um rapaz apaixonado pela Biologia, aprende a ler, a contar e sobretudo factos sobre a vida selvagem. Tate, ao contrário de toda a gente na cidade, dá-lhe armas para se defender, ensinando-a a usar a sua situação a seu favor e estudar o pantanal, catalogando as suas espécies, e colecionando penas de aves. Kya não só escreve sobre o que vê, como também pinta o que observa com as tintas da mãe. Para comunicar consigo própria e ansiando um interlocutor, escreve poemas, que dizem muito mais sobre o que ela sente do que qualquer diálogo que tenha com alguém.

Kya fascina-se com as formas de reprodução das espécies que observa, e usa-as para explicar para si própria o amor humano. Kya conhece, através do amor, a rejeição, o abandono, a traição e a desonestidade. É profundamente afetada pelas suas desilusões amorosas, porque elas são o que mais a une ao mundo exterior. É muito dura quando se sente abandonada e fisicamente ameaçada, sendo nessas circunstâncias que recorre aos ensinamentos da natureza para se proteger e contra atacar.

Ler este livro informa-nos sobre a importância da natureza, sobre a sua beleza e sobre as suas ações cuidadosamente calculadas. Mostra-nos o contraste entre o ser selvagem, e o ser domesticado pelas leis, preconceitos e aparências. Sobretudo mostra a importância da liberdade, sugerindo que é a falta de vivência em harmonia com a natureza o que provoca o ódio, as mentalidades conservadoras e a rejeição de tudo o que é diferente da norma.

Como diz Kya, “Eu nunca odiei ninguém, eles é que me odiavam a mim”.

Para quem neste momento gostaria de estar noutro lugar e quiser acompanhar as visões naturalistas de Kya, recomendo este livro.  Há nele algo que nos faz querer regressar às origens e procurar um lugar bem longe de onde vivemos e onde possamos viver como as criaturas sempre deviam ter vivido, um lugar onde todos os animais podem ser o que são: selvagens.

Artigo escrito por Margarida Inês Pereira