Cultura

Sad Girl: desaparecida

A Indie Sad Girl desapareceu. Vista (ou ouvida) pela última vez talvez entre 2017/2018, expressava dor, angústia e tristeza, consolando os seus ouvintes e legitimando o seu próprio sofrimento. Há ainda quem a procure, mas a realidade é que a ideia de que ela possa regressar torna-se cada vez mais distante. Aqui está o porquê. Por Cássia Canedo.

“I used to think I would tell stories but nobody cared for the stories I had […]” [“Eu achava que eu contava histórias, mas ninguém se interessava pelas histórias que eu tinha”] é o verso que abre a 2ª estrofe da música “Working for the Knife” de Mitski. O seu mais recente álbum, Laurel Hell, lançado em fevereiro de 2022, expõe a exaustão que a artista nipo-americana tinha vindo a sentir em relação à sua carreira antes da realização deste projeto. Quando entrevistada pela revista Rolling Stone, Mitski Miyawaki, revela que, na realidade, o plano era pôr um fim à sua carreira em 2019. “ ‘I felt it was shaving away my soul little by little […] The music industry is this supersaturated version of consumerism. You are the product being consumed, bought, and sold.’” [“Eu sentia que [a indústria] estava, lentamente, a apagar a minha alma. A indústria da música é uma versão supersaturada do consumismo. Tu és o produto a ser consumido, comprado, e vendido”].

Capa do novo álbum de Mitski, Laurel Hell

A sinceridade dolorosa nas composições da artista conseguiu cativar milhões de pessoas. As letras expõem as fendas, o rídiculo e o belo de se ser humano, abrindo espaço para contemplarmos as nossas feridas coletivas e individuais. Mas existe também outro lado da moeda: Mitski tornou-se, involuntariamente, num espelho para o mundo. E a cantora reconhece isto, insistindo sempre em distanciar-se deste papel.

Quando, ainda em 2016, a meio de um concerto uma fã lhe grita que a ama,responde hesitante e melancolicamente: “Mas tu não me conheces.”. 

O próprio título do seu sexto álbum remete para esta ideia: a expressão Laurel Hell é folclórica e remete para o louro-da-montanha, uma planta com flores pequenas e brancas com contornos cor-de-rosa bebé, aparentemente frágeis mas venenosas e com ramos emaranhados que impedem a passagem a qualquer um. Mitski, ao falar sobre este novo álbum, explica muitas vezes o quanto se identifica com a expressão nestes termos: a artista, agora com 31 anos, presa neste labirinto de mimosos contornos, impossível de atravessar, mas cuja beleza é tão estonteante que a aceitação desta realidade torna-se inevitável.

Os dois lados da moeda com os quais ela hoje sabe conviver. “What it came down to was, ‘I have to do this even though it hurts me, because I love it’ ” [“Cheguei à conclusão de que eu tenho de fazer isto mesmo que me magoe, porque é o que eu amo”].

 Na realidade, esta caótica dinâmica em que Mitski se viu enclausurada não é exclusiva. É vivida, principalmente, por artistas femininas da nossa contemporaneidade, cujo som não se encaixa perfeitamente no pop tradicional, polido e comercial. No início dos anos 2010, assistiu-se a uma invenção que fez explodir certos cantos da Internet: a criação da indie sad girl, vinda para catalogar certas artistas cujos estilos musicais eram demasiado ecléticos para o gosto de um bom consumidor. É possível que quando se fala desta expressão, a primeira cantora a surgir na mente do leitor seja a elusiva Lana del Rey. De facto, poder-se-ia dizer que se trata da padroeira do subgénero musical.

Em 2011, no lançamento do seu primeiro álbum Born to Die, a receção das suas músicas e letras de tons sombrios ganharam uma fama que cantoras-compositoras já não assistiam há talvez uma década. Durante esse tempo áureo do género da sad girl, letras como “Your soul is haunting me and telling me that everything is fine but I wish I was dead” (“A tua alma assombra-me e diz-me que tudo está bem, mas eu queria estar morta”), “Choose your last words, this is the last time. ‘Cause you and I, we were born to die” (“Escolhe as tuas últimas palavras, esta é a última vez. Porque tu e eu, nascemos para morrer”) invadiam as telas de sites como o Tumblr, Weheartit, Instagram, etc. de milhares de adolescentes (maioritariamente, raparigas) angustiadas e presas numa espiral de autoflagelo cuja existência e sofrimento pareciam ser legitimados por Lana.

Exemplo de uma imagem um tanto datada tipicamente partilhada nas redes sociais aquando da ascensão do primeiro álbum de Lana del Rey, Born to Die

É verdade que mais tarde, Del Rey viria a demarcar-se parcialmente de certos aspetos da sua estética inicial, afirmando, por exemplo que não voltará  a cantar Ultraviolence que se trata de um aceno à banda dos anos 60, The Crystals, “He hit me and it felt like a kiss” (“Ele bateu-me e pareceu um beijo”). Em 2016, é lançado o álbum Lust for Life: segundo Lana trata-se de uma resposta contraditória ao seu primeiro álbum, no qual a sad girl era a persona central  Ainda assim, o impacto que a primeira fase de Del Rey teve na cena musical é ainda evidente. 

As pessoas esperam certas atitudes de certas artistas que começam a repudiar o seu papel como portadoras de dor. Estas compositoras têm não só de sentir esta dor universal, mas de descrevê-la, vivê-la e carregá-la em todos os aspetos das suas vidas. Quem ouvir as suas músicas tem de implodir no reconhecimento mútuo que obrigam estas artistas a criar. Existem então algumas opções para elas: aprender a separar as águas continuando a criar música sem comprometer a sua pessoa e identidade, evoluir lentamente ou demarcar-se radicalmente e sem remorsos desta expectativa.

Nesta última opção encaixa-se, definitivamente, a artista australiana, Lorde. 4 anos depois de desaparecer quase totalmente do mapa, mal visitando as suas redes sociais e não lançando música, Ella O’Connor, ou Lorde, voltou em 2021, com Solar Power, um álbum que se afasta profundamente da artista a que os seus fãs se tinham vindo a habituar. Em Pure Heroine, de 2013, e Melodrama, de 2017, o estilo de Lorde era angsty, citadino e perspicaz. As suas críticas e a sua honestidade emocionaram o mundo que se identificou com a sua permanente insatisfação. 

Após este longo hiato, as expectativas criadas para um novo álbum tinham dimensões imensuráveis. Os fãs esperavam o mesmo tipo de música pelo qual se apaixonaram, que espelhava as suas dúvidas e hesitações. Receberam totalmente o oposto e a receção foi brutalmente negativa, comparativamente a álbuns anteriores. Ainda assim, a paz que Lorde trabalhou para encontrar e para exprimir no seu terceiro álbum parece ser inabalável. O primeiro single, com o mesmo nome do álbum, foi recebido com um misto de emoções e de antecipação para o resto do projeto. Com um som simples de guitarras acústicas e um clímax demorado, Solar Power demarca-se do seu som anterior, implacavelmente. 

A artista trocou as festas noturnas pela contemplação à beira-mar. Os fãs que viam na sua música um porto de abrigo, que viam alguém que se identificava com o carrossel da cidade e que lhes dava novas formas de expressar o vazio que estas vidas lhes traziam, sentiram-se, de certo modo, traídos. Essa possibilidade de identificação perdeu-se, apesar das músicas antigas ainda existirem.

Representação das três eras de Lorde no videoclipe de Secrets from a Girl (Who’s Seen it All). À esquerda, Pure Heroine, no centro, Melodrama, e,  Solar Power, à direita.

Há, definitivamente, uma mudança a acontecer na cultura. Quando artistas como Lorde, Lana del Rey, Mitski ou mesmo Billie Eilish, deixam de fazer hinos ao som dos quais se pode chorar, quando artistas cujo legado deveria ser uma tristeza solaz dão o salto para a autoaceitação que se reflete na sua música, o consumidor tem de pensar criticamente sobre a sua reação imediata. 

Artistas como Fall Out Boy também se demarcaram do seu som mais emo, para um pop mais polido e alegre e a reação generalizada não foi, de todo, a mesma. Felicidade em comparação com tristeza não é, por alguma razão, legítima. Mulheres, em comparação com homens, não são, por alguma razão, legítimas. Para uma mulher ser levada a sério precisa de estar (ou ser) triste. Precisa de legitimar-se com sentimentos “a sério” e a felicidade parece ser  demasiado kitsch. É necessário compreender o que significa quando a Sad Girl encontra alguma versão de felicidade ou, pelo menos, contentamento. O que significa quando ela o tenta partilhar e o mundo a recebe com tanta animosidade. Quanto do nosso descontentamento não é pura misoginia?

Existe, contudo, também o fator possível da influência que a classe social tem nesta receção. Se a Lorde está em praias infinitamente solarengas e a Lana passou de vídeos low-budget com recortes de outros pedaços de mídia e green screens, para o Country Club, a resistência do consumidor que não tem experiências semelhantes a estas representações parece ser razoável. Quando a realidade material destes artistas ultrapassa o fator de relatabilidade que os tornou famosos, em primeiro lugar, como pode o consumidor continuar a apoiar algo que não adiciona à sua vida?

É incerto ainda se o mundo digital irá finalmente manter-se leal à sua essência transiente e começará não só a aceitar, como também a incentivar este movimento evolutivo do universo das cantoras-compositoras, ou se continuará a exigir um certo nível de emoções aceitáveis. Mas, por agora, uma coisa é certa. Como Lorde diz na música de abertura de Solar Power, a mensagem que estas artistas exprimem é muito clara: “If you’re looking for a savior, well, that’s not me” (“Se estás à procura de um salvador, não serei eu.”).

Artigo escrito por Cássia Canedo