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Elisa: “Desde pequena que encontro na música o meu conforto, seja por momentos bons, como por maus”

A 24 de março, Elisa estreou-se na Casa da Música com o seu primeiro disco: “No Meu Canto”. Depois do concerto “mais acústico” no Porto, a cantora esteve à conversa com o JUP e recordou o seu berço, a ilha da Madeira e levou-nos aos bastidores da sua carreira, passando pelo Festival da Canção e pelo processo de criação artística do álbum. Agora, o mundo ouve as suas músicas que tocadas entranham-se na alma e abraçam-nos o coração.
Por Sara Arnaud

Mesmo no cento do palco da Sala 2 da Casa da Música, um girassol parecia crescer em torno do microfone. O espetáculo iniciou-se ao som da pianista e do guitarrista que deram o mote para a primeira música. Elisa começou a (en)cantar, antes de subir ao palco, o tema “Parva” que logo captou o público e arrancou-lhes palmas no refrão.

Foto: Ângela Pereira

“A cidade do Porto tem uma mística diferente, tem muita arte, mas sem o dizer, é crua”, foi assim que Elisa se sentiu na primeira vez que veio à Invicta. O primeiro concerto de apresentação do álbum, que teve lugar no Teatro Maria Matos, em Lisboa, “foi um espetáculo grande” e contou com a participação de uma ampla banda. Contudo, devido “à beleza do Porto”, Elisa quis retribuir a hospitalidade com um concerto “mais intimista”. Ao som de apenas uma guitarra, um teclado e um ukulele, a voz angelical de Elisa agigantou-se e tocou no coração dos portuenses.

A Casa da Música foi o ponto e Elisa se alguma vez se sentiu perdida, encontrou-se aqui. Por entre as atuações, a cantora explicou que o nome do álbum “No Meu Canto” tem um duplo sentido: o “canto” refere-se tanto ao local onde florescem as suas músicas, a cabeça, como à sua personalidade, por vezes, mais recatada. Na noite de quinta-feira, Elisa sentiu-se no seu canto e partilhou-o com quem se sentou para ouvir. “Genuíno” é a palavra que resume o disco, “é como se fosse uma vida”, rematou.

O concerto, que já roçava as linhas da perfeição, engrandeceu-se com a presença de Tainá e Tomás Adrião. Sem desviarem o olhar uma da outra, Elisa e Tainá entregaram-se à música que as uniu, num dueto onde transbordou cumplicidade. Tomás Adrião e a sua guitarra juntaram-se a Elisa e ofereceram ao público mais um momento único. O guitarrista e a pianista abandonaram o palco e ficam apenas os dois músicos a aquecer a sala da Casa da Música.

A emoção encheu a sala quando Elisa interpretou a música de Luísa Sobral, “Se Não Me Amas”. A voz da artista, num ambiente agora mais emotivo, foi ganhando força e arrancou tanto lágrimas, como aplausos avultados do público que passou a inspirar a alma de Elisa.

Durante todo o concerto, Elisa recordou a Madeira e transformou o amor em palavras. Com “Na Ilha” fez o público viajar pelas suas raízes. Aqui, não canta para o público, mas com ele. “O Norte é frio? Não parece, estou a sentir muito calor humano”, disse a artista, salientando que gosta que o público faça parte do momento, “a partir do momento que compram o bilhete já fazem parte do concerto”, explicou.

Elisa colheu a oportunidade de construir as capas dos seus singles e do álbum. Esta mão artística serve para complementar as músicas e mostrar a sua forma de ver o tema: “acho interessante as pessoas verem qual é o meu ponto de vista em relação a um tema. Desenho tanto quanto canto”. Por exemplo, “Na ilha”, a capa é a vista do mar da vila e da casa onde cresceu, “é uma forma de deixar as pessoas mais embrenhadas na mística e no ambiente da canção”, afirmou.

A corrente sonora desaguou no mar da eternidade com as músicas mais conhecidas da cantora. Mais uma vez o público acompanhou Elisa ao som de “Coração”, tema que fez parte da banda sonora da novela “Bem Me Quer” da TVI.

A natureza é uma fonte de inspiração para a artista: “todos os artistas vão buscar coisas das suas raízes. É também uma forma de trazer o meu eu genuíno à música e, se não for dessa forma, acho que não deve ser feito”. Também faz da arte o seu porto de abrigo: “Desde pequena que encontro na música o meu conforto, seja por momentos bons, como para os maus. É a música a pessoa a quem eu me viro e a quem eu vou buscar esperança”.

Por fim, e como seria de esperar, a cereja no topo do bolo foi a “Medo de Sentir”, canção com que Elisa ganhou o Festival da Canção em 2020 e que representaria Portugal na Eurovisão, caso não fosse cancelada devido à pandemia. Elisa diz-se “grata” pelo festival, onde “aprendeu imenso” e fez “grandes amizades”. Para a artista, vencer “foi o realizar de um sonho”. “Ao mesmo tempo tenho medo que se estiver sempre a olhar para o prémio que vá pensar «Ok, já ganhei o festival, não tenho de mexer mais uma palha»”, confessou.

Foto: Ângela Pereira

Elisa, que continua a estudar na Escola Superior de Música de Lisboa, ganhou asas e voou no mundo dos concertos, que agora têm sido uma prioridade. “A altura dos concertos é a mais complicada de conciliar, é óbvio que uma das coisas vai ter de ceder, e, neste caso, é a escola”, explicou a jovem de 22 anos ao JUP. Acrescenta ainda que vê os concertos como um “projeto extra”.

No final do concerto, o discurso familiar de Elisa, a música, as luzes, o girassol, o ukulele, uma plateia quase cheia, fizeram da Casa da Música um espetáculo amistoso e reconfortante. A viagem tenra pelos palcos, ainda a apalpar terreno, é ofuscada pela naturalidade de Elisa, como se já tivesse cantado noutra vida. Sem medo das luzes da ribalta, a cantora é capaz de decidir o que quer realizar e ser, apenas Elisa, nascida do sol e criada junto ao mar, como um girassol.

Artigo escrito por Sara Arnaud