Cultura

The Lost Daughter: O Tema de Leda

"The Lost Daughter" é um filme que chegou recentemente às salas de cinema, e é uma criação da promissora realizadora Maggie Gyllenhaal. Um drama psicológico baseado no romance "A Filha Obscura", que pode ser encontrado na coletânea de romances publicada pela Relógio d'Água: "Crónicas do Mal de Amor". Por Margarida Inês Pereira.

Quando colocamos os olhos no grande ecrã, somos logo confrontados com uma música sonante, com caráter e ritmo, ao mesmo tempo simples e misteriosa, que marca o tema de Leda. O tema de Leda aparecerá em momentos-chave da narrativa, de modo a demonstrar a centralidade da personagem e a sua densidade psicológica. Partindo da música, sem ouvirmos uma única palavra, percebemos logo com que tipo de pessoa vamos lidar e quem poderá ser Leda Caruso, a mulher só e enigmática em torno da qual gira esta história.

Leda está de “férias para estudar” na Grécia: é professora universitária e traduz poesia inglesa para italiano, ao mesmo tempo que estuda e leciona Literatura Comparada. Tem e sempre teve grandes aspirações, e tudo o que quer é poder passar tempo sozinha para poder estudar com calma. Não está interessada em ter grandes conversas com quem quer que seja e o barulho que os veraneantes fazem na praia incomoda-a.

Frame de “The Lost Daughter”

A praia é um espaço pequeno.  Por isso é difícil não reparar nas pessoas que a frequentam todos os dias, assim como nos seus hábitos por vezes invasivos. Desde logo Leda interessa-se por uma jovem mãe, Nina, pela sua irrequieta filha Elena, e a sua boneca maltratada e suja. Não consegue evitar lembrar-se do seu “eu” passado: mãe jovem com duas filhas pequenas, Bianca e Martha. 

Lembra-se de si, mais nova, a tentar estudar e escrever artigos, com duas filhas que nem sempre tornavam a tarefa fácil. Especialmente Bianca não lhe dava tréguas, porque “parece ter reunido tudo o que nela havia de mal só para a castigar”. Aqui podemos facilmente fazer o paralelismo entre “A Filha Obscura”  e “A Amiga Genial”, de Ferrante: claramente Leda Caruso, apaixonada pela literatura e língua italiana, é Elena Greco, a escritora esforçada que estudava latim e procurou sempre atingir o italiano irrepreensível. Bianca e Martha são as filhas de Elena, Adele e Elsa Airota. Bianca é em tudo semelhante a Adele, que também sempre demonstrou animosidade para com a mãe desde cedo. Já Martha é Elsa, que sempre foi a mais dócil.

Poderíamos dizer que Nina era Lila, mas as suas únicas semelhanças são a beleza, o facto de se terem casado muito novas com um homem que não amavam, e a pertença a uma família mafiosa, conhecida na ilha por ser “um grupo de más pessoas”.

Frame de “The Lost Daughter”

No fundo, esta história assemelha-se à série napolitana em certos aspetos, nomeadamente no que toca à boneca suja da filha de Nina. É, tal como a boneca de Lila, uma boneca maltratada. Uma boneca que lembra Leda da sua boneca de infância, uma boneca bem tratada como era a de Elena Greco. A boneca de Leda é partida numa discussão com Bianca, o que prova o fim do vínculo de Leda com a sua própria infância. Talvez seja isso que a leva a roubar a boneca suja e maltratada, talvez funcione como uma tentativa de recuperar aquilo que perdeu e deixar de ser ela mesma uma filha perdida. É uma forma de se redimir das suas ações como jovem mãe que já não aguentava toda a responsabilidade que lhe era exigida.

No final, quando Leda restitui a boneca de Nina e revela que a roubou, há claras semelhanças com o momento em que Lila devolve as bonecas a Elena, revelando que as tivera todo aquele tempo. Esse momento, à semelhança do que se passa em “A Amiga Genial” marca o término da relação entre Leda e Nina, e a personagem principal faz finalmente as pazes consigo mesma.

Este filme promete emoções fortes, incríveis paisagens e uma banda sonora inesquecível. É um filme para quem procura compreender as dificuldades da maternidade e da pressão exercida sobre mulheres.  Fica claro que nada no mundo é “preto no branco”, ou “somente bom ou mau”, especialmente no que toca à complexidade das emoções humanas.

Quem pode julgar os outros sem antes ter sido colocado numa situação semelhante?

Artigo escrito por Margarida Inês Pereira