Crítica Cultura

“Acabar com Eddy Bellegueule” e uma França distante dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade

Um dos autores franceses mais bem sucedidos de sua geração, Edouard Louis utiliza experiências pessoais para construir uma obra que examina questões de sexualidade, preconceito, desigualdade, violência e uma França contemporânea muito distante daquela dos cartões postais. Por: Thiago Medeiros

Apesar de estar a pouco mais de duas horas de carro de distância da capital de seu país, para o pequeno Eddy, francês nascido e criado na região da Picardia, a afetação da imponência e riqueza parisiense são um lugar distante e inacessível. Onde ele vive, os conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade são abstrações dos livros de História. Não há liberdade para manifestar seus desejos e talentos, a falta de igualdade se revela no frio sem calefação, na mesa de refeições limitadas; e a fraternidade é expressada através dos cuspes no rosto que recebe dos companheiros de escola.

Publicado em Portugal com o título “Acabar com Eddy Bellegueule” pela Fumo Editora, Édouard Louis faz um relato em primeira pessoa tão incômodo quanto poderoso, pela austeridade com que é construído, de uma França esquecida. O romance autobiográfico traz ao leitor a infância pobre de Eddy em um meio operário ferido pela miséria, abandonado e marcado por valores retrógrados, que rejeita e agride quem escapa à imposição de uma certa maneira de existir.

Eddy está naquele momento delicado de descoberta da sexualidade e tem o infortúnio de passar por essa fase num ambiente de intolerância. É através de alguma ordem de violência que as relações se articulam. Em um trecho, Louis diz: “Eu não sei se os garotos do corredor [da escola] teriam classificado seu comportamento como violento. No vilarejo os homens nunca usavam essa palavra, ela não existia no seu vocabulário. Para um homem, a violência era algo natural, evidente.”

Foto retirada do Instagram de Edouard Louis

É neste espaço de violência tão instalada no modo de funcionamento das pessoas que Eddy precisa sobreviver. Mas o que é esta França que o livro situa entre a virada dos anos 90 para o início dos anos 2000? A falta de perspetivas, o Estado de bem estar social que parece não alcançar estas pessoas, a disputa de espaço com aqueles que vêm das ex-colônias francesas também em busca de uma possibilidade de sobrevivência e dignidade, transformam o livro no retrato assombroso de um país que, negligenciado, acaba por virar um caldo para a ascensão da extrema-direita.

A violência sofrida por Eddy/Edouard é um quadro sintomático das forças reacionárias e das insatisfações populares sobre as quais a França tem se equilibrado nos últimos anos.

O autor já manifestou em algumas ocasiões o apoio aos movimentos dos “coletes-amarelos” em seu país, como uma manifestação de cidadãos franceses que não são contemplados pelo debate público e pela mídia; ao contrário, são condenados e ridicularizados por especialistas e políticos.

Primeiro romance do autor, foi publicado em 2014, quando tinha pouco mais de 20 anos. “Acabar com Eddy Bellegueule” pode até deixar escapar a inexperiência de estilo, mas compensa com vigor narrativo na construção da realidade devastadora de uma população esquecida num dos países mais ricos do mundo e é, acima de tudo, um alerta vermelho sobre as consequências da violência e da miséria.

Artigo escrito por Thiago Medeiros