Crítica Cultura

Glória: o sucesso está no nome

Resultado de uma produção entre SPi e a RTP, Glória é a primeira série portuguesa original a chegar à plataforma de streaming Netflix. É um thriller de espionagem e ação, que nos envolve não só pelo mistério, mas que nos transporta numa viagem temporal, pela altura em que os extremismos nunca caíram em desuso. Por: Mafalda Barbosa

E se fôssemos até ao Ribatejo e questionássemos os habitantes pelos espiões da CIA e do KGB que por ali passaram? Referíamos ainda os tempos da Guerra Fria, em que mesmo por detrás da Cortina de Ferro, era Portugal que mantinha uma fachada de poder imposta. Era bem provável que apelassem à nossa loucura, mas a prova é visual e pode chegar a mais de 190 países e a mais de 213 milhões de casas em todo o mundo. Chama-se Glória e constitui uma marco no meio audiovisual português. Não, não é uma novela. Está na televisão, mas não é só na portuguesa.

A história passa-se durante o Estado Novo, tempo de Portugal camponês e analfabeto, em que se enchiam os bancos, mas esvaziavam-se as casas, deixando mães sem filhos e mulheres sem marido. Contudo, é o confronto internacional que dá origem à ação principal: uma ação que transcende a monotonia da vida do campo. É na pequena aldeia da Glória que está localizada a RARET – “RA” de rádio e “RET” de retransmissão – um centro americano de transmissões radiofónicas que tinha como principal objetivo partilhar discursos de exilados no lado de cá da barricada vermelha e espalhar a mensagem dos países do ocidente.

A personagem principal, João Vidal (Miguel Nunes), é a caricatura do herói romântico da atualidade. Filho de um membro do governo de Salazar, o foco principal da história vai permanecer na colisão de doutrinas antagónicas às da sua família e na luta pelo pensamento que lhe vai na alma, que pertence também ao outro lado da Cortina. Assim que retorna de África, fortemente magoado pela guerra, João é recrutado pelo KGB e obrigado a realizar uma série de missões vermelhas, dentro e fora da RARET.

Numa eterna batalha consigo mesmo e em permanente rejeição do mundo em que habita, Vidal atrai-se rapidamente por Carolina (Carolina Amaral), a empregada do bar da estação de rádio. Trata-se de um amor genuíno e puro, sem infantilidade política. A relação entre ambos é um escape das variadas cores que pintam os discursos na pequena aldeia, o que o torna desde logo impossível.

Contudo, também os dramas que transcendem a vida de João ajudam a pintar melhor o retrato de Portugal no final dos anos 60. Desde a violência doméstica, a soldados perdidos em guerra ou a frieza de ruas dominadas pela PIDE, todo o quadro ficcional fica fortemente marcado pela crueza da realidade.

Fotografia: Netflix

Ganhando o título de série portuguesa com o maior orçamento de sempre, havia grande expectativa para que esta produção entre a SPi e a RTP tivesse apostado num grande investimento em pormenores – e que os mesmos fossem visíveis. Este é um dos outros grandes aspetos a sublinhar. Apesar dos estúdios antigos da RARET estarem em estado deplorável, a recriação dos mesmos foi pensada ao pormenor, bem como o bairro em que habitam os trabalhadores, que foi filmado no local original, alternando entre quatro habitações.

O arquétipo das antigas casas “à americana” são uma verdadeira cápsula do tempo.

Embora a presença de grandes nomes, como Albano Jerónimo, Vitória Guerra, Joana Ribeiro, entre outros, são os pequenos que fazem da série gloriosa. No papel que é provavelmente o mais importante da sua carreira, Miguel Nunes confere uma aura misteriosa ao longo de todos os episódios, deixando-nos a questionar constantemente quem é de facto o pior vilão – numa narrativa onde podem existir diversos.

É uma série de eventos ficcionados, mas as personagens possuem nome e corpo real. Viveram uma situação única no nosso país que poucos de nós conhecem, nos ecos de uma guerra que não sabíamos ter congelado as nossas próprias solas.

A novidade deste tipo de projetos no panorama televisivo português são a desculpa perfeita para deixarmos de acreditar que no nosso país não existe conteúdo de valor e que o investimento não é necessário. Está aqui a prova de que não precisamos de 300 episódios para ficar de barriga cheia – mastigar apenas 10 de qualidade dá-nos vontade de querer muito mais.

Artigo da autoria de Mafalda Barbosa