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“No Time to Die” não nos deu o Bond que queríamos, mas o que precisávamos

O JUP teve a oportunidade de marcar presença na antestreia internacional de "No Time to Die", o novo filme do mítico agente 007, naquela que é a última vez que Daniel Craig representa este papel.
Por João Paulo Amorim.

Quanto mais críticas de cinema ia lendo ao longo dos anos, mais aversão ia desenvolvendo à redução de obras de arte a meras estrelas, mas posso afirmar que as reviews que começam agora a surgir e que atribuem a pontuação máxima a “No Time to Die” são mais do que justas. Os dois anos de espera e os múltiplos adiamentos valeram a pena.

Admito que passei estes dois anos com uma sensação de receio. Sensação essa que se prolongou até pisar a sala de cinema e sentar-me na cadeira. Tinha medo de que este filme fosse um insosso “mais do mesmo”. Ainda por cima, sendo o último de Daniel Craig, um final digno e de qualidade era quase obrigatório como forma de homenagem ao percurso do ator. Era preciso fechar esta etapa com chave de ouro.

Para os fãs de “007”, não se preocupem: a essência permanece. O filme tem tudo o que se pretende. Há o incontornável vilão, os clássicos gadgets e Aston Martin’s, as mulheres provocadoras e os fatos acabados de passar a ferro. As cenas de perseguições são marcantes e colam-nos ao ecrã (é um filme que merece ser visto numa sala de cinema), como se fôssemos nós a estar dentro dos carros, fazendo-me relembrar a perseguição de Itália em “Quantum of Solace”. Os locais de gravação também ajudaram – as longas estradas e o nevoeiro da Noruega são tão bem esmiuçados como as ruelas italianas apaixonantes.

O diálogo é equilibrado, misturando drama, ação e puro humor britânico sarcástico numa combinação perfeita. A complexidade psicológica das personagens é levada ao limite. O filme principia com horror macabro e encerra com emoção de fazer chorar até os mais duros. Não há demasiados beijos apaixonados nem demasiados pontapés.

Pode não ultrapassar o nível de “Skyfall” ou “Casino Royale”, mas “No Time to Die” é muito mais marcante e bem elaborado do que “Spectre” ou “Quantum of Solace”. A cinematografia está lá, com os pormenores e a beleza, e o casting foi certeiro. Aliás, como não poderia deixar de ser quando se conta com estrelas com o charme de Daniel Craig, o camaleónico Rami Malek, a estrela em ascensão, Ana de Armas, ou o veterano Christoph Waltz. Sem deixar de lado, claro, Léa Seydoux, Jeffrey Wright ou Rory Kinnear.

“No Time to Die” não nos deu o Bond que queríamos, mas o que precisávamos. Esta longa-metragem é o murro inesperado no estômago, cheio de emoção e honestidade, que a audiência necessitava. Craig representa agora o papel de um herói mais humano, que tem lacunas e que é, por vezes, relegado para segundo plano. Um homem que já compreende melhor o sexo oposto e até vai mais além do que isso. O ator parece tirar gozo do seu último filme como “007”, também por ser o seu último.

O próximo filme desta franchise não terá que seguir obrigatoriamente as regras impostas pelas vontades repentinas de Hollywood, nem as opiniões exageradas da nova geração. O futuro é agora incerto, servindo como certificado de qualidade de Craig. Quem for escolhido como seu sucessor, vai mostrar quão dispostos estão os produtores a seguir em frente. Uma escolha segura vai sempre satisfazer os desejos dos clássicos fãs de “007” e uma escolha radical vai estar sempre longe de consensos. O que este filme nos provou é que é possível manter a essência de forma inovadora, e até arrojada, sem fazer com que o filme se transforme numa obra de museu.

No fundo, “No Time to Die” representa um final perfeito num adeus emocional e justo a Daniel Craig, que, certamente, sai de cena a contrariar as críticas aquando da sua contratação. Ou seja, como um dos melhores atores que já tiveram a sorte de representar o mítico agente 007!

Artigo da autoria de João Paulo Amorim