Crítica Cultura

JUP Baú: De volta ao mundo de “hopeless fountain kingdom” de Halsey

Com o esperado quarto álbum conceitual de Halsey – "If I Can’t Have Love, I Want Power" – quase a chegar, vamos revisitar o seu épico e único segundo disco "hopeless fountain kingdom", onde uma história trágica de amor afirma o palco central.

Lançado em 2017, hopeless fountain kingdom (muitas vezes abreviado para HFK) é o segundo álbum da artista norte-americana Halsey. O disco continua o carácter conceitual dos seus discos (desencadeado primeiramente pelo seu álbum de estreia, Badlands), contando uma história complexa e intrigante, fortemente influenciada pela famosa peça de Shakespeare, Romeu e Julieta, e especialmente pela sua versão cinematográfica da autoria de Baz Luhrmann(1996).

Tal como a obra, o álbum conta a história de duas personagens, Luna e Solis, que pertencem às opostas casas de Aureum e de Angelus, respetivamente (à semelhança dos Montecchios e dos Capuletos da tragédia shakespeariana), que desejam tanto se apaixonar “que estão dispostos a mudarem para o seu amor e, ao fazerem isso, deixam as suas versões reais morrer”, afirma Halsey, numa entrevista à iHeartRadio.

Apesar do carácter fantasioso do álbum, a história baseia-se numa experiência real da artista enquanto escrevia o disco: o fim de uma relação.

Halsey refere numa entrevista dada à Apple Music que a situação foi hiperbolizada e “amplificada neste universo paralelo” para, de certa forma, “tentar mostrar a todos como [sentiu] aquilo naquele momento”, sendo que,embora fosse apenas uma separação normal, parecia o fim do mundo”.

“The Prologue” abre o álbum, começando logo com a proclamação do prólogo original de Romeu e Julieta, com um coro e um instrumental que relembram a época medieval, passando depois para uma parte com vozes mais metálicas, onde a artista afirma ser «a child of a money hungry, prideful country». De certa forma, os sons e harmonias até antitéticos desta faixa introdutória demonstram que a narrativa contada ao longo de todo o álbum junta elementos da história clássica de Romeu e Julieta e também os adapta para torná-la mais atual, introduzindo o ouvinte com sucesso ao mundo e à história trágica de hopeless fountain kingdom.

Chega a vez de “100 Letters” e de “Eyes Closed”. Com uma percussão dinâmica e agradável, a primeira música apresenta a mesma função que a faixa inicial na medida em que, basicamente, faz spoiler da conclusão da história, isto é, o fim da relação – «But i don’t let him touch me anymore» –, tal como no prólogo da obra shakespeariana. Assim, é uma faixa forte tanto do ponto de vista da letra, como do da produção musical.

“Eyes Closed” continua com um som mais calmo, protagonizado pela guitarra presente em quase toda a música. Co-escrita por The Weeknd – facto que se denota logo na melodia –, esta faixa apresenta um tom mais sensual e misterioso, com influências RnB e batidas mais urbanas, abordando o facto de Halsey, ou a personagem que representa, Luna, trocar o seu amado por outra pessoa, embora ainda pense nele.

Halsey a representar a personagem Luna. ©Astralwerks/Brian Ziff

Entretanto, surgem duas músicas que se encontram lado a lado na lista de faixas e que abordam o mesmo tema: uma grande festa em casa da Luna, criando um paralelismo com o baile de máscaras na história original de Romeu e Julieta.

A primeira destas faixas, “Heaven In Hiding”, representa a primeira perspetiva dessa festa, abordando um amor “proibido”, que é escondido, como ocorreu com Romeu e Julieta. É uma música entusiasmante com um instrumental impactante e letras cheias de personalidade e a transbordar de luxúria e desejo.

Posteriormente, surge “Alone” que serve de segunda perspetiva relativamente a esse evento. Nesta faixa, Halsey explora o facto de se sentir sozinha mesmo rodeada por várias pessoas e de que, na vida real, não se assemelha à imagem da artista representada pelos media ou a que as pessoas têm de si, ecoando a honesta frase: «I know you’re dying to meet me/But I can just tell you this/Baby, as soon as you meet me/You’ll wish that you never did». “Alone” junta um som retro, graças à utilização de um sample da música “Nothing Can Stop Me” de 1976, com um mais moderno e eletrónico, especialmente no refrão.

A recorrência a estes elementos musicais antitéticos, juntamente com uma melodia deliciosamente satisfatória, torna esta (“Alone”) uma das músicas mais fortes e intrigantes de todo o álbum.

Segue-se “Now Or Never”, o single principal de HFK, cuja letra explora os problemas na relação amorosa dos protagonistas da história do álbum, Luna e Solis. Embora seja um pouco repetitiva e mais genérica do que as outras músicas do álbum, esta faixa destaca-se pelas suas notáveis influências RnB.

Depois é a vez de “Sorry”, uma balada de piano com letras vulneráveis e emocionais em que Halsey aponta as suas falhas (em termos amorosos) e pede desculpa às pessoas com quem recusou ter uma relação: «So I’m sorry to my unknown lover/Sorry that I can’t believe/That anybody ever really/Starts to fall in love with me».

Com apenas um piano como pano de fundo, é nesta faixa onde a voz suave e angelical de Halsey brilha.

“Good Mourning” dá início à segunda parte de hopeless fountain kingdom. Com uma narração feita pelo irmão mais novo de Halsey acompanhada de uma caixa de música e a repetição da frase «Sun is coming up oh, why», este interlude evidencia um tom mais otimista e esperançoso, marcando uma mudança na narrativa de HFK.

O interlude flui brilhantemente para “Lie”, uma faixa com instrumentais e vozes mais poderosas e emocionais e que conta com a participação do rapper Quavo, onde a artista pede ao seu amor para mentir em vez de dizer que já não a ama. Para além disso, destacam-se subtis referências a faixas anteriores, como “100 Letters” e “Heaven In Hiding”, demonstrando a conexão entre todas as músicas e a própria narrativa.

Segue-se “Walls Could Talk”, que apresenta um dos instrumentais mais dinâmicos e empolgantes de todo o projeto, intercalando violinos clássicos com batidas eletrónicas bastante fortes. Nesta faixa criminalmente curta (nem chega aos 2 minutos), Halsey aborda os problemas e as discussões entre o casal da história de uma forma criativa e cheia de personalidade.

Chega a vez de “Bad At Love”, onde Halsey expõe diferentes relacionamentos (tanto com homens como com mulheres) e o que falhou nestes, admitindo que é “má” no amor e que nunca se apaixonou verdadeiramente. Apesar das letras pessoais e relacionáveis, a produção desta faixa, infelizmente, perdeu um pouco a sua longevidade.

Posteriormente, em “Don’t Play”, a artista canta sobre se sentir confiante e invencível, servindo igualmente de tema musical da casa de Aureum – equivalente aos Montecchios, em Romeu e Julieta –, a casa “má”, rebelde. Com um instrumental que junta uma caixa de música (interligando-se a “Good Mourning” e a “Bad At Love”), que pode representar a (abandonada) inocência da personagem Luna, e batidas extremamente impactantes e com um refrão simplesmente badass, esta faixa é definitivamente um dos pontos mais altos do projeto.

“Strangers” conta com a participação de Lauren Jauregui, ex-membro do grupo Fifth Harmony, e é, desta forma, a primeira música escrita por Halsey onde utiliza inteiramente pronomes femininos. Assim, “Strangers”, com um instrumental eletrónico mais mexido, aborda a relação entre Luna e Rosa (personagem interpretada por Lauren, equivalente à Rosalina de Romeu e Julieta), cujo primeiro encontro provavelmente aconteceu em “Heaven In Hiding”, que acabou por se tornar puramente física e sexual.

Há uma tão palpável química e harmonia entre ambas as artistas que esta música se torna ainda mais memorável e impactante.

Entretanto, “Angel On Fire” e “Devil In Me” demonstram um lado mais pessoal e emocional de Halsey. Servindo como continuação de “Alone”, a primeira música aborda a festa referida nessa faixa e demonstra como a personagem principal, Luna, passou do centro das atenções para a pessoa que se esconde dos outros e que perdeu a sua “chama”, ideia que Halsey também aplica à sua própria vida e carreira. “Angel On Fire” traz um som mais rock ao álbum, o qual, juntamente com referências geniais ao clássico mito de Ícaro para ilustrar melhor a sua “queda”, cria uma faixa intrigante e singular.

Já “Devil In Me” apresenta um instrumental mais discreto e uma letra simples, mas extremamente marcante, onde Halsey/Luna admite ter demónios interiores, comentando ao mesmo tempo o facto de não ser ouvida, ao cantar «But I scream too loud if i speak my mind». Mais uma vez, a artista faz uma referência a Ícaro em «I burnt the candle/Flew too high», demonstrando novamente a interconexão das músicas. Apesar da letra honesta e sentimental, a faixa faz lembrar músicas da Sia, artista que (obviamente) ajudou a escrever, não soando talvez tão genuína como as restantes faixas.

O álbum termina com “Hopeless”, uma música com produção da autoria de Cashmere Cat extremamente diferente do resto do álbum. Em primeira escuta, parece uma faixa um pouco sobrecarregada com demasiadas harmonias de vozes robóticas. No entanto, vai crescendo quanto mais se ouve. Halsey fecha a narrativa de HFK com uma letra mais introspetiva, recordando um relacionamento e, simultaneamente, desejando que a sua visão face à desesperança altere (tal como é abordado em “Good Mourning” onde considera a possibilidade de esta ser apenas um estado de espírito e não um “sítio”, sendo, assim, algo que não é infinito ou imóvel e que pode ser ultrapassado): «I hope hopeless changes overtime».

Hopeless fountain kingdom não é apenas um álbum, mas sim uma bela e trágica história de amor contada ao longo de 16 músicas, todas interconectadas, com variadas influências musicais. É simplesmente extraordinário como um disco tão diverso e, ao mesmo tempo, tão coeso consegue não só levar os ouvintes a encaixarem as “peças” da narrativa, através das inventivas referências em todas as músicas, como também perceber a relação que cada letra e faixa tem relativamente à vida real da própria artista. Assim, este álbum demonstra genialmente o poder da música como “contadora de histórias”, algo que nunca tinha visto (neste caso, ouvido) tão bem representado e que tivesse um resultado tão bem sucedido.