Cultura

Jup Baú – Kanye West: The College Dropout

Na véspera do aguardado décimo álbum de Kanye West, "Donda", fazemos uma viagem ao passado e recordamos a sua estreia de 2004, com o aclamado "The College Dropout".
Artigo por: Roberto Saraiva

Em 2004, Kanye West fazia a sua esteia discográfica com The College Dropout. O álbum autobiográfico do rapper, também ele um “college dropout”, revelou-se num ecletismo musical, onde se fundiam estilos como o hip-hop e o chipmunk soul.  Nomeado para os Grammys de 2005 para melhor álbum do ano e melhor álbum de rap, o início da carreira de West revelava-se bastante promissor.

Embora a coletânia de músicas não tenha nenhum tema politicamente equivalente ao “Diamonds from Sierra Lione”, do Late Registration (2005), existem afloramentos daquilo que é o conscious rap, e a abordagem de temas como o racismo institucional. O próprio rapper, originário de Georgia – terra de Martin Luther King, mas também palco da segregação imposta pelas leis de Jim Crow – reflete sobre o seu passado, e o da América, em várias canções.

Em “Never Let Me Down”, o artista recorda, e ao mesmo tempo reafirma, a herança dessa época quando nos diz: “I get down for my grandfather / Who took my mamma /Made her sit in that seat /Where white folks aint want us to eat”. Ele prossegue a recriar essa memória, e a prisão do seu avô, e da sua mãe, por participarem nos “sit ins” – manifestações pacíficas em que os negros se sentavam e recusavam a abandonar lugares que a segregação não permita que ocupassem – e conclui que devido a esse episódio ele nasceu para ser diferente.

A diferença assume-se não só perante o panorama étnico-racial da América, mas também no panorama cultural do mundo rap. Em “The College Dropout”, o Kanye West consolida-se como um artista completo, mas também consolida o chipmunk soul e inicia o caminho para a consolidação do maisntream rap, alterando o panorama de um género marcado até então pela prevalência do gangsta rap. Aborda temas que pautam toda a sua carreira, como a sua religião ( “Jesus Walks”), a relação com a sua mãe (a quem viria a dedicar um álbum, várias vezes adiado), ou as memórias que possui do avô (como no verso citado de “Never Let Me Down”), ou o racismo institucional vivido na América.

Para além disso, o álbum é uma verdadeira junção de estilos e explosão de sentidos, onde o hip-hop se funde com o classicismo, e as rimas do Kanye se fundem perfeitamente com a melodia que as rodeia. Desde o coro do refrão do “We Don´t Care”, passando pelas declarações cómicas da Lasandra do “New Workout Plan”, e acabando nas últimas rimas do “Last Call”, que nos surgem como uma confissão feita pelo rapper em que nos relata não só o seu percurso, mas também a sua árdua afirmação na indústria. O “The College Dropout” é uma verdadeira odisseia musical e Kanye o grande herói desta epopeia.

Artigo por: Roberto Saraiva