Cultura

“A Amiga Genial” – Só nos romances feios se diz sempre a coisa certa

Uma reflexão sobre a tetralogia "A Amiga Genial", de Elena Ferrante. Uma sucessão de livros que nos prende desde a primeira à última página e nos envolve no seu mundo violento e cheio de significados ocultos. Leva-nos por locais de Itália que realmente existem, como a ilha de Ischia, e que lembram a beleza do verão. Isto explica o porquê de a obra ter levado ao aumento do número de viagens a Nápoles: os leitores querem conhecer a Nápoles que tanto os cativou.
Este é um artigo destinado a quem já tenha lido a obra na totalidade, pois nada substitui a surpresa que é ler um livro pela primeira vez, sem ter previamente opiniões formadas.
Artigo por: Margarida Inês Pereira

Elena Ferrante é um êxito a nível mundial. Os americanos lamentam que ela não tenha nascido na América, que normalmente é o país dos best-sellers, mas o facto de ter nascido em Itália leva-nos a toda uma atmosfera por nós desconhecida, feita de pessoas com um temperamento volátil e imprevisível, como o da própria natureza e dos vulcões adormecidos, como o Vesúvio.

“A Amiga Genial” leva-nos pelas ruas de um bairro pobre em Nápoles, onde nascem pessoas que criam naquelas pequenas ruas e casas sem condições todo um microcosmos e uma dinâmica que acaba por se estender até às ruas mais importantes e ricas da cidade. O bairro é dominado por famílias de camorristas e usurários, que se dedicam a deter todo o monopólio do comércio das ruas, e têm o poder de lançar novos projetos no mercado por causa da sua influência. Inicialmente, o bairro é dominado por Don Achille Carracci, que acumulou toda uma fortuna a destruir vidas, como a de Nicola Peluso, um carpinteiro comunista que viu a sua loja de carpintaria a ser transformada na charcutaria Carracci. Para Elena e Lila, as duas amigas em quem se centra toda a obra, o que aconteceu no bairro e no mundo antes de nascerem é abstrato; para elas, não houve um antes. Apenas sabem que Don Achille é um homem perigoso e que se devem afastar dele, mas não entendem porquê.

Frame da adaptação em série de “A Amiga Genial” (HBO)

No entanto, um dia, quando Elena e Lila brincam na rua com as suas bonecas, Tina (a boneca de Elena, de plástico) e Nu (a boneca de Lila, de trapos), Lila pergunta a Elena se podem trocar de bonecas. A primeira coisa que Lila faz é atirar a boneca de Elena para uma cave escura, o que a princípio a choca. Esta, por sua vez, atira também a boneca de Lila, dizendo-lhe “Aquilo que fazes, faço eu”. Concordam, portanto, em ir  buscar as bonecas à cave escura e medonha, mas não as encontram. A decisão final é a de Lila, que diz que foi de certeza Don Achille quem roubou as suas bonecas. O momento que marca a infância das duas e as mantém para sempre ligadas é, segundo Elena (a narradora desta história) o momento em que Lila lhe agarra na mão para subir as escadas, para irem bater à porta de Don Achille. Para Elena, isto é inédito: não sabe se Lila lhe dá a mão por medo e para ter coragem, ou se para lhe dar coragem e a confortar. Seja como for, não é um gesto habitual em Lila, uma rapariga agressiva e violenta a maior parte das vezes, normalmente incapaz de um gesto de carinho. Lila intimidava todos na escola primária com a sua inteligência e capacidades fora do comum, como saber ler sem ter sido ensinada e fazer contas de cabeça. Elena era igualmente boa aluna, mas era-o sem constituir para as outras crianças uma ameaça: em relação a Lila estava sempre em segundo lugar, e, por isso, desde muito cedo a sua amizade é marcada pela competição. É Lila quem dá a motivação a Elena para viver e fazer todas as coisas a que está destinada, e por muito tempo se pensa que é Lila a amiga genial.

Uma vez em casa de Don Achille, Lila confronta-o e pede-lhe para devolver as bonecas roubadas. Em vez disso, Don Achille oferece-lhes dinheiro para comprar novas bonecas. Mas Lila e Elena compram um romance, “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott.

O leitor logo percebe que o episódio das bonecas, logo narrado no primeiro volume, tem um significado muito além do que uma simples perda de um brinquedo. Na verdade, apenas no quarto volume se entende o que tudo isto significa: as bonecas são uma espécie de presságio, são uma representação da própria Lila e Elena. A sua perda simboliza uma criança perdida, um acontecimento em que a verdade toda nunca se saberá. O facto de ambas as bonecas se perderem ao mesmo tempo denota o vínculo entre Lila e Elena: depreende-se que, enquanto as bonecas estiverem perdidas, a amizade durará, aquele acontecimento será o que as une.

Mas quem será aqui a criança perdida: Lila ou Elena? A resposta correta é Lila, porque, apesar de ser uma criança extremamente dotada, foi proibida pelos pais de estudar. Dadas as condições de pobreza e falta de recursos (e, ainda, por ela ser uma menina), decidiram que deveria ir trabalhar. Elena, pelo contrário, foi autorizada a continuar a estudar, mesmo que com algumas dúvidas e relutância por parte dos seus pais. Aqui começa o vínculo simbolizado pelas bonecas: a relação de competição, de inveja, que faz com que Elena se supere na escola, lembrando a inteligência de Lila. Pelo contrário, Lila, impossibilitada de poder fazer o que ambicionou desde cedo, perde o gosto por si mesma e vai perdendo o gosto pela vida, procurando viver através de Elena. Como leitora, vejo que os trabalhos de Lila são intermitentes e pautados por conflitos entre famílias, pelo que ela chega mesmo a não trabalhar tanto e de forma tão lucrativa quanto poderia parecer ao início. Por isso, mais valeria mesmo Lila ter estudado, para se livrar de toda a violência e pressão que a família desde sempre nela colocara.

As prisões de Lila começam, efetivamente, com a morte de Don Achille, pela qual é acusado o carpinteiro Nicola Peluso. Lila, no entanto, crê que fora uma mulher que o matara, mas, juntamente com muitos factos da história, este é um dos que nunca se saberá. Isto, no entanto, significa que mudará a dinâmica do bairro: quem detém o poder agora é a família Solara, também uma família de camorristas que, por detrás de uma pastelaria inofensiva, escondem toda a ruína das diferentes famílias. São fascistas e foram apoiantes de Mussolini durante a segunda guerra mundial. Conseguem convencer as pessoas do bairro a votar em quem as arruína, e são eles quem faz ainda prevalecer os resquícios do fascismo durante o pós-guerra. Os irmãos Solara são a representação do homem fascista, que não olha para os direitos das mulheres e se julga em posição de passar por cima de tudo e todos. Por isso, apercebendo-se da beleza e inteligência desperdiçada de Lila, obcecam-se por ela. Marcello acaba mesmo por a pedir em casamento várias vezes, sendo todas as vezes recusado. A família de Lila é favorável a essa união, porque lhes resolveria todos os problemas financeiros. Mas Lila odeia os Solara. A sua única saída é casar sem amor, aos dezasseis anos, com o filho de Don Achille, Stefano Carracci.

O casamento é realmente uma prisão dourada: Stefano, na verdade, colabora com os Solara que Lila tanto despreza e é um marido violento. As palavras de Lila não menos violentas são, mas as reações de Stefano provocam o medo e o nojo do leitor mais sensível.
Enquanto isso, Elena vive uma vida por vezes solitária (como a de qualquer estudante), mas mais livre. Ela consegue, apesar de ter algumas desilusões, experimentar o amor de uma forma mais espontânea e menos comprometida, mais própria da sua idade. As cenas de Elena nos pauis invocam toda uma adolescência, toda uma rapariga que escreve sem reservas e que nos parece extremamente humana. Já Lila mete-nos medo, só as palavras de Elena no-la tornam mais compreensível aos nossos olhos. E é curioso, porque Lila raramente se abre com Elena. Elena é que procura justificar todas as suas ações, precisamente porque Lila não é capaz de o fazer, porque não se interessa o suficiente por si mesma.

Capa do livro “A Amiga Genial”

Lila acaba por deixar o marido e trabalha numa fábrica. Elena casa-se com um professor universitário. Têm filhos. “História de Quem Vai e de Quem Fica: Tempo Intermédio” (um belíssimo título, diga-se de passagem) é a história da maternidade, a história de Elena como uma mãe moderna que se torna também uma escritora de sucesso. Elena, com a sua calma, vai vencendo todas as lutas, sem nunca se impor, sem nunca ser extrema ou repressiva, mesmo em situações em que qualquer um o seria.

A vida, no entanto, continua a dar as suas voltas. Lila deixa a fábrica e ganha uma luta de classes. Apercebe-se dos benefícios da eletrónica e da programação e abre uma pequena empresa, a Basic Sight. Elena deixa o marido pela sua paixão de infância e tem mais uma filha. Não tem realmente medo de mudar, e por isso é uma personagem interessante. Não tem medo do que pensam dela e assume todas as consequências. Elena é impressionante por nunca ter tido qualquer medo, nem quando fugiu à escola para ir ver o mar. Sempre se permite viver, e por isso tem a minha admiração. Não tem medo de experimentar, quer com a vida, quer com o amor. Mesmo que não seja sequer a personagem com mais amantes (todos traem os maridos e mulheres na série napolitana; a fidelidade é aqui uma coisa válida só em teoria), admira-me a sua capacidade de arriscar no campo amoroso.

Todo o livro é a forma de Elena contrariar a tendência de Lila para desaparecer e a tornar mais viva na sua memória, mesmo que lhe tenha prometido nunca escrever sobre ela. Sabe-se desde o início que Lila desapareceu aos 66 anos e que Elena entra em competição com ela mais uma vez e escreve aquilo que se lembra da sua amizade. Por aqui se vê também que um dos temas principais do livro é o sentimento de perda, porque Elena sabe que, desta vez, perdeu Lila para sempre. No fim, em “Restituição”, Elena recebe as bonecas perdidas durante a infância: isto fá-la chorar. Afinal, Lila tivera as bonecas durante todos aqueles anos e nunca lho dissera, revelando que pouco ou nada compreendera sobre ela. Devolvê-las é libertar Elena da sua amizade muitas vezes turbulenta, e dizer-lhe que acabou o tempo em que Lila vivia através dela. Que já não há mais a fazer. Isto poderia ser uma possível interpretação, já que Elena conclui, com as bonecas na mão, que agora sim se conforma com nunca mais ver a amiga.

Lila, ao restituir as bonecas perdidas, prova que finalmente se aceitou. Que agora se encontrou, ao fim de tantos anos de inteligência desperdiçada. Agora que a maior parte das pessoas que conhecia morreu, ela pode seguir uma vida só sua, completamente independente, sem ninguém: sem mais pressões para ter dinheiro, sem família, sem namorados e maridos, sem Elena, sem filhos, sem os Solara. E, acima de tudo, sem o leitor. Lila consegue mesmo dizer-nos que já chega de nos imiscuirmos na sua vida e que há coisas dela que nunca saberemos. Lila rejeita o leitor. Confesso que me seria insuportável aturar Lila, mas a verdade é que ela tem razão: só nos romances feios é que as personagens dizem e pensam sempre a coisa certa. Ela é o contrário de um cânone, e, por isso, todo o seu caráter é uma obra-prima. É desconcertante.

Lila repele o leitor com agressividade, não dá nada de si, e zanga-se por pequenas coisas. Zanga-se pela nossa intromissão, pois ninguém nunca a compreenderá (nem ela quer ser compreendida). É dominada pela frustração. Detesta a narratividade, enquanto Elena é nela mestre. Elena abre-se perante o leitor e cria com ele proximidade, o que agrada e conforta. Sentimo-nos compreendidos.

É curioso: só quando Elena percebe que realmente Lila se aceitou e se revelou perante ela com a devolução das bonecas se resigna a acabar a sua história. Agora que Lila se foi e se libertou dela, não tem mais o que escrever e vive o que lhe resta da vida. E deixa o leitor cheio de perguntas que nunca serão respondidas, para as quais nem Elena conhece respostas. Nesta obra, o que domina é o sentimento de perda, e, por isso, é normal não se saber a resposta para todos os acontecimentos: isto porque, na vida real, quando as coisas e as pessoas desaparecem, geralmente nunca sabemos mais nada delas. E não perdemos grande tempo a pensar nisso. É devido a isso que, às minhas perguntas, Lila me responde:

“Vai-te embora, não tens que fazer?”.

E eu digo-lhe:

“Não sei o que viram em ti, são todos por ti fascinados e tu furtas-te a tudo e todos, não gostas de ninguém. Nunca vi ninguém tão amargo e desapaixonado. Mas o que é certo é que muito do que dizes é verdade.”

Frame da adaptação em série de “A Amiga Genial” (HBO)

Artigo por: Margarida Inês Pereira