Crítica Cultura

Visões do Império: uma memória fotográfica dos tempos coloniais

Com que olhos vê Portugal a sua História? O filme de Joana Pontes, "Visões do Império", leva-nos a analisar a nossa História com outro olhar. Será este um olhar nostálgico, de celebração, ou um olhar de repúdio e desilusão? Por: Roberto Saraiva

“Visões do Império” (2020), um documentário de Joana Pontes que pôde ser visualizado há pouco tempo no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Âmbito do Programa de Incursão à Galeria (Ping!), procura desconstruir os mitos e mentiras criadas pela fotografia, esta ferramenta preciosa que neste contexto surge como instrumento de propaganda do colonizador.

O documentário traduz o desenho de um mundo contado pela lente de um português, que cujas memórias nostálgicas se encontram preservadas. Nele revelam-se realidades fabricadas, cenários e planos de ação construídos, mas também memórias felizes e fotografias amadoras. Contudo, o colonizado, a vítima, o(s) negro(s) e a(s) negra(s), aparecem somente como elemento da paisagem, sem história e sem nome.

Em suma, esta memória fotográfica consiste numa série de imagens que mostram o colono nas colónias, mas não a verdadeira realidade vivida nestas mesmas colónias. Por isso, em cada foto encontrada existe também um silêncio por descobrir.

Nesses artifícios do passado, os negros aparecem como acessórios, objetos, criações do colono que deles dispõe conforme a sua vontade. A sua história não faz parte da História. Numa tentativa de encontrá-la, a longa metragem percorre as bancas da Feira da Ladra, as estantes do Arquivo Histórico Ultramarino e conta com a presença de historiadores como Miguel Jerónimo e Filipa Vicente.

Porém, que imagem ficamos nós do regime da altura? Desta época da nossa história que é também partilhada com a história de outros países? Será o documentário suficiente para quebrar o mito (e a ideologia) do bom colonizador?

“Slaves in São Tomé”, 1906, de Alice Harris

A obra “Visões do Império” mostra-nos as diferentes visões do império, incluindo as da fotógrafa Alice Harris (1870-1970). Mas conseguiremos nós encarar essas imagens? Seremos nós capazes de compreender as divisões raciais provocadas pelo Estatuto do Indígena? Talvez o filme não consiga responder a estas perguntas, mas sem dúvida que serve como ponto de partida para o debate que nos aguarda como sociedade civil, como nação, como produtos e produtores da nossa História.

Artigo da autoria de Roberto Saraiva