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João Não: O pulsar dos novos fados

A tradição e as novas sonoridades entram num bar: o resultado é João Não. O cantautor gondomarense tem música a brotar-lhe dos poros e a criação é inerente à sua existência. A voz soa a casa, e é para lá que nos transporta com o novo álbum “terra-mãe”, produzido por Lil Noon. Por Marta Ribeiro

Que papel desempenhou a música no teu desenvolvimento enquanto pessoa?

Honestamente, até certa altura, sinto que foi muito natural e inato. Não consigo propriamente definir esse impacto. Foi algo que sempre fez parte da minha vida. Eu tenho três irmãos e então era fácil ouvir várias sonoridades.

O que despoletou o teu interesse em criar?

Desde miúdo que tinha esse interesse porque era o que via em casa. O meu pai e o meu irmão escreviam, era algo que fazia parte da família. Entrei na área da escrita desde cedo e era esse o meu maior interesse. Foi crescendo em mim e agora é mais natural.

A tua inspiração vem de algum “sítio” específico?

Não, vem de muitos sítios e de muitos impulsos. Às vezes vou na rua, penso em alguma coisa e tenho de anotar no bloco de notas, seja uma frase ou outra coisa qualquer que tenha visto que me inspirou. Eventualmente, acaba por fazer despoletar uma cadeia de ideias. Às vezes gostava que houvesse algo ao qual pudesse recorrer regularmente para ter essa inspiração, mas não.

Consideras-te uma pessoa perfecionista? Como é que isso influencia a tua criatividade?

Não sou perfecionista na maior parte dos aspetos, mas criativamente sim. Se eu não gostar de algo nos primeiros 10% do processo não vou continuar, mas não sinto que seja negativo, pelo contrário. Faz-me ter a certeza que vou apostar numa música que estou a gostar de fazer desde o início. Se não for assim torna-se muito complicado continuar, acabo por ficar bloqueado porque fico a pensar sempre na parte de que não gosto e, quando é assim, prefiro começar de novo. Já aconteceu várias vezes fazer o início de uma canção, não gostar, mas partindo da mesma base, ter outra ideia que já me dá muito mais prazer desenvolver.

Como descreverias o teu processo criativo?

Não é algo que consiga descrever muito facilmente. Desde este último projeto que lancei com o Nuno (Lil Noon) passa muito por ir para estúdio já com uma ideia na cabeça (trabalhei muito mentalmente para o conseguir fazer) e quando chego lá ele também tem alguma coisa preparada para mim e dessa troca vai surgindo tudo. Depois há outra parte, que foi até o que nos atrasou no lançamento deste projeto. Para além do “criar” é preciso desenvolver mais coisas até poder lançar e ainda não estou habituado a isso, tenho muito a aprender.

No futuro imaginas-te a produzir um álbum ou sentes que os melhores produtos nascem de colaborações?

Eu produzi para mim uma vez e de vez em quando tento fazê-lo, mas como já ando a tentar há tanto tempo sem nunca sair do mesmo sítio, é algo que vou deixar para quando tiver mais predisposição para isso. Para ter tempo para aprender melhor e quiçá produzir para mim. Porque quando o fiz não era para cantar, era mais para libertar algumas ideias, mesmo como exercício criativo era estimulante.

Quanto a trabalhar colaborativamente, para mim é melhor porque trabalho sempre com pessoas que estimo e que têm muito talento. Especialmente o Nuno que, para além de ter talento, já me sabe “ler”. Temos uma sintonia, foi assim que começamos a trabalhar. Já me perguntaram se temos algumas influências diretas para o projeto que fizemos. A minha influência direta era ele e a influência direta dele era eu. Eu chegava ao estúdio e dava-lhe o que esperava que ele quisesse ouvir e vice-versa. Portanto, prefiro trabalhar assim porque recebo mais estímulos, não fico tão fechado em mim e acabo por me abrir criativamente.

O álbum terra-mãe é descrito como uma “ode às origens”. Neste ano, em que só queríamos sair de casa, sentes que ficaste mais próximo delas?

Sim, definitivamente. Comecei a trabalhar e estudei longe, e desde que voltei para casa senti muito mais conexão com as minhas origens. O projeto nasceu no verão passado, no tempo que tinha depois do trabalho. Saía de casa, ia ao estúdio gravar e voltava. Foi sempre tudo em Gondomar, pensado, desenvolvido e criado ali. Daí essa “ode às origens”, não podíamos ir muito mais longe. O estúdio fica perto de minha casa, por isso ia até lá a pé e ficávamos por ali.

Sentes que, por seres do Porto, é mais difícil singrar na música e ainda é quase “obrigatório” viver em Lisboa?

 Sinto que, de facto, há mais facilidade noutros sítios. Mas estar aqui também nos permite criar outro núcleo de artistas. Há outro sítio no qual as pessoas já estão mais lançadas logo desde o início por várias questões, geográficas e não só. Aqui, também por causa disso, acaba por se criar um circuito mais próximo. Como sabemos que é mais complicado “saltar” logo, cria-se um à vontade. Não há tanta garantia e isso faz com que haja menos foco no “salto” e mais em manter a qualidade e criatividade.

Qual é a maior diferença entre o João e o João Não?

Nunca tinha pensado nisso. O nome veio de experiências muito próprias e ainda não me pus “lá fora” musicalmente ao ponto de sentir que haja uma divergência em termos de personalidade. Por enquanto sou muito eu. Quando comecei explorava um lado muito mais obscuro, fazia coisas mais pesadas. Mas ao longo do tempo fui polindo algumas arestas e neste momento sou uma versão muito mais romantizada de mim. Se bem que continuo a ter algumas partes mais negras nas minhas músicas, mas claro que isso também é livre de interpretação.

Resumidamente, o João Não é uma versão mais polida e romantizada da minha personalidade.

O que vem a seguir? Há algum projeto em desenvolvimento?

Estou sempre a trabalhar. Por enquanto estou a meio de um projeto com mais pessoas (como já disse tenho sempre alguém a colaborar comigo). Já estava pensado há algum tempo e agora, como já podemos sair de casa, estamos a desenvolver em estúdio, mas não sei quando vai sair. Tenho pensado noutras coisas, mas acaba por ser mais exercício criativo. Não tenho nenhuma ideia concreta, até porque acabou de sair o “terra-mãe”, mas vou continuar a trabalhar até surgir alguma coisa.

Porque é que crias?

Faço isto porque, não querendo ser pretensioso, é-me inato, sai-me com alguma naturalidade. Desde a escrita até ao pensar em conceitos. Nunca pensei desenvolver uma carreira artística, não faz muito parte de mim. Entrando um bocado na pergunta das diferenças, talvez seja isso que me distingue. Nunca pensei em ter uma carreira, mas quando estou a cantar e quando lanço projetos estou a fazer por isso.

Eu faço, e às vezes forço-me, porque é um talento que eu não quero desperdiçar. E se calhar há uma parte de mim que não quer ver o resto a ser desvalorizado.

Artigo por Marta Ribeiro