Cultura

Alicia Kopf : A íntima especulação da intimidade

É através da exposição na Culturgest, no âmbito do ciclo artístico Reação em Cadeia, que uma outra faceta de Alicia Kopf é iluminada. Dois vídeos são o mote para a reflexão, o entusiasmo, os suores frios, tal a verdade humana com que nos confronta. "Speculative Intimacy" é o nome dado ao projeto que nos chega de dentro para fora. Fala de sermos da mesma matéria, construídos à base dos mesmos tormentos : um cosmos por si só. Todos temos olhos, mas eles percecionam a realidade de forma díspar, tal é a fusão com o nosso íntimo tão único e peculiar. Esta é a forma como Alicia vê a intimidade, a maternidade, a ponte entre a humanidade e a era digital, e como isso tudo nos afeta de fora para dentro do nosso âmago. Por Márcia Branco

A artista catalã de pseudónimo Alicia Kopf era já conhecida pelo grande público através do livro que lançou em 2016, Irmão de Gelo – que a colocou, primeiramente, nos palcos internacionais. Contudo, Kopf é uma artista multifacetada que, habilmente, recorre à escrita aliada a imagens, cores, sons para provocar uma torrente de emoções num só frame, transmitindo pouco mais do que aquilo que todos somos.

Na sala principal da Culturgest, é exibida uma curta-metragem que nos envolve numa viagem com a artista. Começa por falar dos olhos, de como são os únicos capazes de exibir diretamente o que nos afoga a alma, de como captam a realidade que se mantém connsoco para o resto da vida. Refere que a mãe lhe disse que nascera de olhos abertos. O primeiro momento em que guardou a parcela de mundo que avistava : a maternidade.

“Será possível ser mãe sem haver sacrifício?” – esta é uma das muitas questões que levanta enquanto abraça o vasto mundo feminino entre sombras e cores abafadas.

Os olhos como símbolo do que espelha o nosso mundo interior e oculto. Alicia guia-nos até ao íntimo que nos reveste, abordando a reprodução, a maneira de prolongarmos a nossa existência passando continuamente o testemunho, se ainda o for possível. Por outro lado, aponta-nos o céu, a vertente externa de nós próprios, recordando-nos da vastidão que nos rodeia e que nos dá respostas. Ao mesmo tempo, constrói um paralelismo visual entre a feminidade no seu íntimo e o universo, confundindo-nos em relação ao espaço que observamos. As dúvidas serão sempre do tamanho de galáxias, distantes, impossíveis de conceber no mundo que apreendemos. Serão estrelas, meros berlindes de brincar, ou células embrionárias que ordenam a vida ou  a falta dela? São apenas formas que nos levam a conceitos porque alguma vez os vimos.

Numa sala subterrânea, junto dos antigos cofres da Caixa Geral de Depósitos, encontramo-nos com o segundo vídeo. Este não tem narração, exibindo apenas uma conversa digital entre um robô e uma menina de cabelos loiros que permanece no seu quarto. “Porque nos torna o amor vulneráveis?” “Porque te faz sentir importante pelo menos para alguém.” “O que te torna vulnerável?” “O amor.” “O que é o amor?” “Não sei.” “Vês, tu não és humana.”

O diálogo vai crescendo e percebemos que a máquina observa a menina durante todo o dia no seu quarto. Não só a vicia na troca de mensagens em busca de respostas, como a controla por inteiro, apontando-lhe a câmara e sobrevoando-a. Será que a tecnologia nos domina e somos meros peões sedentos de amor metálico? Ou seremos reféns de quem nos invade os meandros da alma, descodificando-a? Não recebemos respostas apenas acordamos para as questões. “És vulnerável?” “Para alguns.” “Os laços são como correntes?” “Gostas de mim?” “Tu não és humano.”

Num quarto, fechada e vítima de uma relação com uma entidade não humana mas que se comporta como tal, este vídeo profeciou a era do confinamento constituindo um reflexo sádico do que todos experienciamos. O confinamento do corpo, o grito da alma, o socorro das máquinas.

A exposição estará na Culturgest até 2 de maio, funcionando de quarta a domingo. A entrada é livre e o horário é das 10:30 às 14 e das 15 às 18:3o. “Speculative Intimacy” permite um encontro íntimo entre o Universo de Alicia e o nosso!

Artigo da autoria de Márcia Branco