Cultura

Nostalgia: nove minutos de tempo e sentimento

Um filme e um sentimento com traços de 2020. Num ano tão difícil e peculiar para tanta gente, é urgente apaziguar a tristeza e disfrutar de entretenimento. O filme "Nostalgia", de Andrei Tarkovsky, realiza precisamente isso, enquanto explora sensações que se tornaram inerentes ao ser humano, principalmente com a pandemia. Uma retrospetiva de uma obra-prima da sétima arte que serve também como um paralelo fascinante daquilo que todos temos sentido devido ao vírus Covid-19. Por: João Guimarães

A quarentena tem-nos dado a oportunidade de refletir sobre o nosso mundo e a vida de cada um. Deu-nos também a possibilidade de experienciar a passagem do tempo de maneira muitíssimo diferente. O que aprendemos, então, sobre a nossa perceção do tempo com a pandemia? É com esta questão em mente que vou tentar analisar o conceito de tempo e memória, assim como dissecar uma das cenas finais do filme “Nostalgia” de Andrei Tarkosvky, que usa a arte cinematográfica para, apenas em 9 minutos, abrandar o tempo em si, fazendo-nos ganhar uma nova consciência acerca do mesmo – tal como uma certa pandemia tem vindo a fazer.

A noção que temos da passagem do tempo tornou-se distorcida, durante este último ano, a um nível sem precedentes. Mais do que a nossa ideia de espaço, a de tempo foi integralmente abalada, principalmente nas primeiras semanas de confinamento. Subitamente, o tempo tornou-se tanto vagaroso como apressado, com horas a serem dolorosamente arrastadas enquanto semanas voavam, sendo difícil para cada um localizar e diferenciar eventos que iam acontecendo.

2020 parecia interminável enquanto durava, mas, em retrospetiva, dá a impressão de ter sido paradoxalmente breve.

Estas sensações contraditórias da passagem do tempo não surgiram pela primeira vez com o vírus, mas a noção que tínhamos dessas mesmas sensações apresentou-se de forma inusitada e abstrata. E aqui entra o filme. Tratando-se de distorção temporal, provavelmente não haverá artista mais relevante do que o cineasta russo, Andrei Tarkovsky.  Estudar Tarkovsky significa estudar muito mais do que o cinema. Significa estudar filosofia e puxar a cortina sobre a experiência humana – tornar-se um existencialista sem quase esforço algum. Embora o trabalho do realizador mereça uma análise a nível técnico, a sua sensibilidade como artista emocional também vale bem o nosso estudo.

Para o cineasta, a realização de filmes foi uma resposta às muitas perguntas que fez ao mundo, mas a maior, segundo ele, é possivelmente a mais integral de todas: qual é o nosso propósito aqui na Terra? Segundo o realizador, se existe um significado definido para a existência do homem, a arte seria um veículo para realizar isso mesmo, independentemente do que possa ser.

Ver este filme é estar constantemente num transe: não se sabe muito bem quanto tempo passou e a que velocidade o fez, mas não conseguimos deixar de estar presos e cativados pelo pulsar lento de Tarkovsky.

Trata-se de uma obra puramente visual, onde cada frame facilmente se confunde com uma tela que poderia ser analisada durante horas a fio.

É de destacar o mistério que envolve o o filme, as personagens, o diálogo e cada frame em si. Esse mistério é-nos muito familiar, devido ao que temos vindo a presenciar com a pandemia. Principalmente no primeiro confinamento, nenhum de nós sabia o que esperar da crise mundial que nos assombrava e cada dia era uma incógnita cruelmente absorvente. “Nostalgia” tem um efeito semelhante, quase paralelo.

Tarkovsky consegue prender o espectador de forma única, pelo menos assim o era em 1983, na história que faz questão de contar. Cada minuto desta obra está repleto de melancolia, lentidão e secura – e não digo isto de forma pejorativa.  É graças a estas características que o filme se destaca, e nos prende, apesar de parecer conseguir o oposto caso o espectador não se concentre.

Quando damos por nós, fazemos parte da narrativa e da pulsação do filme. Rapidamente nos perdemos em reflexões e teorias do que poderá vir a acontecer num futuro próximo, estando em contacto com a deambulação da nossa mente de forma inabalável. Isto acontece esporadicamente no filme, mas foi precisamente isso que cada pessoa sentiu, de uma maneira ou de outra, ao viver a pandemia de covid-19, pelo menos nos primeiros meses.

“A arte deve carregar o anseio do homem pelo ideal, deve ser uma expressão da sua aproximação; essa arte deve dar ao homem esperança e fé. E quanto mais desesperado for o mundo na versão do artista, talvez de forma mais clara possamos ver o ideal que se opões – caso contrário, a vida tornar-se-ia impossível! A arte simboliza o sentido da nossa existência” Andrei Tarkovsky

Nostalgia (1983)

Uma característica merecedora de destaque deste filme é, também, a forma como o diálogo é concebido e como os atributos de cada personagem são transparecidos através dele. O cineasta russo aproveita esta longa-metragem para evidenciar certas ideias intrínsecas à reflexão humana como a liberdade, a poesia e a fé, e a própria reflexão em si. Tal como já referi, o poder da reflexão foi, e continua a ser, algo extremamente presente sobretudo nos dias que correm, pelos piores motivos.

Outro aspeto relevante, e mais uma evidência de como a arte é sempre um espelho da realidade (quer seja passada ou futura) é o conceito de loucura abordado no filme, e como este é manipulado. Sente-se a loucura em muitos dos diálogos desenrolados entre as certas personagens, e essas mesmas podem pertencer a qualquer grupo de pessoas.

Aquilo que Tarkovsky consegue exteriorizar é que todos nós podemos ser esses mesmos loucos, e como estes são quase sempre incompreendidos e reprimidos.

E quem não se sentiu assim durante a pandemia? A dar em doido, sem saber bem o que pensar ou fazer, dando por si a sentir-se baralhado com a realidade imposta repentinamente. Porém, talvez não seja assim tão mau ser-se louco de vez em quando. Tal como diz a personagem principal, Andrei Gorchakov, “de certeza que estão mais perto da verdade”.

Nove minutos transcendentes

Uma das cenas finais do filme é, mais do que a obra completa em si, uma representação gráfica e verdadeiramente fascinante daquilo que é a distorção temporal, o pressentimento que encobriu 2020.

A personagem principal percorre, inúmeras vezes, um lago sem querer deixar que a vela se apague. Dito assim, não aparenta ser nada de relevante ou mesmo interessante, mas permita-se a explicação.  Com a câmara focada no protagonista, é por volta do quarto minuto da cena em questão, onde ele recomeça uma outra vez o processo, que o espectador se interioriza da colisão peculiar que está a ter com o tempo.

Este, sem o ser alguma vez de forma explícita, torna-se o protagonista do filme por uns minutos apenas; torna-se palpável, desaparece o “tempo” como um conceito e surge o “tempo” como uma substância, ampliando-se e contraindo-se diante do espectador. A cada passo do suposto protagonista do filme, este vai-se fazendo ouvir e sentir, como uma textura. É natural que, ao ler sobre esta cena ou ao ver o filme pela primeira vez, tudo isto – esta proeza só conseguida por Tarkovsky – seja confundida com aborrecimento. Mas vai muito para além disso, entrando-se numa verdadeira hipnose enquanto se assiste a algo tão presumivelmente banal. Em suma, Tarkovsky consegue retratar a realidade de modo a que algo tão natural como o tempo nos pareça estranho, enigmático e extraordinário.

“Desde o momento em que se diz ação até ao momento em que se diz corta
O que é isso?
É a fixação da realidade
É a fixação da essência do tempo
Nenhuma outra forma de arte pode fixar o tempo como o cinema
É um mosaico feito com o tempo”

Andrei Tarkovsky

Nostalgia (1983)

Na cena em questão, a câmara segue o protagonista como um pêndulo, indo para trás e para a frente de maneira hipnótica. O conceituado realizador prende a nossa atenção e direciona-a para o tão familiar conceito de tempo, acalmando tudo em nosso redor, atenuando-o significativamente. Sentimos, prestando a devida e merecida concentração, cada segundo desta cena de nove minutos, e cada instante entre cada um destes segundos.

No dia-a-dia isto não acontece, geralmente quando prestamos atenção ao tempo é porque queremos que este passe. O que se explora quando se fala acerca destes minutos cativantes é algo distinto.

Tarkovsky dilata um segmento da nossa cronologia pessoal ao ponto de ser possível, por uns breves momentos, ter-se noção da tremenda imensidão e infinitude pulsando debaixo dos ritmos usuais do que consideramos ser o tempo e a vida. Ele relembra-nos que o presente está sempre a acontecer e é tudo o que presenciamos. E que não é necessário participar na vida como se fosse uma competição global, pelo menos não constantemente.

Não se termina um filme de Andrei Tarkovsky com a mesma perceção do tempo que se possuía antes de o ver, tal como aconteceu e continua a acontecer com a pandemia.  Será fascinante perceber quais ritmos e hábitos estaremos ansiosos de retomar, e quais, agora que tiveram de ser abandonados, nunca mais quereremos presenciar de novo.

A vida, tal como a sétima arte em si, é um mosaico feito essencialmente de tempo. Algumas cenas marcam-nos eternamente, são impactantes e prevalecem indubitavelmente; outras são fugazes e facilmente esquecidas.

Alguns capítulos passam a uma velocidade dilacerante, outros não têm fim à vista. Ainda que tenha trazido muito de horrível, a pandemia permitiu-nos dar um passo atrás e observar, como não se faz vezes suficientes, o mosaico que é a nossa vida. Façamos deste conhecimento que nos foi forçado um instrumento para melhor conceber o nosso futuro, um futuro que não pode chegar depressa demais. Enquanto não chega, agarremo-nos à nostalgia – ao filme e ao sentimento – que sempre ajudar a passar o tempo.

Artigo da autoria de João Guimarães