Cultura

Festival Eurovisão da Canção 2021: O que esperar da primeira semifinal?

Depois do cancelamento da edição de 2020, devido à pandemia de COVID-19, acumularam-se dois anos de expectativas em relação à edição deste ano do Festival da Eurovisão, que vai ter lugar em Roterdão. A um mês do começo do Festival, o JUP analisa as dezasseis canções a competir na primeira semifinal. Por: Fernando Costa


Depois da vitória de Duncan Laurence em 2019 com a poderosíssima “Arcade”, a bússola eurovisiva apontou o seu novo destino: Roterdão. E apesar da pandemia ter trocado os planos todos e impedido a realização da edição de 2020 – marcando o primeiro ano sem Eurovisão, desde o seu início em 1956 –, o maior evento de música a nível mundial mostra estar bem de saúde. Há baladas, números dançáveis, rock e propostas que desafiam qualquer rótulo. Há canções com mensagens e toda a kitschness que faz do Festival um grande deleite para os fãs eurovisivos à volta de todo o mundo.

Trinta dias antes da realização do evento, o JUP fez uma análise de todas as canções a concurso, começando pela primeira semifinal.

Abaixo está um menu com todas os países concorrentes para facilitar a navegação.

Lituânia: The Roop – Discoteque

Dos favoritos à vitória em 2020, os The Roop voltam com as coreografias irreverentes, os refrões orelhudos e os visuais capazes de deixar qualquer um rendido à sua entrega.

O tema “Discoteque” fala sobre dançar sozinho e transformar a nossa casa, ou o nosso quarto, numa discoteca privada. Em tempos de pandemia e de confinamento, a sua mensagem simples ganha outro nível por ser relacionável e pertinente.

A primeira canção a subir a palco em Roterdão promete ser uma das mais fortes candidatas à vitória.

https://www.youtube.com/watch?v=0rsUJWSwb0c&ab_channel=EurovisionSongContest


Eslovénia: Ana Soklič – Amen

De regresso ao certame, depois de apresentar “Voda” em 2020, a proposta eslovena volta a ser uma clássica “diva ballad” que não deixa dúvidas acerca da poderosa voz de Soklič.

Infelizmente, além do espectro vocal invejável da intérprete, há pouco na canção que a distinga das mil outras propostas semelhantes do passado. A qualificação da canção à final é possível, mas as probabilidades não estão, de todo, a seu favor.

https://www.youtube.com/watch?v=p5LW-09r2JQ&ab_channel=EurovisionSongContest


Rússia: Manizha – Russian Woman

A Rússia sempre nos habituou a canções poderosas, com mensagens maiores que o mundo ou performances megalómanas. Este ano, o tema russo a concurso troca-nos as voltas e é complexo, irónico e de difícil digestão.

Alvo de críticas pelos mais conservadores do seu país por abordar o empoderamento feminino, “Russian Woman” é um dos temas mais divisivos em competição. A sua qualificação para a final é provável, tendo em conta a grande diáspora Russa, mas a canção é polarizante, o que deixa tudo em aberto.

https://www.youtube.com/watch?v=l01wa2ChX64&ab_channel=EurovisionSongContest


Suécia: Tusse – Voices

A Suécia tem-nos habituado a propostas de qualidade, destinadas logo à partida, ao sucesso na tabela eurovisiva. 2021 não será o ano em que isso muda. Apesar de pouco desafiadora, “Voices” tem todos os elementos da fórmula clássica de sucesso sueca. A voz de Tusse é gigante, a mensagem da letra ressoa e é fácil de perceber, e o conjunto global é sonante e memorável. Ainda que não seja uma canção com potencial para vencer, não surpreenderá se ocupar o top 10 na Grande Final.

https://www.youtube.com/watch?v=5P1ueI9j6gk&ab_channel=EurovisionSongContest


Austrália: Montaigne – Technicolour

Um dos dois únicos países a qualificarem-se 100% das vezes à Grande Final até aos dias de hoje, a Austrália apresenta em 2021 aquela que deverá ser a proposta menos segura desde que entrou pela primeira vez.

“Technicolour”, apesar de vibrante e colorida, sofre por ser banal e esquecível. A versão “live” divulgada até agora revela, também, fragilidades na voz de Montaigne, o que pode vir a comprometer a performance em Roterdão.

https://www.youtube.com/watch?v=ghT5QderxCA&ab_channel=EurovisionSongContest


Macedónia do Norte: Vasil – Here I Stand

“Here I Stand” é a balada pomposa e “enorme” deste ano. Ainda assim, a pompa não chega para esconder uma construção confusa e desconexa ao nível da composição.

A canção da autoria de Vasil é um conjunto de ótimas ideias que soam coladas à força e o resultado acaba por ser pouco natural e orgânico.

Por vezes o todo é menor que a soma das suas partes.

https://www.youtube.com/watch?v=nd4YfjVWrro&ab_channel=EurovisionSongContest


Irlanda: Lesley Roy – Maps

Lesley Roy é um dos exemplos perfeitos do artista que, depois de não poder participar na edição de 2020, voltou com uma proposta mais forte, mais segura e mais madura.

Se “Story Of My Life” era uma canção de pop rock banal, “Maps” é muito mais do que aquilo que se parece ouvir à partida. Tal como o seu título anuncia, a canção é uma viagem interessante ao sabor de uma sonoridade polida, mas muito pouco óbvia.

Depois de um último lugar na semifinal em 2019, é sempre bom ver uma Irlanda a regressar em força.

https://www.youtube.com/watch?v=z6ZUBzqPxds&ab_channel=EurovisionSongContest


Chipre: Elena Tsagrinou – El Diablo

Em 2021, o Chipre volta a fazer o que faz melhor: pop dançável, memorável e impossível de ignorar. Na linha de “Fuego” em 2018 e “Replay” de 2019, “El Diablo” promete voltar a transformar o palco do Festival numa verdadeira pista de dança.

Ainda que não seja inesperado, o tema interpretado por Tsagrinou é provocador, mas acessível; intenso, mas de digestão fácil.

“El Diablo” é o Chipre a ser o Chipre, e nós estamos em paz com isso.

https://www.youtube.com/watch?v=mk4amZlPa4g&ab_channel=EurovisionSongContest


Noruega: Tix – Fallen Angel

“Fallen Angel” marcou a época eurovisiva por ser, provavelmente, a vencedora mais inesperada de uma Final Nacional. Competindo contra os veteranos Keiino, muitos davam a sua derrota como certa.

Ainda assim, afinal de contas, Tix vai representar a Noruega com uma canção pop que, apesar dos visuais “over-the-top”, tem muito pouco de notável, acabando por soar genérica, processada e morna.

Sem ser particularmente desagradável, “Fallen Angel” poderá cair por terra por ter dificuldade em destacar-se num ano que se caracteriza por propostas arriscadas e fora da caixa.

https://www.youtube.com/watch?v=bp2kfhuv8ZU&ab_channel=EurovisionSongContest


Croácia: Albina – Tick-Tock

“Tick-Tock” é o número de dance-pop obrigatório no alinhamento de um Festival.

Apesar disto, a canção interpretada por Albina é uma aposta demasiado segura que não vai muito além da estrutura básica da canção pop normal.

Se o staging lhe permitir, tem potencial para chegar à final, ainda que não aspire, provavelmente, os lugares cimeiros da tabela.

https://www.youtube.com/watch?v=IHS_2GpNwmA&ab_channel=EurovisionSongContest


Bélgica: Hooverphonic – The Wrong Place

Depois de mudarem de vocalista do ano passado para este, os Hooverphonic trazem uma das canções mais ímpares do Festival. Contida mas atrevida, “The Wrong Place” conta a história de uma one night stand que corre mal.

Sem qualquer esforço em ser “eurovisivo” o tema belga destaca-se pela diferença e pela atmosfera obscura que traz de mão dada com a voz enigmática de Geike Arnaert.

“The Wrong Place” deverá ser beneficiada pelo júri, o que poderá fazer com que sobressaia na classificação final.

https://www.youtube.com/watch?v=0EQyG1Yjlgw&ab_channel=EurovisionSongContest


Israel: Eden Alene – Set Me Free

O tema israelita a concurso não prometia voos muito altos. No entanto, há umas semanas, Set Me Free sofreu já uma reformulação completa de maneira a dar foco ao espectro vocal invejável de Alene.

Afinal de contas, ainda que seja difícil de prever o resultado que espera a canção israelita, a performance vocal será, sem dúvida, uma das melhores do espetáculo. E assim, ainda que a qualificação possa não acontecer, para Eden Alene nunca será uma derrota.

https://www.youtube.com/watch?v=9nss3FsrgJo&ab_channel=EurovisionSongContest


Roménia: Roxen – Amnesia

“Alcohol You”, a proposta de Roxen de 2020 tinha potencial para vencer no certame. Este ano, Roxen sofre da responsabilidade acrescida de competir contra o enorme tema que apresentou anteriormente.

E assim, “Amnesia” é, em quase tudo, inferior a “Alcohol You”. A exploração de temas como a solidão e a depressão é pertinente, mas há menos demonstração vocal, emoção e (ironicamente) todos os elementos que tornavam “Alcohol You” tão memorável.

Não sendo uma proposta vencedora, Amnesia acaba, no entanto, por ser uma ótima canção que certamente passará à final.

https://www.youtube.com/watch?v=TkRAWrDdNwg&ab_channel=EurovisionSongContest


Azerbeijão: Efendi – Mata Hari

“Mata Hari” representa, de longe, o menor esforço de composição entre os países que escolheram levar o mesmo artista de 2020 a palco. Apesar do talento inegável de Efendi, “Mata Hari” é basicamente uma cópia de “Cleopatra”, do ano passado. E se a última era original e cativante, “Mata Hari” é só uma versão reciclada da mesma canção.

Não obstante, “Mata Hari” passará à final aos ombros do talento de Efendi, ainda que seja triste ver um esforço tão reduzido por parte da equipa de composição na apresentação de um tema, num ano em que as canções são, inevitavelmente, comparadas com as do ano anterior.

https://www.youtube.com/watch?v=HSiZmR1c7Q4&ab_channel=EurovisionSongContest


Ucrânia: Go_A – Shum

Todos os anos há uma canção do Festival que, para bem ou para mal, parece vinda de outro planeta. Este ano, temos “Shum”. Um tema que desafia todos os catálogos juntando elementos folk, eletrónicos, world music e pop; surge hipnotizante e enigmático.

Os Go_A elevaram o nível que haviam estabelecido com “Solovey” em 2020 e parecem focados em manter o o record ucraniano perfeito de 100% de presença na Grande Final desde que as semifinais foram criadas.

https://www.youtube.com/watch?v=U7-dxzp6Jvs&ab_channel=EurovisionSongContest


Malta: Destiny – Je Me Casse

“Je Me Casse”, tema que encerra a primeira semifinal, tem todas as potencialidades para encerrar também a Grande Final, na performance do vencedor do Festival. “Je Me Casse” é um hino ao feminismo, ao respeito próprio e à afirmação pessoal.

Com uma intérprete carismática, uma voz poderosíssima, um refrão simples mas acutilante, e uma bridge que promete ser um dos momentos mais marcantes do festival, alinham-se os astros todos para que Malta possa conquistar a sua primeira vitória no certame. E só poucos ficariam tristes se assim acontecesse.

https://www.youtube.com/watch?v=PQKiHr5qEfA&ab_channel=EurovisionSongContest

A primeira semifinal do Festival Eurovisão da Canção de 2021 terá lugar no dia 18 de Maio, terça-feira.

Artigo da autoria de Fernando Costa