Crónica Cultura

A Voz das Violas Esquecidas

Pensar em fado é pensar em Portugal. É pensar num estilo tipicamente português. É pensar em fadistas e instrumentistas. É pensar em guitarras portuguesas. Porém, não somente de fadistas e guitarras se faz o fado. Existem também as violas e os seus tocadores, os violistas. Por: Tiago Rocha

O fado é o canto do sentimento, do amor. O amor que reveste a alma de todos e de cada um que o ouve e entoa. O anseio pelo que foi, é e, porventura, será. Contudo, a alma tem um ritmo, um balanço, que define o seu temperamento. São as violas que dão esse temperamento ao fado. Ouçamos um fadista cantando acompanhado somente à voz duma guitarra e notemos o quão vazio, o quão sensabor a atuação se torna. As violas são o sal do fado.

Porém, tanto a viola como os seus tocadores são muitas vezes relegados a um papel secundário, esquecidos por entre os louvores tecidos aos fadistas e aos guitarristas. No fado, a fadista é a vedeta e a guitarra o seu símbolo por excelência.

O violista Martinho d’Assunção demonstrou o quão versátil pode ser este instrumento, que, quando bem tocado, pode expressar-se tão ternamente como um violino e também tão possante como uma fanfarra.

Não importa. Existem os fadistas, os guitarristas e os restantes, os outros.

Por isso nos recordamos de nomes como Amália Rodrigues, como Alfredo Marceneiro, como Ada de Castro, como Fernando Maurício. Enfim, toda uma miríade de fadistas que, nunca desvalorizando o seu valor, são precisamente isso – fadistas, os recordados, os afamados fadistas.

Por isso nos recordamos de Carlos Paredes e da sua guitarra, mas não de Fernando Alvim e da sua viola, de Raul Nery, mas não de Júlio Gomes. Nomes de artistas esquecidos como Joaquim do Vale, José Maria Nóbrega, Castro Mota, Manuel Martins, Pedro Leal, José Inácio, Francisco Perez Andion e o já mencionado Martinho d’Assunção, entre muitos que compõem o leque de grandes violistas que fizeram do fado o que hoje é.

Esta é uma ocorrência recorrente em todo o mundo da música.

Porém, como diria Dante, somente compreendendo o todo das partes, podemos compreender o todo que estas compõem. Ou seja, somente compreendendo a suma importância da viola, e da parte que esta constitui, podemos entender o todo que é o fado.

Vozes, guitarras e violas. A trilogia fadista. As partes do todo que é o fado. Nenhuma superior ou inferior. Nenhuma mais afamada ou esquecida.

A perfeita união da trilogia fadista é a apoteose expressiva do canto do amor. É o fado com “raça” como diriam os antigos, que ainda vão morrendo e por isso não são muito antigos.

Ouçamos, então, os fadistas, ouçamos as guitarras, mas ouçamos também a voz das violas esquecidas.

Artigo da autoria de Tiago Rocha