Cultura

Ana Deus: “Fazer música é entregarmo-nos um bocadinho ao mistério”

À conversa com a carismática Ana Deus, fizemos uma espécie de retrospetiva da carreira dos Três Tristes Tigres, falamos sobre o seu último álbum "Mínima Luz", eleito um dos melhores trabalhos musicais de 2020 pela equipa JUP, e tentamos perceber como a banda tem gerido as suas atividades artísticas e criativas em tempos de pandemia. Por Ana Garcia

Viajamos até à efervescência musical dos anos 90, onde se abriram portas para bandas portuguesas emergentes encontrarem palcos e públicos, e uma espécie de nova imprensa musical ajudou a amplificar novas vozes e sons. Entre utopias e desafios do mundo de possibilidades da Internet, “truques, técnicas e manhas” têm de ser mobilizados na corrida pelas visualizações. Depois de alguns anos de silêncio, ‘Mínima luz’ constitui uma génese e um reencontro criativo, que brota em tempos estranhos, de fragilidade humana, mas também de necessidade de reavivar esperanças e de reacender um encanto, que, algumas vezes, sentimos como perdido.

Em retrospetiva, o que sentem / pensam quando recordam a cena musical em Portugal na altura em que nasceram os Três Tristes Tigres?

Quando começámos em 93 havia bem menos projetos musicais, mas em contrapartida mais publicações (jornais e revistas) e mais espaço para alguma análise e crítica desses projetos. As editoras eram ainda responsáveis por toda a produção e procuravam artistas e bandas novas no rescaldo do entusiasmo dos anos 80. Os estúdios começavam a ser partilhados e rentabilizados de outra forma, com os grandes a serem substituídos por outros mais pequenos (e a serem reocupados por programas de televisão com audiência). Com o abandono das gravações em fita passámos a levar mais trabalho gravado de casa, o que permitiu um som mais particular e diminuiu o tempo de estúdio. Vivia-se, com entusiasmo, a noite quase como uma “curadoria de música de dança”, onde os vários espaços contratavam djs com características e escolhas bem vincadas. Eu tinha mais saúde e tudo me parecia mais vívido.

Quais eram as utopias da banda quando esta emergiu publicamente no início dos anos 90?

Se utopia havia era sobretudo a de encontrar um público. E passar na rádio e na TV…

Quais foram as principais mudanças a nível musical que sentiram na transição da década de 90 para o século XXI?

Talvez o aumento da produção e da influência da música eletrónica. Também me parece que os estilos musicais, critérios que eu não domino muito bem, foram ficando cada vez menos estanques.

“Até o fado começou a namorar com a eletrónica”

Que efeitos provocaram na vossa produção e divulgação musical, a entrada no novo universo da internet e das tecnologias digitais?

Além das internets, a acessibilidade dos meios de gravação e produção permitiram-nos começar a construir de forma mais independente o nosso som. Os materiais foram ficando mais baratos mais pequenos e mais eficazes, o que permitiu a cada artista construir, aí sim, a sua utopia. A internet indiscutivelmente contribuiu para agilizar contactos e divulgação, no entanto estas maravilhosas possibilidades têm sofrido nestes últimos anos com algumas perversidades do seu crescimento abissal, e podemos voltar a cair num estado de pouca visibilidade, se não usarmos todos os truques, técnicas e manhas para nos mantermos à tona das visualizações.

Como percecionam o público que vos ouve e assiste aos vossos concertos?

Não sei responder, toda a gente é diferente, mas imagino que podia ser amiga de qualquer um deles. Não me parece que seja fácil gostar de nós…

Como se definem musical / artisticamente?

Como já disse, tenho dificuldade em distinguir estilos. A música que faço, seja nos Tigres ou noutro projeto qualquer, tem quase sempre que ver com bons textos, de alguma forma desalinhados, com os quais aprendo e que tento passar da forma mais justa que, na altura, me seja possível. Tenho profundo apreço pelos talentos escreventes e sendo eu tão parca em palavras, e tão desarticulada, visto essa pele no tempo de uma canção. Quanto à música, estou frequentemente ao lado de quem constrói e executa dando a minha opinião e atenção, mas não lhe consigo dar nome.

Qual a vossa relação com a cidade do Porto e o panorama cultural da cidade?

Gosto do Porto como se fosse a minha cidade berço e agrada-me a sua dimensão, adequada à criação de trocas e parcerias, e tendo mesmo assim muita gente nova que por aqui vai passando e alimenta esta pequena diversidade.

Estes últimos anos, após a vereação de Paulo Cunha e Silva, e com a continuação das políticas e apoios culturais, a cidade voltou a encontrar os seus artistas. A criação de bolsas e a abertura ou reabertura de espaços foram muito importantes, no entanto há uma rede de espaços (bares e discotecas incluídos) e associações independentes (que foi o que nos valeu no tempo do outro senhor), que importa não deixar cair e que estão agora em risco, sem capacidade para aguentar o tombo pandémico.

O álbum “Mínima Luz” transporta-nos para ambiências sonoras eletrizantes e experimentais, para uma espécie de trip musical e poética intimista… Que estados de espírito brotaram para a produção deste novo álbum?

Como é um disco após muitos anos de intervalo, ou posso mesmo dizê-lo, um disco depois de um fim tem, quanto a mim, um ar de génese. Encontro algum paralelo com o ‘Guia Espiritual’ em certos temas, mas enquanto o ‘Guia’ é o princípio de um princípio de um futuro mais esperançoso este ‘Mínima luz’ é o princípio depois de se ter perdido tanto, mas não deixando que o desencanto se instale.

“Há mais energia na força e mais empenho na fragilidade. Há mais vontade de partilhar também”

Este álbum é alguma tentativa de exorcismo da realidade? Como foi o processo da sua produção?

Arrumar e ser arrumado, conduzir e ser conduzido num processo criativo, no meu caso tão imaterial, é de certa forma sublimação. Estamos rodeados de coisas que temos de gerir, objetos, espaços, corpo. Fazer música, pois que me parece ter um lado que não controlamos de todo, é entregarmo-nos um bocadinho ao mistério. Como é que fiz aquilo? Consegue-se rastrear parte, mas há um lado que terá a ver com questões mais (sobre)naturais, e estando nós cada vez mais “kitados”, criar é libertador.

Enquanto banda / artistas, como têm gerido o atual cenário de pandemia e confinamento?

Tem sido muito difícil… Financeiramente é o descalabro. A nossa condição tão independente dá-nos poucas defesas. Ensaiam-se algumas tentativas de organização e união para não cairmos no esquecimento, mas não há interlocutor. O ministério está entregue a uma pessoa sem noção nenhuma e sem equipa também. Os apoios que vejo serem lançados são miseráveis e confusos, cheios de procedimentos burocráticos que desencorajam. No meio deste desapoio tive a sorte de trabalhar até dezembro em projetos mais pequenos, com menos risco, portanto, e de me ir aguentando. Enquanto espero pelos concertos vou trabalhando num novo disco, a escolher poemas e a tecer pequenos vídeos.